João Fraga de Oliveira
O que é a economia?
Já não é a primeira vez que esta famigerada questão – o que é a economia? – me cria problemas. A Gazeta da Beira é testemunha. Há dois anos, fez mesmo disso eco numa das suas edições (publicação de 23/2/2012).
Então, o dissenso foi com o meu (ex)amigo Varinho (agora, sr. Álvaro, perdão sr. doutor Álvaro). Talvez não faça as pazes com ele tão cedo, visto que consta que vai para a OCDE, ou lá o que é.
Agora, foi com mais quatro (ex)amigos que são (tele)visitas frequentes lá de casa: o Pedro, o Paulo, a Maria e o António.
Para o que me deu! Em dia em que todos nos deveríamos concentrar só na grande área patriótica que foi a condecotação, digo condecoração do Ronaldo, não é que, “bejeca” puxa “bejeca” (o António fez questão que fosse superbóque), me deu para com eles cavaquear (esperava eu que com todo o consenso, como recomenda o Sr. Professor Cavaco) sobre pieguices sem ajustamento a esse momento tão ou mais histórico que o 17 de Maio de 1640, perdão, de 2014?
Mas, pronto! Esta questão de saber o que é a “economia” é uma obsessão permanente. Demais a mais, se por vezes fico sossegado por ouvir dizer (e, mesmo, já ter lido o que escreveu alguém sobre isso, creio que se chamava Karl Polanyi) que “a economia é uma ciência eminentemente social”, fico todo arrepiado quando me chega aos ouvidos que a “economia” tem – vejam lá! – mãos invisíveis.
Mais, há dias, fiquei mesmo aterrorizado quando ouvi um bispo citar o próprio Papa Francisco: “esta economia mata”.
Por isso, a torto e a direito, a este e aquele (e até a mim próprio), nas situações mais absurdas (inclusive a dormir…), pergunto: “O que é a economia, o que é a economia?”.
Mas, como dizia, num destes dias, amena e descontraidamente, conversava eu com aqueles meus quatro (ex)amigos sobre banalidades sem importância nenhuma, enfim, palavreado só para fazer sede para as “bejecas”. Futilidades.
Dizia-lhes eu: “Há um milhão e meio de desempregados, desde 2011 foram destruídos 330.000 postos de trabalho, nos últimos dois anos foram obrigadas a emigrar 225.000 pessoas, aumenta o número de jovens (25 aos 34 anos) no desemprego, aumenta o desemprego de longa duração (mais de uma ano) e o número de desempregados (mais de 450.000) que não recebem qualquer subsídio de desemprego, aumentam as situações de sobreendividamento das famílias e as falências de pessoas, degrada-se a qualidade e o acesso aos serviços públicos da saúde, da educação e da segurança social, fenecem a investigação científica e a cultura, aumenta o custo dos bens e serviços essenciais, diminuem os salários, as pensões, o subsídio de desemprego, o de doença, o abono de família, o complemento social dos idosos. Enfim, deterioram-se as condições de trabalho e de vida das pessoas e, sobretudo, acentuam-se as desigualdades sociais”.
Retorquiam-me, em coro, o Pedro, o Paulo e o António, apoiando-se os três no olhar professoral, quase maternal, da Maria: “És um irrevogável negacionista! Então, não vês que há um extraordinário aumento das exportações de combustíveis, que se protegeram, vendendo-os, activos estratégicos como a ANA, a EDP, a REN, os CTT e a CGD-Seguros, que as maiores riquezas estão cada vez mais ricas, que diminuiu a taxa (que é o que interessa, a taxa) de desemprego, que em 2013 foram criados quase 120.000 (só faltaram 90.000) postos de trabalho, que para serem despedidos vão ser requalificados 25.000 trabalhadores da função pública, que em 2013 vamos arrecadar 300 milhões de euros do Serviço Nacional de Saúde, que temos no Orçamento de Estado 5330 milhões de euros de provisões para as eleições, que vai aumentar em escala a arrecadação de imposto de circulação com os Lamborghinis e Ferraris que o totofactura vai distribuir aos FDP (fanáticos dos popós), que vai haver aulas de empreendedorismo logo no 1º ciclo, que nos ajustámos às metametas (para além das metas) que impusemos à troika, que, enfim, há uma sólida e consistente recuperação da economia?”
Ora, foi aqui que eu, mais uma vez, devo ter sido inconveniente. Ainda hoje estou para saber porquê.
Pois não é que os quatro, Pedro, Paulo, António e Maria (sempre tão serena a falar de assuntos complexos, por exemplo, de swaps!…), mal eu abri a boca, se levantaram bruscamente da mesa e abalaram, fuzilando-me com os olhos!?
Terá sido só, só mesmo, por eu os interromper: “Pois! Mas, digam-me lá: afinal, o que é a economia?”Redação Gazeta da Beira
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