João Fraga de Oliveira

Hino à Alegria?

Acorde de sol maior, quatro tempos: si, si, dó, ré …

_Edp21_HinoAlegriaSão as primeiras notas do Hino à Alegria (ou Ode à Alegria) da 9ª Sinfonia de Beethoven que, em 1985, depois do Conselho da Europa em 1972, a Comunidade Económica Europeia (União Europeia, desde 1993), adoptou como hino oficial.

Pertinente, a adopção desta obra do grande compositor alemão como hino de uma comunidade internacional que, para ultrapassar a agonia da guerra e o horror do Holocausto de que nasceu, escolhe como referência a alegria pressupondo de novo a paz assente no desenvolvimento, na diminuição das desigualdades, na coesão económico-social, na solidariedade entre Estados.

E, de algum modo, é também essa “alegria” que emana dos tratados originários da Comunidade Económica Europeia / União Europeia, em que (ainda) podemos ler, entre outros, princípios como: “elevado nível de emprego”; “melhoria das condições de trabalho”; “elevado nível de protecção da saúde”; “harmonização no progresso”; “decisões tomadas de forma tão aberta e ao nível próximo dos cidadãos”; “reforço da coesão económica e social”; “coerência e solidariedade nas relações entre os Estados membros e os respectivos povos”.

Mas será que hoje, em 2015, ao ouvirmos esta música empolgante e ao lermos estes princípios inspiradores de humanismo, de solidariedade social e de justiça, é mesmo a alegria o estado de espírito que prepondera?

“Vendo, ouvindo e lendo”, sobretudo vivendo, a realidade desta Europa do século XXI, cada cidadão nacional de um país que na Europa se situa tem crescentes razões para concluir que, progressivamente nas últimas duas décadas (e muito especialmente nos últimos cinco anos), têm prosseguido na Europa políticas, regras e práticas que, objectivamente, têm levado à negação concreta daqueles princípios.

Um flagrante exemplo disso é o que se está a passar com o problema dos migrantes e refugiados no Mediterrâneo (sobretudo os oriundos da Líbia e Síria), que a Itália coloca à distância em barcos, a quem a França e a Inglaterra fecham as fronteiras e a Turquia ameaça construir uma vedação com 4 metros de altura na fronteira com a Sérvia. A questão de fundo é a de que União Europeia, como tal, nesta catástrofe social, está a esquecer os seus princípios originários de humanismo, de solidariedade social, de “coerência e solidariedade nas relações entre os Estados membros e os respectivos povos” e mostra não  estar interessada numa solução humanitária, social e política para, no mínimo, garantir a salvação da vida (é disso que se trata) dessas pessoas.

Mas, tão ou ainda mais grave, é o que se está a passar com a Grécia (país que, aliás, é o que acolhe maior número de migrantes e refugiados – actualmente, cerca de 70.000).

Sendo sintético (a análise do assunto não só já é quase inesgotável como, diariamente, nos “esgota”…), os “programas de resgate” aplicados na Grécia por parte das autoridades da União Europeia (Comissão Europeia e Banco Central Europeu), em “solidariedade” com o FMI, afectaram directamente as condições de vida e de trabalho dos gregos e violaram direitos consubstanciadores dos princípios de justiça social, coesão social, democracia e humanidade que tanto a Grécia como os seus parceiros europeus, de acordo com as leis nacionais e internacionais (e – pasme-se!- europeias), devem respeitar e promover.

Apesar do ambiente da belíssima música do Hino à Alegria a “inspiração” da União Europeia (instituições e actuais lideranças) degenerou para a estupidez da burocracia e para o desenvolvimento e aplicação de uma “ciência” financeira(ista), política e socialmente “analfabeta”. Enfim, uma “ciência” que, assim, “sem consciência”, como escreveu François Rabelais, “não passa de ruína da alma”.

Aliás, a imposição à Grécia de medidas “austeritárias” tão radicais (em dimensão, profundidade e oportunidade), para além de ter agudizado a crise humana e social (o desemprego, em 4 anos, aumentou 25%, com óbvios reflexos no aumento da pobreza), acabou por ser contraproducente do ponto de vista económico (o PIB grego diminuiu 26% em 4 anos) e até financeiro (em vez de diminuir, tal como aconteceu em Portugal com o mesmo tipo de “receita”, a dívida grega aumentou – em fim de 2014, ascendia a 315.509 milhões de euros, 176% do PIB).

E agora, quando se atenta nas posições das autoridades europeias juntamente com o FMI (o que pensar da arrogância antidemocrática da sua directora-geral, srª Lagarde, apenas “eleita” pelo poder financeiro, ao insinuar que governantes eleitos pelos cidadãos gregos são garotos, não são “adultos”?), até parece haver razões para admitir a pertinência de duas definições qualificadas já com mais de 30 anos: 1) “A CEE é definida por quatro CC: “conservadora”, “capitalista”, “clerical” e “colonialista”; 2) “A CEE é o mecanismo de consolidação da dominação do capitalismo americano-alemão na Europa”.

Os autores destas duas frases são duas personalidades marcantes da História recente da Europa: Olof Palme (duas vezes primeiro-ministro da Suécia) e Andreas Papandreou (duas vezes primeiro-ministro da Grécia). Que, agora, com a situação que vivemos, nos levam a interrogarmo-nos se a União Europeia não tende cada vez mais a ser “isto”?

Aliás, face às referências cada vez mais estritamente financeiristas e burocráticas (e, por isso mesmo, associais e tendencialmente antidemocráticas) das regras, processos e práticas das actuais lideranças europeias (e dos governos que, como o nosso actualmente, por acção ou omissão, objectivamente, delas são suporte e reforço), é mais do que pertinente citar uma outra definição (pela negativa) da Europa de um grande sociólogo alemão (Ulrich Beck, falecido no primeiro dia deste ano): “Sem os valores da liberdade e da democracia que são os seus, sem a sua origem e dignidade cultural, a Europa não é nada” (A Europa Alemã – tradução portuguesa, 2014 – Edições 70).

É certo que, prendendo-o à Europa a naturalidade e, também, para além da História e da Cultura, as reminiscências da democracia, da dignidade e da justiça do Modelo Social que na Europa teve origem (e, agora, está a ser desmantelado), um cidadão tenta não deixar morrer a esperança da retoma daqueles princípios.

Por isso, apesar de tudo, não apenas pela sua belíssima música, maiores razões há para manter o Hino à Alegria como hino da UE.

Contudo convenha-se que, actualmente, ouvindo esse emblema musical da União Europeia, os cidadãos europeus têm razões para se lhes acentuar um estado de espírito paradoxal, porque, apesar do quanto a música, estritamente em si, lhes inspira de beleza e alegria, o que ela representa como hino da UE suscita-lhes menos alegria que tristeza.Redação Gazeta da Beira

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