João Fraga de Oliveira

Grécia: tornar possível o “impossível” (e vice-versa)

grecia-vector-bandeira_11-37725“As primeiras prioridades são negociar acordos impossíveis entre o Governo grego e a troika”, afirmou o ministro das Finanças (Yanis Varoufakis) do novo governo saído das eleições de 25/1/2015 (entrevista à Antena Um, 27/1/2015).

É isso que tem feito, tal como o primeiro-ministro grego, em deslocações a vários países da União Europeia, nestes dias após as eleições e a (rápida) tomada de posse.

Colocados perante o desespero de, numa situação de emergência económica, social e humana, em “estado de sítio” (título de um filme de culto de 1972 do grande realizador grego Costa-Gavras), lhes ser exigido o impossível (“sem alternativa”, cumprirem estritamente as “regras” estabelecidas com a (pela) troika e da União Europeia, com uma dívida pública de 320.000 milhões de euros, 175,1% do PIB, uma taxa de desemprego de 27,5%, correspondendo a 1.400.000 desempregados, um grego na pobreza em cada quatro e, em geral, uma gravíssima crise humanitária e social), apesar de toda a chantagem antidemocrática que sobre eles foi exercida pelos “mercados” e, por interesse directo ou subserviência, pelos guardiões tecnocratas e farisaicos das regras da União Europeia e, sobretudo, de um memorando (leonino) assinado pelo governo anterior com a troika, os gregos foram buscar ao desespero coragem e esperança para acreditarem que é possível tornar possível o que lhes estão a tornar impossível: economia e soberania como país, dignidade como pessoas, humanidade como seres humanos.

Não faltam por aí “comentadores”, “especialistas”, politólogos e “tudólogos” a salientar o “radicalismo” do novo governo, particularmente a partir das primeiras medidas tomadas após a tomada de posse, em 27/1/2015. Por exemplo, aumentar o salário mínimo para os valores de 2011, devolver o acesso à saúde pública aos desempregados há mais de três meses e à energia eléctrica a 300.000 famílias a quem tinha sido cortada por não a poderem pagar.

“Radicalizaram-se”? Sim, foram às raízes da História, à Grécia Antiga de há quase 25 séculos, reavivar uma referência radical: “O Homem é a medida de todas as coisas” (Protágoras). O Homem e não o dinheiro, como querem que o seja, por subversão deste pensamento do filósofo, os(as) radicais inumanos e associais do financeirismo, do neoliberalismo e da tecnocracia. Sim, os gregos (re)afirmaram agora como referência política prioritária a raíz (por definição) da democracia: o povo (“demos”), as pessoas que a via do radicalismo de contraproducentes “regras” austeritárias (sobretudo, como e quando as aplicar) colocou numa situação de descalabro humanitário.

É claro que há compromissos eleitorais internos a cuja concretização o governo grego não pode furtar-se, mormente quanto à eliminação da grande evasão fiscal e outras reformas.

Mas, perante as propostas do novo governo grego, esta é uma oportunidade para que, na Europa (e não só), ponderando e negociando essas propostas, os senhores (e as senhoras) do dinheiro, do poder e das “regras” (e os que, por subserviência ou interesses, lhes reforçam o poder) mudem o discurso, a atitude, as práticas e as “regras” económica, social, humana e circunstancialmente impossíveis de cumprir. Pelo menos, no que respeita à Grécia (e, ainda que noutro grau, até a Portugal), na forma e tempo estritamente estabelecidos para o seu cumprimento.

Se isso não acontecer, não obstante o cumprimento “á risca” de todas (est)as “regras”, pelo que por aí se está a ver pela Europa fora (incluindo, marcadamente, na Grécia), há o risco de a esses sinais se seguir algo objectivamente tão ou mais catastrófico e (perversamente) “radical” que a última das duas megabarbáries que, no século passado, ainda não há 70 anos, foi precedida de idênticos sinais.

Ou seja, se os gregos, para a sua sobrevivência como sociedade e como país soberano, estão a querer tornar possível o (dito) “impossível”, é avisado que a União Europeia, para a sua sobrevivência como comunidade económica, social e política, aproveite e (se) reflicta e (se) cuide no sentido de, tanto quanto possível, tornar impossível o que, perversamente, pode ser (de novo) possível.Redação Gazeta da Beira

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