João Fraga de Oliveira

CTT: o dobro do caminho andado (I)

“Há pouco tempo, este giro era feito por dois”.

Há uns anos, morava então num segundo andar de movimentada rua de uma grande cidade, um período houve em que recebia com alguma frequência, enviadas pelo correio, encomendas e cartas registadas com aviso de recepção.

Várias vezes, no início da manhã, ouvia tocar a campainha da rua. Não tendo intercomunicador, descia apressadamente as escadas para abrir a porta e atender quem era. Não encontrava ninguém.

Inicialmente, desvalorizei estas situações, presumindo serem enganos ou alguma brincadeira infantil.

Contudo, de seguida, não pude deixar de as relacionar com o facto de, mais tarde, ao abrir a caixa do correio (com abertura para a rua), encontrava avisos dos CTT para ir levantar uma carta ou uma encomenda à estação de correios mais próxima (que não era assim tão próxima como isso, quer do ponto de vista de distância, quer do de tempo perdido e esforço por ser uma íngreme subida).

Pormenor a fixar é o de que os avisos do CTT informavam: “procurado às 9h – 9,05 – 9,10 …, ninguém atendeu”. Justamente às horas em que, estando em casa, me tinha preocupado em descer à rua para abrir a porta, em vão ao não encontrar ninguém.

Claramente, quem tinha tocado à campainha nesses dias tinha sido o carteiro, não esperando minimamente, tão só um ou dois minutos sequer, que alguém descesse para lhe entregar a encomenda ou a carta. Resolvi esclarecer estas situações.

Um dia, mais ou menos à mesma hora, ouvindo tocar a campainha, desci as escadas a correr, tirei rapidamente da caixa do correio novo aviso para ir levantar mais uma carta à estação dos CTT (com a data desse dia e mais uma vez com a menção de que “às 9 h …ninguém atendeu”) e saí à rua a correr à procura do carteiro. Avistei-o ao dobrar da esquina, com o habitual carrinho de mão onde transportava o correio.

Um rapaz muito novo, à minha interpelação e questionamento sobre a situação descrita, ficou em pânico, justificando-se: estava contratado a prazo e tinha, há poucos meses, atribuída a tarefa de entregar correio naquele percurso. Mas quase todos os dias o volume de correio que tinha para entregar não “cabia” no horário de trabalho se cumprisse rigorosamente todo o processo estabelecido na tarefa de entregar aquele carecia de o fazer presencialmente e com as inerentes formalidades. Ou seja, para completar aquele giro no horário de trabalho, mesmo acelerando, não tinha tempo para esperar que os destinatários atendessem e descessem para lhe abrirem a porta e lhes entregar as encomendas ou correio, após lhes confirmar a identidade como destinatário e deles recolher, assinado, o aviso de recepção (a tal obrigam os padrões de qualidade deste serviço público). E muito menos para subir a moradas em andares superiores.

“Há pouco tempo, este giro era feito por dois”, argumentou finalmente.

O que compreendi.

Vem agora à memória esta situação a propósito dos alertas (Antena Um e RTP1, 16/12/2021) de atraso na entrega de correio e encomendas de Natal pelo Sindicato dos Trabalhadores de Correios e Telecomunicações, causados por falta “crónica” de pessoal, circunstancialmente agravada com surtos de covid-19 em algumas estações.

“Falta de pessoal” foi já um dos motivos invocados pelos sindicatos para (nova) greve dos trabalhadores dos CTT, em 19/11/2021 (sucedendo a outras anteriores, concretizadas ou anunciadas), em que estes reivindicavam, para além de “aumento dos salários”, “aumento dos postos de trabalho como fundamental para prestar um serviço de qualidade”[i].

Aliás, já antes não tinha podido deixar de associar esta situação pessoal às declarações de um outro carteiro e dirigente sindical no sector, declarações essas relacionadas com protestos da população contra atrasos na entrega do correio em Arcos de Valdevez (protestos da mesma ordem foram noticiados publicamente em Chaves, Santarém, Leiria e noutros locais do país): “Esta situação arrasta-se há cerca de dois anos. As pessoas foram saindo e a empresa não foi contratando. É preciso preencher os postos de trabalho vagos, que não são preenchidos há muito tempo. Aqui faltam cinco carteiros, o trabalho de onze carteiros está a ser feito por seis. (Público de 17/08/2021)[ii].

Ou quando, já no ano passado (18/01/2020), numa desenvolvida reportagem no jornal semanário Expresso, dirigentes sindicais denunciavam a “falta de funcionários” nos CTT relacionando-a, entre outras razões, com um “plano de transformação operacional” de 2017 do qual resultou que, em três anos, os CTT tenham reduzido o quadro de pessoal em 950 trabalhadores.

Segundo ainda essa reportagem, a falta de prontidão e qualidade do serviço prestado pelos CTT originou já muitas queixas e reclamações à Autoridade Nacional das Comunicações (ANACOM), à DECO e no “Portal da Queixa”. Na transcrição, como exemplo, de uma dessas queixas, o seu autor reclama, textualmente, de que “o carteiro não tenta entrar em contacto com o destinatário dos bens enviados por correio registado e limita-se a deixar o aviso na caixa de correio sem sequer bater à porta”.

A própria Ordem dos Advogados, em 16/7/2020, no seu portal, denunciou situações de perda de qualidade e prontidão no serviço de correios[iii].

Há dias, no Público de 6/11/2021, também o professor Arnaldo Saraiva criticou duramente a perda de qualidade e prontidão do serviço de correios prestado pelos CTT, descrevendo inerentes situações concretas e concluindo: “(…) Esta empresa tornou-se um cancro na vida do país, causa prejuízos diários a centenas de empresas e a milhares de portugueses, pelos quais deveria ser judicialmente penalizada. Mas a irresponsabilidade ou a incompetência com que é gerida justifica uma urgente intervenção política.”[iv]

Para quem, com alguma atenção, observa e reflecte com continuidade o que se passa nas organizações, locais e situações de trabalho no domínio do emprego e do trabalho e mais especificamente no das condições de trabalho, não surpreendem estas situações, em que, por mais paradoxal que pareça, quando o emprego diminui o trabalho aumenta, tendo como consequência a degradação da qualidade e prontidão do serviço público (de correios e não só) a que os cidadãos têm direito.

É essa reflexão mais geral e enquadradora que, partindo destas situações concretas a ocorrer nos CTT, se fará na segunda parte deste artigo.

[i] Público, 19/11/2021 – “trabalhadores dos CTT estão hoje em greve por aumentos salariais e contra degradação do serviço” – Trabalhadores dos CTT estão hoje em greve por aumentos salariais e contra degradação do serviço | Empresas | PÚBLICO (publico.pt)

[ii] População de Arcos de Valdevez prepara abaixo-assinado contra atrasos no correio | Arcos de Valdevez | PÚBLICO (publico.pt)

[iii] Ordem dos Advogados, 16/07/2020 – “Cresce o grupo de remetentes que endereçam críticas aos CTT pelos atrasos” – Cresce o grupo de remetentes que endereçam críticas aos CTT pelos atrasos – Ordem dos Advogados (oa.pt)

[iv] “CTT: a urgência de uma intervenção” – CTT: a urgência de uma intervenção | Opinião | PÚBLICO (publico.pt)

 

110/02/2022


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