João Fraga de Oliveira
Um Natal (não) digital…
“Sou um homem. Nada do que é humano me é estranho”.
Ao lê-la aqui hoje, a esta frase da minha autoria, não me conhecem?
Sou o Terêncio, aquele velhote que abalou daqui há 23 séculos (185 a.C. -159 a.C.) mas que, agora, lá da Roma Antiga, não pude deixar de cá voltar.
A razão é muito simples e, ao mesmo tempo, complexa (se quiserem, como palavra talvez mais própria, complicada) e, sobretudo, preocupante, muito preocupante.
Preocupação que, aliás, se me acentua progressivamente desde que, há uns 30 anos, uma respeitável senhora inglesa negou a essência desta minha frase, ao dizer que “não existe essa coisa de sociedade, apenas indivíduos…” (Margaret Thatcher, Primeira Ministra inglesa,1987), garantindo mesmo que disso (e de muitas outras coisas que me são estranhas porque nada têm de humano) “não há alternativa”. Aliás, é até muito por isso que ficou a ser conhecida por “TINA” (there is no alternative).
Não é agora a altura de especificar as consequências (des)humana e (as)socialmente catastróficas da perversa concretização que pelo mundo aí vai desta negação não apenas daquela minha frase mas de algo que, sem pudor, a D. Margaret mandou às malvas: “O homem é essencialmente social. É-o não em consequências exteriores, mas em consequência de uma necessidade íntima. É-o geneticamente” (Henri Wallon, 1946).
Contudo, ainda que associada, não é precisamente por causa dessa famigerada provocação associal, e daí desumana, da D. Thatcher que volto aqui hoje, de tão longe, infinitamente longe.
De facto, volto aqui hoje para, sobretudo, expressar a minha indignação pelo quanto aquela minha frase está por aí a ser subvertida, no sentido do que, assim praticado, não pode ser expresso de outra forma que: “Sou um homem. Nada do que é digital me é estranho”.
Na verdade, da tecnologia, que podia ser um instrumento para vos resolver problemas sociais – ecológicos, económicos, políticos -, ao que “lá de cima” e “debaixo” tenho visto, está cada vez mais a afastar-vos humana e socialmente uns dos outros, a tornar cada vez mais frágeis, mais débeis, as vossas relações sociais, a pretenderem-se estas, no sentido de Henri Wallon, verdadeiramente sociais.
Subjacente, no meu entender de velho (e, portanto, sábio pela reflexão de séculos), o facto de aquilo que vocês agora chamam, endeusando esse conceito (até ministros disso há …), de “transição digital”, em vez de fazer com que, pela tecnologia, a Humanidade “transite” para mais humana e social, pelo contrário, está a induzir que esta “transite” cada vez mais do essencialmente humano e social (corpo, vulnerabilidade, complexidade, compaixão, solidariedade, interdependência, igualdade, justiça …) para o desumanamente quase só tecnológico e essencialmente mercantil.
Se quiserem, para o neoliberalismo, no sentido daquilo de que, na teoria e na prática (que recrudesce), a D. “TINA” e especialmente o seu guru Prémio Nobel, Milton Friedman foi uma das precursoras.
Ou, sendo mais directo, no sentido do que Paul Mason (em Um Futuro Livre e Radioso – Uma defesa apaixonada da Humanidade, 2019) considera (com razão, basta “vermos, ouvirmos e lermos” o que por aí vai à nossa volta) como sendo uma das características deste conceito: “Os seres humanos já não são relevantes”.
Por esta altura do que vocês chamam de “Natal” (ainda não percebi bem o que isso tem ou não vindo a ser, fui-me embora daqui uns anos antes – precisamente 185 – antes de vocês começaram a falar disso de “Natal” e outros nomes mais arrevesados e estrangeirados que lhe atribuem), desta época que tanto associam a humanidade, talvez devessem dar alguma atenção e dispensarem reflexão a um outro Prémio Nobel que já cá veio ter comigo há onze anos (vamos para o ano aqui festejar juntos o seu centenário) mas que, antes, quando (ainda) aqui insistentemente perguntado sobre tantos “o quês” e “porquês”, respondia: “O que me interessa é o ser humano” (José Saramago).
Ou mesmo, porventura, talvez vos fosse cautelar adoptarem a precaução de diariamente atentarem bem na vossa imagem ao espelho, tendo em conta o aviso que vos deixou um vosso poeta que também já cá veio ter comigo há uns anos: “Eliminem a palavra humanidade e ficaremos cobertos de pêlo, num instante” (Teixeira de Pascoaes – Aforismos – selecção e organização de Mário Cesariny, 1998).
De qualquer modo, pelo que lá “de cima” e “debaixo” tenho ultimamente vindo a reparar quanto a esta vossa euforia do “digital”, aviso-vos eu, Terêncio: por este andar, qualquer dia, como autor protegido pelos inerentes direitos legais, não vos autorizo a invocarem aquela minha frase. A não ser como paráfrase adaptada à vossa realidade futura (e já mais ou menos presente): “Sou um algoritmo. Nada do que é digital me é estranho”.
De qualquer modo, na esperança (lembrem-se, “enquanto há vida, há esperança”, como também vos deixei dito há 2300 anos e tanto repetis) de que nisto reflictam com consequência, Bom Natal … não digital.
16/12/2021

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