João Fraga de Oliveira
Trabalho e consumo: o “lado lunar” de uma relação recíproca (primeira parte)
Trabalho e consumo: o “lado lunar” de uma relação recíproca
(primeira parte)

“Não me estrague a minha vida. Tenho a casa e o carro para pagar”.
Ouvia isto, há uns anos, do responsável (director técnico) por uma obra de construção civil.
Tratava-se, numa grande cidade, da demolição e reconstrução de uma rotunda em que, havendo necessidade de ali interromper o tráfego automóvel (com consequente incómodo para os munícipes), a respectiva câmara municipal impôs ao dono da obra e este contratualizou com o empreiteiro a condição de que a duração dos trabalhos não ultrapassasse três dias.
Esta condição levou a uma grande intensificação do trabalho, quer em duração, quer em ritmo.
Na situação, interpelado perante o facto de ali haver trabalhadores a trabalhar há 16 horas seguidas (e ele próprio, o responsável pela obra, há 20 horas seguidas), com as consequências de lesão de direitos e de sujeição dos trabalhadores (inclusive ele próprio) ao risco de acidentes de trabalho e associado incumprimento das inerentes disposições legais, o director da obra exprimiu a frase citada.
Face à preocupação de pagar as suas dívidas como consumidor, aquele trabalhador, arrastando consigo outros que superintendia, prescindia e fazia com que outros prescindissem do exercício do seu direito / obrigação aos períodos legais de descanso.
Duas dezenas de anos já passados, aquela frase do engenheiro ocorre agora à memória por indução de duas outras frases, estas bem actuais que com aquela se relacionam por lhes ser comum um lado pouco visível e perceptível da relação entre trabalho e consumo.
“A economia somos nós”, é uma destas frases. Podemos ouvi-la por aí diariamente numa estação de rádio, no espaço publicitário de um banco.
De facto, tem toda a propriedade o tal banco se publicitar lembrando-nos que “a economia somos todos nós”.
Talvez não pela suposta concepção que a administração desse banco poderá ter da Economia, na linha de Karl Polanyi, como ciência (e prática) social.
Mais certo será que, pragmaticamente (como é timbre de qualquer banco), pelo facto de que é com o dinheiro que “todos nós”, clientes, lá depositamos (e com que o banco negoceia operações bancárias com terceiros), bem como com as comissões por operações e serviços bancários que “todos nós” como clientes lhe pagamos, que a “economia” (pelo menos a do banco) funciona.
Mas, quiçá tanto ou mais do que por isso, também pode ser porque, para o banco, “a economia somos todos nós” na medida em que, com as operações que realizamos no multibanco e na internet ou com as maiores deslocações para procedimentos presenciais que fazemos às dependências do banco, cada vez mais raras e espaçadas territorialmente, “somos todos nós” que, de facto trabalhando gratuitamente (e portanto com mais “economia” para o banco) substituímos os trabalhadores bancários que esse banco (como a generalidade dos outros) despede, digo, “dispensa”.
“O supermercado somos todos nós” é uma outra frase que, com a mediação do trabalho, é associável às duas já citadas.
Podemos lê-la por aí, numa formulação com o nome comercial (que aqui se omite por razões óbvias) de uma grande e muito conhecida cadeia de supermercados e hipermercados, escrita em letras garrafais num enorme cartaz afixado na entrada de qualquer das “grandes superfícies” dessa empresa.
Sim, de facto, “o supermercado somos todos nós”. Mas não apenas porque é com as facturação que lhe pagamos pelas respectivas compras que fazemos que o estabelecimento atinge os seus objectivos económicos.
“O supermercado somos todos nós” também porque muito somos todos nós que, enquanto ali como consumidores, acabamos por realizar tarefas próprias do serviço que aquele estabelecimento (e afinal, em regra, qualquer outro do ramo, seja de que empresa for) nos deveria prestar como clientes.
E assim, “somos todos nós” com esse trabalho (informal) também como consumidores, que contribuímos para que a empresa detentora do estabelecimento possa “dispensar” (ou pelo menos não admitir) mais trabalhadores para nos assumirem a prestação desses serviços comerciais de atendimento, endossando-nos, sob a capa de “consumo personalizado” o que, de facto, é trabalho gratuito que (também) ali lhe prestamos quando como consumidores.
Aliás, porque idêntico é o que também já por aí muito se verifica, certamente não ficaremos surpreendidos se por exemplo no restaurante passarmos a ter à entrada um cartaz dizendo “o restaurante somos todos nós”.
E, com as devidas adaptações, no mesmo sentido, também não ficaremos admirados se, qualquer dia, cartazes do mesmo teor passarmos a ler nas estações de serviço, nos hotéis, nos estabelecimentos que nos oferecem o “trabalho de casa” de montar o que compramos, nos balcões das empresas de serviços essenciais e até, como utentes (e não apenas clientes), em serviços públicos progressivamente submetidos a referências de gestão empresarial privada.
Claro que a “transição digital” vai ser muito aproveitada nesse sentido. Até porque, de facto, é já isso que se passa, quanto mais não seja porque, ao consumirmos, de certo modo modo já há muito que trabalhamos para as empresas nas quais consumimos ao fornecermos-lhes dados pessoais cuja posterior utilização por essas empresas para fins relacionadas com a sua actividade (industrial, comercial ou de serviços) é uma forma de nós próprios, como consumidores, sermos também, seus co-produtores.
Algo a que, com certeza, subjaz a lucidez e racionalidade, para já não dizer ciência, mercantil da consultadoria e da gestão comercial que talvez não deixe de constar dos conteúdos do que se ensina nas escolas de negócios (business schools) mais bem colocadas nos rankings das faculdades de Economia e de Gestão do Finantial Times: o entendimento de que o consumidor, para consumir aquilo que quer consumir, tem que cada vez mais, de facto, passar a trabalhar (gratuitamente) para tal.
Mas quanto a esta e outras implicações menos perceptíveis, de concepções, processos e práticas económico-gestionárias em que no trabalho, no consumo e na íntima relação que existe entre estes dois domínios, os objectivos mercantis preponderam sobre as referências sociais e até legais, voltaremos, por razões de espaço, na segunda parte deste artigo, na próxima edição da Gazeta da Beira.
14/10/2021

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