João Fraga de Oliveira

Mais proximidade social! (conclusão)

Na primeira parte deste artigo (Gazeta da Beira de 16/09/2021), partiu-se do contínuo apelo ao “distanciamento social” que das autoridades de saúde e políticas vimos ouvindo desde Março de 2020 para, baseando-nos literalmente nessa formulação (que, de facto, significa distanciamento físico), evidenciar o quanto em diversos domínios grassa, por e para nosso mal, o efectivo distanciamento social.

Tal é suporte de, nesta segunda parte do artigo, nos propormos evidenciar o quanto se carece sempre, agora como antes e durante todo este período de pandemia, no presente e no futuro, não de distanciamento mas, pelo contrário, de proximidade social.

– Proximidade social, elementarmente, quando, a dezenas ou centenas de metros mas também a centenas ou milhares de quilómetros de distância, falamos ou nos relacionamos por qualquer forma, se possível apoiamos e ajudamos, familiares, amigos ou seja quem for em situações que lhes são mais difíceis, inclusive as relacionadas com a actual situação sanitária;

– Proximidade social, antes mas sobretudo agora e durante todo o período de pandemia, quando, por maior que tivesse sido e seja o distanciamento físico, na nossa comunidade ou mesmo territorialmente muito para além dela, nos envolvemos em acções ou instituições que visam o apoio e ajuda a pessoas com maior vulnerabilidade de qualquer ordem, inclusive aquelas pessoas que nem sequer conhecemos pessoalmente;

– Proximidade social quando, por mais distantes fisicamente que entre si estejam, os trabalhadores se organizam e entreajudam por qualquer meio para resolverem colectivamente os seus problemas de emprego, bem como de relações e condições de trabalho;

– Proximidade social quando, nos locais de trabalho, nas empresas, na administração pública e noutras organizações onde é realizado trabalho, a gestão e organização empresarial e do trabalho fomenta e alimenta uma cultura e prática de diálogo social com os trabalhadores e seus representantes, ou seja, de consulta e participação, de promoção da entreajuda e cooperação, assente no cumprimento de direitos e obrigações como garantia de um trabalho digno e o desenvolvimento empresarial e social da organização;

– Proximidade social, enfim, quando o poder político e as instituições têm como referência nas suas decisões e acções a justiça, a igualdade e a solidariedade social, em síntese, a promoção e a dinamização do Estado Social com expressão concreta em todos os domínios (Saúde, Educação, Trabalho, Justiça …) da sociedade, da economia, da administração e da política.

A Saúde, a saúde pública e a saúde individual que daquela é indissociável, como já se escreveu neste jornal e não só[1], é algo eminentemente social. A nossa condição de saúde sempre de algum modo (se não sanitariamente, pelo “menos” económica ou socialmente) se repercute nos outros. E vice-versa, também sempre se projecta em nós a condição de saúde dos outros.

Se há circunstâncias onde isso é mais evidente é, por maioria de razão e até por definição, numa situação de pandemia.

Por isso, é também especialmente nestas circunstâncias que, por mais paradoxal que isso pareça ao ouvirmos e lermos assim formulado o tal apelo ao “distanciamento social”, mais se impõe proximidade social.

Proximidade social, no sentido de que mais necessário é o suporte social dos outros, inclusive como também factor de prevenção dos riscos (inclusive dos que, directa ou indirectamente, associados à pandemia) para a saúde, ao nível individual e público.

Voltando ao início deste artigo (primeira parte), ao tal apelo ao “distanciamento social”, conclui-se aqui, por mais contraditório que também isso se julgue com prosseguir a proximidade social, que manter a distância física ainda (esperemos que por pouco tempo…) preconizada pelas autoridades de saúde em determinados contextos e circunstâncias para prevenir o risco de contágio que ainda se mantém, é, afinal, no sentido do que precede, como medida de protecção da saúde de cada um e a dos outros, um acto não de distanciamento social mas de objectiva proximidade social.

Mais distanciamento social? Não. Mais proximidade social!

[1] “A saúde como condição de confiança e a confiança como condição de saúde” – Gazeta da Beira – edições de 15 e 29 de Abril de 2021, jornal electrónico Via Esquerda de 14/04/2021 e Público online de 16/04/2021

30/09/2021


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