João Fraga de Oliveira

“São as pessoas que nós temos na memória que nos fazem caminhar”.

Esta frase é de Francisco Fanhais, em Vouzela, no último domingo de Maio (30), aniversário da Engª Maria do Carmo Bica.

O cenário, o Parque da Liberdade na margem do Vouga e tendo por fundo a majestosa e distintiva ponte ferroviária, tanto como aquela frase de Francisco Fanhais de homenagem à aniversariante e introdutória de uma série de canções que nunca nos cansamos de voltar a ouvir (sem menosprezo pela deliciosa actuação de grupos de música de intervenção e regional que o precedeu), remetem-nos, ao mesmo tempo, para o passado e para o presente.

Ou, se quisermos, para um passado presente.

Fisicamente, Carmo Bica deixou-nos precocemente há quase um ano (18/8/2020).

Um choque, não apenas obviamente para a família mas para quem, tantos(as) que, como o autor deste texto, beneficiava da sua amizade.

Mas, na sua participação cívica, na sua luta pela comunidade e em geral pela democracia e mais concretamente pela melhoria das condições de vida dos Outros, tanto quanto a conhecemos, houve sempre uma referência de liberdade.

Não lhe era certamente alheio o sentido de que, por um lado, a liberdade de cada um muito se consubstancia (ou não) desde logo nas suas condições essenciais de vida e, por outro, no de que, directa ou indirectamente, a liberdade de cada um depende da liberdade dos Outros.

Talvez fosse a certeza dessa convicção (mormente em envolvimentos solidários, cívicos e políticos) e a liberdade de pensamento e de acção que qualquer convicção confere, um dos factores que lhe induzia o quase permanente sorriso que lhe conhecemos.

Foi muito esse sorriso que esteve presente, e não apenas graficamente, no fim da tarde desse último domingo de Maio deste ano, no Parque da Liberdade.

Presença que, ainda que “só” memorial e se bem que emergindo da nostalgia, foi o que deve haver em qualquer aniversário – um contributo, retribuído, de alegria.

A significativa frase de Francisco Fanhais, o natural sentimento do marido – Dr. Pedro Soares – e a singeleza comovida do filho, Bernardo (“a minha mãe teve uma vida cheia, plena, que valeu a pena viver”) foram, de algum modo, a reafirmação de que a morte, tanto ou mais do que no seu sentido biológico, filosófico ou religioso, sobretudo no seu sentido social, faz mesmo “parte da vida”.

No sentido de que quem morre deixa sempre a memória dos seus valores, dos seus princípios, dos seus ideais, das suas acções, do seu contributo humano e social, como referências e suporte para a vida dos que ficam. Como exemplos, a evitar ou a seguir.

A seguir, certamente, no caso de Carmo Bica, pelo que expressa de que vem e de quem vem, este “sorriso de liberdade”.

10/06/2021


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *