João Fraga de Oliveira

Médio Oriente: rockets, bombas e palavras

Médio Oriente: rockets, bombas e palavras

“O Hamas tem que deixar de lançar rockets sobre Israel e, em consequência, Israel tem que deixar de lançar bombas sobre o Hamas”.

Ouço (Antena Um, 18/5/2021-08,25) o Sr. Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros (MNE), Dr. Augusto Santos Silva, dando esta resposta a uma questão da jornalista sobre a possibilidade de a situação no Médio Oriente ser resolvida com mediação da comunidade internacional.

O que recentemente ali se passou (passa), entre Israel e a Palestina, tem raízes históricas (vai muito para além disso mas para perceber as razões mais mercantes não é preciso recuar mais de 80 anos) e é de tal modo complexo que não se compadece com qualquer vã intenção de neste espaço sequer se esboçar qualquer pretensa análise, pretendendo-se apenas sublinhar o quanto a opinião pública pode ser influenciada na percepção da(s) realidade(s).

Desde 20 de Maio, há uma trégua às bombas e aos rockets, digo, aos rockets e bombas, a que se refere, na citação, o Sr. Ministro. Nisso, foi determinante o papel da comunidade internacional.

Aliás, a acção da comunidade internacional sempre foi, por acção ou omissão, não só factor de agravamento da situação como necessidade a satisfazer na sua resolução (mais) estrutural e permanente. Desde logo, porque não pode renegar, sequer alhear-se, de fazer cumprir o Direito Internacional (Resoluções da ONU) que ela própria acordou e publicou e que se mantém em vigor mas que, há dezenas de anos, ali está a não ser cumprido, com, para além da segregação israelita de árabes em cidades mistas, a ocupação de territórios (e populações) palestinianas por parte de Israel, territórios dos quais, segundo esse e outro Direito Internacional, há muito já se devia ter retirado.

Não se erra ao dizer-se que a comunidade internacional (e designadamente os Estados Unidos da América e a União Europeia, aqueles muito por razões de interesses económicos e geo-estratégicos, esta muito por influência do Governo alemão, por óbvias razões históricas) tem sido notoriamente parcial, favorecendo, por acção ou omissão, a posição, já de si económica e militarmente muito mais poderosa, de Israel.

O que, por sua vez, com mais ou menos frequência e intensidade, tem desencadeado reacções militares do lado palestiniano.

De qualquer modo, mesmo tendo em conta que não só em Israel (com o Primeiro-Ministro acusado de corrupção a tentar manter-se no poder, apoiando-se politicamente no protagonismo militar assumido na situação) mas também na Palestina (onde há uma indefinição do poder político da Autoridade Palestiniana, favorecendo a ascendência política da estrutura militar do Hamas), há condicionalismos políticos complexos que alimentam este confronto, a procura de uma solução, requer (mais) envolvimento da comunidade internacional.

No mínimo, visando os desenvolvimentos futuros mais próximos, designadamente, a consolidação (ou pelo menos prolongamento) destas tréguas como eventual fase intermédia de uma situação mais relativamente sustentável (como referência, os históricos “dois estados”, tantas vezes agora relembrados pelo Secretário-Geral da ONU e até pelo Papa Francisco, reconhecendo claramente o Estado Palestiniano).

Contudo, sob pena de perder (mais) autoridade e a sua acção se tornar contraproducente, é exigível que a comunidade internacional se assuma firme, sim, mas imparcial.

Ora, estas declarações do MNE português, com a carga responsabilizante de Portugal ser agora o país com a Presidência da UE, são um exemplo da negação (ainda que subreptícia) dessa imparcialidade.

O Sr. Ministro sabe bem que o que (e como) disse é diferente do que se tivesse dito: Israel tem que deixar de lançar bombas sobre a Palestina e, em consequência, o Hamas tem que deixar de lançar rockets sobre Israel.

Ocupando o cargo que ocupa, o Sr. Ministro também sabe bem que, pelo que induzem, influenciam, as palavras fazem (ou desfazem) coisas, quer pelo que são (informam pela sua natureza e conteúdo), quer pela sua ordenação.

Pelo que as palavras são, porque o sr. Ministro de certeza que não desconhece que o que influencia dizer que Israel “lança bombas sobre o Hamas” (algo territorial e humanamente abstracto) é diferente daquilo que influenciaria se tivesse dito que Israel lança bombas sobre a Palestina e sobre os palestinianos.

Pela ordenação que às palavras é dada, porque o Sr. Ministro tem certamente consciência de que, em resultado da ordem das palavras que escolheu para dizer o que e como disse, quem é entendido como (primeiro) agressor é o Hamas e quem é compreendido como vítima (“que precisa de se defender”) é Israel. E que na (re)ordenação inversa das palavras, quem seria interpretado como agressor seria Israel e quem se teria como vítima seria o Hamas.

Como diplomata exímio que é, o Sr. Ministro não desconheceria qualquer outra fórmula retórica que, substituta da que utilizou, fosse, no mínimo, imparcial.

Depois, ninguém melhor do que o Sr. Ministro sabe, mas não disse, que a situação no Médio Oriente (passada e recente) não é só nem essencialmente consequência de bombas e rockets ou, na versão do Sr. Ministro, de rockets e bombas.

Não ignora que, mais imediatamente (no início do corrente mês), foi despoletada por acções de forças militares israelitas em mesquitas que são marcantes símbolos religiosos e identitários árabes, bem como da polícia de Israel (invocando uma Lei de 1917, judicialmente controversa) a despejar palestinianos das suas casas (inclusive com demolição de algumas, até as que feitas pelas próprias mãos dos residentes, como foi noticiado pela comunicação social), onde residiam há dezenas de anos.

Não lhe é alheio que, sendo-se sintético, decorre de algo (desde logo, o incumprimento reiterado do Direito Internacional por parte de Israel) que, a não ser prévia e mais seguramente resolvido pela (com a) comunidade internacional (envolvendo, obviamente, as autoridades políticas da Palestina e Israel), vai provavelmente continuar a ter como “consequência” (mais) bombas e rockets e rockets e bombas.

Não se pode ter a mínima dúvida de que o sr. Ministro também sabe, tão eminente diplomata é, que da desinformação (quanto ao que as palavras são, não são ou deixam de o ser por omitidas) e da (re)ordenação dos factos pela forma como elas são utilizadas, resulta poder ser “transformado o verdadeiro em falso”, “ a realidade ficar conscientemente deformada” e “ser dissimulada uma parte dos factos de modo a que fiquem ocultas as consequências da aceitação de um dado enquadramento”.

E é claro que ninguém melhor do que o sr. Ministro, com a sua superior preparação académica, conhecendo bem isto que escreveu Philippe Breton (A Palavra Manipulada, 1997), sabe que tal se pode chamar manipulação. Aqui, ainda para mais na rádio pública, manipulação da opinião pública.

Enfim, pelos vistos, para além de algo mais grave que lhe subjaz, a situação no Médio Oriente tem muito a ver, infelizmente, com bombas e rockets e vice-versa.

Mas, como se infere deste exemplo (apagado mas revelador do que se pretendeu evidenciar), também com palavras. Para além de, sem ser contraditório, com a falta destas.

27/05/2021


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