João Fraga de Oliveira
“Portugueses de bem”

“O racismo é como um vírus que se transforma rapidamente e, em vez de desaparecer, esconde-se, e espreita à espera”.
O autor desta frase é o Papa Francisco, num discurso proferido no passado domingo, 21 de Março de 2021, a propósito do Dia Internacional contra a Discriminação Racial[1]
Três atletas, Auriol Dongmo, Patrícia Mamona e Pedro Pichardo, a representar Portugal no Campeonato Europeu de Atletismo em Pista Coberta, conquistaram as medalhas de ouro na respectiva especialidade: a primeira no lançamento do peso; a segunda e o terceiro no triplo salto.
Em que é que se relaciona o feito desportivo destes três atletas, aquela frase do Papa Francisco, o título deste texto e, também, a imagem que o ilustra?
Destes três atletas, todos negros, só a segunda é portuguesa de nascimento (nasceu em Arroios –Lisboa, se bem que com ascendência angolana), sendo os outros dois de origem estrangeira, embora naturalizados portugueses.
Sobre eles, o que há que reconhecer é que, mau grado pela ascendência ou até mesmo pelo nascimento não tenham origem portuguesa, não apenas pelas inerentes regras formais mas sobretudo pelo que fizeram e fazem em e por Portugal, de facto, são todos campeões portugueses.
Aliás, esse reconhecimento integra-se num outro, mais geral, que é o de que todos os outros estrangeiros (naturalizados ou não) que em Portugal vivem (ou sobrevivem) e trabalham (ou procuram trabalho) com dignidade e honestidade, pelo que cá fazem em e por Portugal como todos os portugueses de gema, também são, de certo modo, campeões portugueses. Campeões do quotidiano, da Vida.
Mesmo que não tenham o relevo mediático que é dado a estes três campeões e que mal consigam aguentar (quanto mais lançá-lo a 19,34 metros) até casa com o saco do supermercado (mesmo que este não pese os cerca de 4 kgrs da bola de metal projectada pela Auriol) e precisem de dez vezes mais saltos(inhos) e muito esforço para saltarem as distâncias que o Pedro (17,30 metros) ou mesmo a Patrícia (14,53 metros) saltaram em apenas três.
Sim, certo, mas o que é que relaciona isso com o título deste texto?
O que o que precede tem a ver com o título deste texto e a imagem que o ilustra são duas frases ignóbeis cuja baixeza humana, social e política se acentua justamente com as razões da instituição do Dia Internacional Contra a Discriminação Racional.
Uma frase, da autoria de alguém a quem deram um assento como deputado na Assembleia da República e que, nesta Casa da Democracia, não há muito se (nos) envergonhou gritando para uma deputada portuguesa negra e de origem estrangeira: “Vai para a tua terra!”.
A outra frase (“portugueses de bem”) até pode ser considerada elogiosa, mesmo integrativa, no mínimo ingénua. Contudo, como avisa o Papa Francisco, “esconde” um intuito excludente, racista ou pelo menos xenófobo, discriminatório, ao não poder ser dissociada da precedente visto que é uma citação do mesmo autor, quanto este, em público, recentemente, disse pretender instituir em Portugal “uma ditadura de “portugueses de bem”.
Enfim, duas frases que, por si só, num país que se rege pelos princípios de que “todos os cidadãos têm a mesma dignidade social …” e de que “ ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, raça, território de origem ou convicções políticas (…)”[2] nunca deveriam ter sido proferidas.
E agora, duas frases que o reconhecimento social que a generalidade dos portugueses expressou a estas três pessoas de origem estrangeira, mesmo descontando o privilégio mediático que lhes é dado, deveria, por maioria de razão, fazer com que o autor dessas frases e quem as aplaude, como diz o povo, as “engolisse(m)”, se retractasse(m) no seu xenófobo significado assumido.
A redacção de um jornal desportivo resolveu então expor a citação desta segunda frase na capa da sua edição de 8/3/2021, legendando as fotografias dos atletas.
O que poderia ser entendido como uma (auto) conspurcação racista e xenófoba desse jornal, caso na contra-capa não se escrevesse, como se escreveu: “é dificil entender que a mesma sociedade que se orgulha com os heróis das medalhas tenha um desprezo mais ou menos escondido pelos anónimos subjugados aos bairros sociais. (…) Portugal gosta de pensar que não é racista, mas é um país onde mais de 30 mil pessoas subscreveram uma petição para expulsar um cidadão português”.
E isto, sem dúvida, por mais problemas sociais (desemprego, desigualdades, pobreza, doença …) que existem e se agravam e portanto não podem ser escamoteados nem secundarizados na atenção e tratamento económico-social e político a dar-lhes, acentua a necessidade de reflexão sobre o quanto em Portugal o racismo, a xenofobia, a discriminação não são, continuam a não ser, problema menores. Não apenas porque humana e socialmente graves em si mas também porque não são indissociáveis, bem pelo contrário, de todos aqueles outros problemas humanos e sociais.
De qualquer modo, poderemos talvez ancorarmos numa terceira frase que, se bem que acentue o repúdio do racismo (mas também da xenofobia e da discriminação em geral), contém, ainda que atribuída a um estrangeiro (mas que é um grande escritor que muito honra a língua portuguesa), uma proposta de referência para essa reflexão (e, tanto quanto possível, acção) social e política.
Isto, na medida em que nos projecta para uma síntese do que é, quanto a emigração, não apenas a reminiscência histórica mas mesmo a actualidade económica, social, cultural, familiar, até pessoal, de praticamente qualquer português: “Se um país tem muitos homens, um homem tem muitos países”.
(frase atribuída a Mia Couto, o autor de Cada Homem é Uma Raça, 1990)
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NOTAS:
[1] A data de 21 de Março foi dedicada pela ONU em 1969 para instituição do Dia Internacional Contra Discriminação Racional, estando-lhe subjacente um massacre (com 69 mort0s e 186 feridos), na África do Sul em 21 de Março de 1960, em que a polícia do regime de apartheid abriu fogo contra uma multidão de 20.000 pessoa que protestava contra uma lei que “confinava” a circulação da população negra só a determinados locais constantes de um cartão distribuído pelas autoridades.
[2] Artigo 13º da Constituição da República Portuguesa
Ed. 802 (25/03/2021)

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