João Coelho

Mediterrâneo – mar da vergonha

O termo mediterrâneo deriva da palavra latina mediterraneus , que significa “entre terras”. Como o seu nome indica, este mar sempre foi o meio de contacto, a ponte, o caminho entre o Sul da Europa e o Norte de África.

Desde a Antiguidade, o mar Mediterrâneo foi zona privilegiada de intensas relações culturais e comerciais entre os povos que o circundavam. Aqui floresceram e desenvolveram-se grandes civilizações da Antiguidade: egípcios, fenícios, gregos, cartagineses, romanos, macedónios…

O Mediterrâneo de berço de civilizações, tornou-se um enorme cemitério de homens.

No terceiro fim de semana deste mês de Abril de 2015 morreram 800 imigrantes no naufrágio de uma traineira junto à costa líbia. Esta traineira, como tantas outras  centenas e milhares delas, vinha sobrelotada de homens, mulheres e crianças; que fugiam dos seus países de origem à procura de uma vida melhor ou de um refúgio para viverem.

Segundo os dados disponibilizados pelo ACNUR (Agência das Nações Unidas para os refugiados), só no ano de 2014 cruzaram o mediterrâneo mais de 210 mil imigrantes, dos quais 3.419 vieram a morrer nessa travessia!!!

Mas quem são este imigrantes e do que fogem? Estes imigrantes provêm sobretudo de África, de países como a Síria, a Somália, o Mali, a Gâmbia, o Senegal, a Eritreia…

A instabilidade provocada pela Primavera Árabe (que infelizmente não produziu os efeitos desejados), a desagregação da Líbia (hoje um feudo de senhores da guerra), a guerra na Síria, o aparecimento do Estado Islâmico, o Boko Haram, as diversas células jihadistas, a fome e as doenças são os factores que determinam esta fuga desordenada, e muitas vezes para a morte, das pessoas que pretendem não uma vida melhor, mas tão só poderem viver. O que as aguarda na sua terra de origem é a morte…

Esta fuga para a Europa, proporciona o aparecimento dos traficantes humanos, que enviam para a morte dezenas, centenas, milhares de seres humanos, como se de mercadoria se tratassem.

Nós, europeus, perante todos os problemas que nos afligem ( e não são pequenos: austeridade, desemprego, emprego precário, acesso dificultado à saúde, justiça e educação, e políticos incompetentes e corruptos); sentimo-nos confortáveis quando comparados com a fome, miséria, perda de casa, morte de familiares, guerra, execuções e perseguições que os povos destas regiões de África sofrem permanentemente.

Mas, é também esta Europa, enquanto referência da democracia, do bem estar e da segurança social que deve dar uma resposta a este problema que se encontra numa espiral de completo descontrolo.

Medidas? Sim ,são necessárias ,urgentes e não serão fáceis. Não tenho solução para este problema. Por isso, “atrevo-me” tão só a mostrar o meu incómodo, nojo e indignação pelo que se está a passar no nosso Mediterrâneo.Redação Gazeta da Beira

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