Isabel Prates

Professora e escritora

Tradidanças, Carvalhais, 2019

 “Os meus alunos sempre fizeram tudo valer a pena, foram e são uma parte crucial da minha vida, dos meus afetos. Há quem diga que é possível ensinar sem afeto, eu não saberia fazê-lo e penso que seria uma deplorável tristeza.”

Ficha Biográfica

Nome: Isabel Prates

Idade: 59 anos

Profissão: professora

Livro preferido: tenho autores preferidos, como Eugénio de Andrade, Miguel Torga, Rosa Montero. O livro preferido foi-se alterando, com os anos. Durante muito tempo foi O Principezinho, de Saint-Exupéry. Depois, As brumas de Avalon, de Marion Zimmer-Bradley. Depois Cem anos de solidão, de Gabriel García Marquez e mais tarde quase todos os livros de Mia Couto. O último livro que me impressionou vivamente, de facto foram dois livros, O manuscrito de Birkenau e O mágico de Auschwitz, de José Rodrigues do Santos. Porque aquilo que contam deve estar, com todas as matizes e variantes do horror, demasiado perto do que foi a realidade de tantas pessoas.

Destino de sonho: Talvez Macau. Embora, neste momento, o meu destino de sonho seja apenas a minha casa, na companhia dos meus filhos.

Personalidade que admira: Nelson Mandela. Pela sua rebeldia e coragem na luta contra a segregação racial. E, sobretudo, porque depois de o terem feito sofrer tanto, durante tantos anos, ele foi capaz de se libertar da raiva e da tentação de vingança e construiu um país de paz e de justiça para todos. É preciso muita força para fazer caminho de paz, numa terra de guerras.

 

• Paula Jorge

Muito obrigada, Isabel Prates, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.

Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio.

Pode descrever o seu percurso académico e o profissional?

Isabel Prates – Sou licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras, da Universidade Clássica de Lisboa e fiz o Mestrado em Estudos Portugueses, na Universidade de Aveiro. Sou professora desde 1984 e, até hoje, nunca me arrependi da minha escolha. Para mim, o ensino foi uma escolha desejada e não um acidente de percurso. Fui professora em Lisboa, na Escola Vasco da Gama, na Portela de Sacavém e na Secundária Patrício Prazeres, no Alto de S. João, onde fiz parte do Conselho Diretivo. Fui professora e diretora pedagógica no Colégio Português de Kinshasa, na atual República Democrática do Congo e também na Escola Profissional de Carvalhais. Desde 1988 que estou na Escola Secundária de S. Pedro do Sul, que é onde sinto que pertenço.

 

PJ – É autora de alguns livros. Fale-nos de cada um destes seus “filhos”.

IP– O primeiro e o terceiro são livros de contos. Gosto particularmente do desafio da narrativa breve. Chamam-se Maria Lua cansada de solidão e Estranha coisa. Alguns dos meus contos misturam as minhas “pátrias”, o Alentejo e S. Pedro do Sul. O segundo é de poesia, o título é Anoitecemos.

Dia da procissão de Nossa Senhora de Fátima

 

PJ – De onde vem a sua inspiração quando escreve? Qual o género literário que mais aprecia escrever? Quando escreve um texto pensa logo no desfecho ou vai escrevendo ao “sabor do vento”?

IP – Como dizia Fernando Pessoa, “a inspiração apanha-me sempre a trabalhar”. Eu gosto particularmente de ler e de escrever, dá-me prazer, faz-me bem, é uma forma catártica de lidar com as minhas angústias, com as agruras que a vida me impõe. Creio que me desforro da vida, inventando vidas.

Depende. Por vezes, só a forma de poema faz sentido, quando o sentir é intenso ou quando as palavras são um desafio para guardarem dentro o que é impossível dizer com palavras. Como já disse, na prosa gosto especialmente da narrativa breve, pela sua urgência de concentração e pela sua intensidade. E também pela herança das narrativas tradicionais.

É interessante, essa pergunta. Na verdade, a princípio a história surge na minha cabeça como uma possibilidade de narrativa. E assim vai ganhando corpo, trabalhada mentalmente em possibilidades de caminhos. Nessa altura ando particularmente distraída, porque a história me enche a atenção. Depois há uma altura em que a história exige papel e quando essa fase começa, a verdade é que é a própria narrativa que escolhe caminho, nem sempre aquele que eu queria, ou gostaria. Pode parecer estranho, mas comigo costuma ser assim.

 

PJ – Qual a sua perspetiva sobre o estado da literatura em geral e dos novos autores em Portugal?

IP – Portugal é um país extraordinário em várias áreas, na minha opinião, especialmente na música e na literatura. Temos muita gente de todas as idades e tempos que cantam maravilhosamente, que escrevem tão bem que até dá raiva. É um pouco de inveja boa, confesso. Penso que o que é realmente difícil é ter tempo para ler os livros dos autores portugueses atuais, dada a qualidade e a quantidade das suas obras.

 

PJ – Que conselhos pode dar a quem se queira aventurar neste mundo da escrita?

IP – Não sei se sou a melhor pessoa para essa tarefa. Não sou uma autora famosa, não entro nos circuitos comerciais. Portanto, quem quer uma dessas duas coisas, ser famoso ou ganhar muito dinheiro, não deve dar-me crédito. O meu conselho é que, se quer aventurar-se no campo da publicação, prepare o projeto da forma que o quer ver realizado. Depois peça a alguém em quem confie, em termos linguísticos e pessoais, que lhe faça a revisão do texto. E finalmente tente, enviando o seu texto às editoras, até ter uma resposta que lhe agrade, ou que ache aceitável. Isto para publicar, porque aventurar-se no mundo da escrita é algo que todos devem fazer, por prazer, como ler. A questão é só começar.

Pormenor de uma parede, pintada pelos alunos, da escola timorense onde leciono, em Lospalos

 

PJ – E o ensino, esta vertente marcante na sua vida, como o define?

IP – Tenho a sorte de fazer o que gosto. Por vezes, especialmente nos últimos anos, a minha profissão também me trouxe algumas frustrações, confesso, mas nunca por culpa dos alunos. Os jovens, os meus alunos, sempre fizeram tudo valer a pena, foram e são uma parte crucial da minha vida, dos meus afetos. Há quem diga que é possível ensinar sem afeto, eu não saberia fazê-lo e penso que seria uma deplorável tristeza. Creio que o ensino é a parte que dou de mim, na vontade de contribuir para um futuro melhor e mais realizado na vida dos meus alunos.  Quando for só um trabalho, espero poder reformar-me.

 

PJ – Fale-nos do seu sentimento pela região de Lafões, suas gentes, sua cultura, suas tradições.

IP – Quando cheguei a esta região fiquei encantada com as suas paisagens, de indescritível beleza, com as melodias de verdes e águas e com a riqueza cultural. E, a bem da verdade, também tenho de falar aqui da gastronomia. Mas isso não fazia parte da pergunta (risos). Penso que as pessoas que aqui vivem nem sempre valorizam a extraordinária riqueza das suas tradições, da sua herança cultural. Por isso me empenhei, com várias gerações de alunos, na recolha dos contos, das lendas, das narrativas fantásticas da região. Para que os alunos percebam que somos como árvores: queremos céu e ser flor e fruto, mas se não tivermos raízes seremos apenas morte adiada. Por isso devemos preservar e valorizar as nossas raízes, é a nossa variedade cultural que nos enriquece. E eu sou totalmente de dupla raiz. Nasci no Alentejo e essa é inequivocamente uma das minhas raízes. Mas também tenho raiz lafonense, porque sinto que pertenço aqui, porque escolhi viver aqui, porque fui aqui muito bem-recebida pela família que me acolheu, porque quis que aqui nascessem os meus filhos, que são o melhor que a vida me deu.

 

PJ – Conte-nos tudo sobre este seu novo projeto que abraçou recentemente em Timor Leste.

IP – De vez em quando preciso de um desafio que me retire da minha zona de conforto. É a melhor forma de aprender, penso eu. E sempre tive vontade de conhecer Timor, desde que acompanhei, como tantos portugueses, a forma sofrida, mas determinada, como este povo procurou ser nação independente. E, para mim, fazia sentido que fosse na educação. Acredito que só a educação tem o poder de mudar o mundo para melhor. E está a ser um desafio em vários sentidos. Não falo apenas do clima, do horário pesadíssimo, ou das diferenças culturais, falo sobretudo do pouco, tantas vezes do nada de recursos, que é preciso inventar para ajudar estes jovens a aprender, a construírem um futuro melhor. Timor Leste é uma jovem nação, já do novo milénio, e os censos de 2019 indicam que metade da população tinha, nessa altura, menos de quinze anos. Quando cheguei a Lospalos senti que tinha entrado no reino do Peter Pan: tantas, tantas crianças! Eu nunca tinha visto tantas crianças, é uma maravilha! E é também extraordinária a forma acolhedora e sorridente como os timorenses nos recebem, como querem aprender e preservar a nossa língua, como ostentam a nossa bandeira e gritam por Portugal nos nossos dias festivos e no futebol.

Devo dizer, com muita gratidão e orgulho, que os nossos professores e alunos portugueses, de S. Pedro do Sul e de Vouzela, estão a partilhar livros com os meus alunos da escola CAFE de Lospalos. Espero conseguir que esses livros cheguem a esta ponta longínqua da ilha de Timor, porque a nossa biblioteca, aqui, tem meia dúzia de livros da coleção “Uma aventura” e quase nada mais.

 

PJ – E a família, como define esta alavanca forte na sua vida?

IP – É o mais importante, sem dúvida. É o que temos de seguro na vida, são os afetos incondicionais. Falo da minha família de sangue, da minha família de coração e dos amigos que tenho a sorte de guardar, porque esses são a família que a vida colocou no meu caminho. Tive muita sorte.

 

PJ – Quer partilhar connosco outro projeto em que esteja envolvida e ainda não tenhamos falado?

IP – De momento, Timor Leste é o meu projeto. Quando terminar, quero regressar à companhia dos meus filhos e da minha família e à minha escola do coração (S. Pedro do Sul). Depois se verá.

 

PJ – Para além das suas ocupações profissionais, que outras paixões nutre, que a completam enquanto pessoa?

 

IP – Creio que ponho sempre uma dose de paixão em tudo o que faço. No ensino, na escrita, na leitura e neste momento no projeto em Timor.

 

PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?

IP– Frontal.

 

PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?

IP – Diz que está cheio de saudades dos meus filhos, das minhas pessoas!

 

PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Isabel Prates. Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores.

IP – Sinto-me muito honrada com o vosso convite, e muito agradecida também. Parabéns à vossa equipa pelo trabalho que desenvolvem, pelo vosso esforço por promover a leitura na nossa região. Aos leitores, eu lanço o desafio: escrevam, pela vossa saúde! Escrever e caminhar na natureza são os melhores remédios para a saúde mental, na minha opinião. Escrevam uma história cómica que inventaram, ou um conto que os vossos pais ou avós vos repetiram, uma viagem, como conheceram os amores das vossas vidas, ou a pedir à Gazeta da Beira que publique os vossos textos. Já não adianta sugerir que escrevam aos vossos pais a pedir um adiantamento da mesada, porque correriam o risco de só receber a verba meses mais tarde. Para isso, mais vale mesmo usar o telemóvel.

24/06/2021


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