Interessante

António Gouveia

Interessante, a entrevista que li da Yoko Ono, 81 anos feitos (o tempo passa), a viúva de John Lennon, o Beatle mais famoso, assassinado há anos. Conta ela que no Japão muitos meninos se encerram nas suas casas, chamam-lhes hikikomori, os seus pais preocupam-se alarmados sem saber o que fazer, deixam-lhes comida à porta do quarto, eles não comunicam e os pais sentem que isso é terrível. Yoko não pensa assim, diz ela que eles se encerram em si mesmos e não compartilham com outros por escolherem o mesmo caminho de Buda ou dos monges cartuchos e buscam um rumo para melhorar, a juventude não acredita na sociedade que os rodeia, muito menos nos políticos que, desfasados da realidade e sem capacidade prospetiva, permanecem alheios ao que se passa sem alterar este ritmo. Percebo isso muito melhor agora, depois de eleito presidente da junta de freguesia onde moro, envolvido em objetivo nunca imaginado, abraçado à ideia de não envelhecer no sofá, invetiva de minha mulher que me espevitou a aceitar o convite de Rui Moreira e a deixar de dormitar sobre livros ou a amolecer na música, meus consolos espirituais, empurrando-me para me fazer à vida e aos outros, outra missão, enquanto me sobra ainda algum tempo. Mas tento remar contra a maré.

De facto o mundo não é melhor e mais agradável porque não nos fazemos à vida, preguiçamos e acreditamos que o futuro e a resolução dos nossos problemas, das nossas necessidades, estão nas mãos dos políticos a quem detestamos e de um ou outro ativista, estamos convencidos (mal) que a política é a arte da intriga e dos interesses, espetáculo e poder para servir oportunistas. E, como não nos envolvemos, temos o que temos e merecemos, e é pouco, muito pouco, a política (melhor, governação) não deve ser só para os do costume. 40 anos depois de abril percebemos que a sociedade continua a evoluir naturalmente,  evolução similar à da força da gravidade, mais moderna e tecnológica, ela atua sem darmos por isso, o computador que não existia no tempo de Salazar resolve-nos hoje os problemas mais prementes mas retira-nos força à imaginação, deixa-nos acomodados, alienados e sem pensamento próprio. E o telemóvel e internet resolvem-nos problemas de distância e escassez de informação mas esta comunicação aprisiona-nos, só o futebol e um ou outro espetáculo nos tiram do sossego e fazem explodir em momentos efémeros de raiva e alegria. Mesmo a religião também se deixou enredar nesta teia, ela já não é bem “o ópio do povo” como diziam Marx e Engels, mas, tal como a política, ela gosta do espetáculo e das beatas do costume, não cuida do específico, das coisas simples e, sem dúvida, mais importantes.

Nas cidades continua a divisão de classes, os ricos não partilham parte da sua riqueza e estão-se nas tintas para os pobres dos bairros vizinhos, e estes consomem-se na miséria que os rodeia, em ruas cheias de buracos, ghettos sem qualidade que não os ajudam a sair da cepa torta. Verdade que a maioria dos pobres (mais os de espírito) sobrevive sem vontade e muita preguiça, na expetativa do RSI e do supérfluo, o melhor televisor que, qual pulseira eletrónica, os acorrente à casa. A escola é o que se sabe, sobrevive com dificuldade, os professores, sem autoridade e em reuniões inúteis, sentem-se impotentes perante a indisciplina e a desordem e, alguns deles, não têm vocação para aturar os filhos dos outros, filhos sem família entregues a si próprios, não já criados à maçã do chão como no meu tempo pois nas cidades não há macieiras. É o país que temos, insensível aos problemas e sem teorias sociológicas que estudem o fenómeno, o mundo pula e avança hoje em velocidade estonteante e incontrolável, já não há tempo para nada, deixou de ser bola colorida nas mãos de uma criança como pensava há uns anos o poeta Rómulo ou Gedeão, tanto faz.

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