In memoriam Arlindo Dias Coelho
Contrariado por Carlos Alberto Paiva

É sempre difícil falar de quem parte. Parece que qualquer palavra que escolhamos não fará justiça a quem foi, ao que para nós representou enquanto por cá andou. É o caso. E assim me lanço na ingrata tarefa de fazer aquilo que, certamente, não serei capaz de fazer: ser justo no pintar de um retrato que, por mais pinceladas que lhe dê, ficará sempre aquém.
Meu Amigo Arlindo Dias Coelho, perdoa-me por isso. Tu não mereces tão fraco escriba para uma tão rica história de vida, tu não mereces um tão mau amanhador de palavras para vir dizer o que tu eras para a tua Família, para os teus Amigos, e para a tua – nossa! – aldeia de Rompecilha. Quão mais pobre está ela nestas horas em que a luz da tua vida se apagou. Olha, Arlindo, o João Santos encontrou, acho eu, a forma certa para adjectivar como partiste: “contrariado”. Nas palavras dele, havia ainda tanta, mas tanta ocasião para mais um encontro, mais um copo e um petisco e dois dedos de conversa. Havia sim, Amigo Arlindo, havia sim… E é por isso que eu também estou como estarás tu, qualquer que seja a dimensão por onde andes agora: contrariado, absolutamente contrariado.
Não quero aceitar a notícia. Parece que te estou a ouvir a dirigires-te a mim, como ainda há tão pouco tempo, e a dizer: “Ó amigo Carlos Paiva…” E as coisas de que falavas, os assuntos que ias buscar, e as coisas que me contavas do meu avô Eduardo, que eu sempre quis conhecer e tu tão bem conheceste… Como tudo isto agora dói, dói imenso, só por não poder ser mais… Olha, amigo Arlindo, o Cassiano Martins, no embargo da dor que nos atingiu, soube ver isso mesmo: num “simples” homem da aldeia, a cultura, a sabedoria, o teu conhecimento não só das coisas concretas da terra, mas também de outras tantas, impalpáveis mas igualmente importantes.
Desculpa, Amigo Arlindo, não consigo escrever mais nada. Não posso. As lágrimas já me estão a borrar o papel em que escrevo para ti a homenagem que é tão pouca para o que foste e, certamente, serás nas memórias guardadas no cofre do coração. Amigo Arlindo, vou ter mesmo de parar. O meu filhote Eduardo está a olhar para mim e quer saber o porquê de estar assim, com os meus olhos molhados de tristeza. Lembras-te, meu Amigo, da última vez que nos encontrámos? Eu lembro. Tu disseste, referindo-te ao pequeno: “Ó amigo Carlos Paiva, este é o seu maior tesouro!” E é. Um filho é mesmo o nosso maior tesouro. Mas um bom Amigo também o é, e neste momento o nosso mundo, o mundo de quantos te conheceram, amaram e estimaram, perdeu um enorme tesouro humano.
Há-de vir, Amigo Arlindo, a altura de não estarmos mais “contrariados” como estamos agora. Há-de vir. Até lá, só a memória alivia. Mas é tão pouco, meu Amigo, mas é tão pouco…
16/03/2023

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