II Encontro de Mulheres da Lusofonia na Galiza

Mulheres, Territórios e Memória

• Manuela Tavares (membro da Direcção da UMAR)

Nos dias, 6,7 e 8 de Abril, em Santiago de Compostela realizou-se o II Encontro de Mulheres da Lusofonia com o lema “Mulheres, Territórios e Memória”. Esta iniciativa resultou de uma parceria entre a UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta e a Academia Galega de Língua Portuguesa (AGLP). De destacar a participação de Georgina Benrós de Mello, directora Geral da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. E a língua foi, de facto, o elemento comum capaz de juntar e unir esforços para se formar uma Rede Feminista da Lusofonia.

Maria do Vigo membro da AGLP e Joana Sales, ambas da direcção da UMAR, foram as grandes dinamizadoras deste encontro, onde não faltou poesia galega e poesia da portuguesa Jorgete Teixeira, que no dia 28 de abril, pelas 18h, vai lançar em Viseu na Livraria Leya, espaço Faces o seu livro “Mulher à beira de uma largada de pombos”.

Do extenso programa do Encontro, em Santiago de Compostela, salientamos: “Entre o activismo e a pesquisa, mulheres e resistência” com as intervenções da jornalista Diana Andringa e Teresa Sales, vice-presidente da UMAR; “Entre o activismo e a pesquisa, prisões e democracia” com o Director do Museu do Aljube Luís Farinha e Mariola Mourelo, que falou sobre o activismo feminista e os espaços da memória. No painel sobre Feminismos em Compostela participaram Concha de La Fuente da Marcha de Mundial de Mulheres da Galiza, Paula Rios da Plataforma Feminista Galega e Marta Lois, responsável autárquica pela Campanha Compostela de Negro que no 25 de Novembro de 2017, colocou toda a cidade a vestir-se de negro contra a violência sobre as mulheres.

No painel Feminismos no espaço Lusófono, falaram por skype Nzira de Deus do Fórum Mulher-Moçambique e Isabel Harriet Gavião da associação feminista Onjango Angola. Manuela Tavares da direção da UMAR esteve presente e falou sobre a UMAR e os Feminismos em Portugal.

Mulheres, Territórios e Memórias foi o lema escolhido. O debate surgiu em torno da mobilidade desigual em sociedades desiguais (Sónia Mendes da Silva da comunidade cabo-verdiana de Burela na Galiza (Lugo). Outra jovem, da diáspora na Galiza, Jéssica Azevedo mostrou as dificuldades em se situar e identificar apenas num território. Nascida no Brasil, é estrangeira na Europa e no Brasil já não a reconhecem como brasileira. Ao estar dois anos em Léon, compreendeu melhor as lutas pela identidade galega.

Da secundarização das mulheres, como algo que se naturaliza falou Diana Andringa com a sua brilhante intervenção: “Elas não fizeram nada de extraordinário”, porque era desta forma que as mulheres timorenses, que participaram na luta contra a Indonésia se reviam. O mesmo acontecia com as mulheres presas políticas, durante a ditadura em Portugal, ou com as mulheres dos movimentos de libertação nas ex-colónias. Contudo, elas tinham sido de fundamental importância em todas essas lutas.

Das resistências e das discriminações que perduram falou Teresa Sales, destacando na sua intervenção Maria Lamas e Isaura Borges Coelho e, ainda, nos tempos atuais, as mulheres sujeitas a múltiplas discriminações.

As mulheres rurais foram destacadas no painel “Mulheres no Espaço Lusófono” pelas participantes de Moçambique e Angola, assim como por Manuela Tavares da UMAR, referindo que ainda não se conseguiu converter em reivindicações feministas as marcas da territorialidade. “Não basta trazer as mulheres dos meios rurais às cidades. É preciso trabalhar com elas no seu próprio meio. É preciso entender que os feminismos só têm a ganhar com esta diversidade”.

No final do encontro ficou claro que o terceiro encontro será no próximo ano.


A UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta

Associação de mulheres constituída em 12 de Setembro de 1976. Como Organização Não Governamental está representada no Conselho Consultivo da CIG (Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género) desde 1977. Nasceu da participação ativa das mulheres com o 25 de Abril de 1974 e da necessidade sentida, por muitas delas, de criarem uma associação que lutasse pelos seus direitos, naquele novo contexto político.

A UMAR é hoje uma associação que se reclama de um feminismo comprometido socialmente, empenhada em despertar a consciência feminista na sociedade portuguesa.

De um percurso de 40 anos, a UMAR conseguiu unir várias gerações de mulheres, abrir espaços de intervenção para as mais jovens e actualizar a sua intervenção com uma Agenda Feminista de novas e “velhas” causas, como seja o direito à contracepção e ao aborto, a luta contra a violência de género, a afirmação económica e social das mulheres, a paridade nos órgãos de decisão política, as lutas anti discriminatórias, a luta por uma educação cidadã e inclusiva, em questões como a igualdade de género, a solidariedade feminista internacional como seja o envolvimento em iniciativas como a Marcha Mundial de Mulheres.

A UMAR tem hoje núcleos em várias regiões do país: Braga, Coimbra, Lisboa, Madeira, Porto e Viseu, sendo que nos Açores deu origem a uma associação regional própria.

A UMAR combina, hoje, uma nova geração de mulheres com outras que viveram intensamente os movimentos de mulheres dos anos 70, num intercâmbio de ideias e experiências capaz de estabelecer os elos entre gerações, fundamentais para que a memória histórica não se venha a perder, mas que permita avanços no quadro de novos tempos e de novas posturas sobre os feminismos.

Quarenta anos representam uma vida.

Uma vida que foi entrelaçada com as vidas de muitas de nós, na nossa diversidade de viver quotidianos, e de sonhar com mundos diferentes.

Chegámos até aqui, porque ousámos acreditar no feminismo como força transformadora.

Um feminismo virado para a reflexão e para a ação política, comprometido com a mudança social, que não esquece as mulheres dos setores mais desfavorecidos que foram suporte da associação nos anos a seguir ao 25 de abril. Um feminismo de mulheres de diferentes orientações sexuais, de todas as cores e regiões de origem e que querem integrar a luta contra todas as discriminações.

“Um feminismo que tem de ser realizado a vários níveis: na base, nas lutas sociais, no desafio ao Estado,

no locus estatal, nas esferas cultural, artística, simbólica, económica, comunitária, íntima, sexual, dos valores, focando nas formas de opressão, discriminação, desvantagem e violência contra as mulheres e de género” , tal como afirmou Maria José Magalhães na Assembleia geral de 2013.

A UMAR actua em diferentes áreas. Tem centros de atendimento para mulheres vítimas de violência e Casas de Abrigo, intervém em escolas na Igualdade de Género e na prevenção da violência, nomeadamente no namoro, tendo realizado recentemente um estudo que abrange mais de 4 mil alunos e alunas em diversas regiões do país. O trabalho em torno da Memória das Mulheres é algo fundamental, recolhendo histórias de vida de mulheres em várias regiões do país. Em Viseu, o núcleo da UMAR colaborou na recolha de histórias de vida de mulheres desta região e tem feito um trabalho de proximidade com mulheres das aldeias. A 18 de Março, em parceria com a Câmara Municipal de S. Pedro do Sul, realizou uma homenagem às mulheres assassinadas em 2017, com a colocação de uma fita com o nome de cada mulher nas 17 magnólias plantadas pela autarquia. No dia anterior, a Conferência Mais Igualdade foi um sucesso e existiu um grande empenho por parte da vereadora Teresa Sobrinho a quem reconhecemos grande valor na defesa dos direitos das mulheres. A 1 e 2 de Junho a UMAR Viseu vai realizar um Festival Feminista cujo programa será anunciado em altura própria.

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