Guilherme Figueiredo o obreiro da solidariedade

"Em Rede pela Vida” continua a revelar estórias inspiradoras

Guilherme Figueiredo tem 87 anos e é a prova viva que a idade não é impeditivo para nada. Atualmente dedica a sua vida à solidariedade e não há tempo a perder. Quem corre por gosto não cansa, e é com gosto que Guilherme Figueiredo dedica o seu tempo em prol do próximo. Fomos ao seu encontro e descobrimo-lo no seu habitat natural, ou seja, no Centro Social de Vila Maior, que apoia cerca de uma centena de idosos, onde é obreiro. Uma rotina diária que raramente abdica, afinal, aqui já tem uma “segunda família”. Em conversa com o “Em Rede pela Vida”, Guilherme Figueiredo conta-nos a história da sua vida. O percurso por Lafões, a terra que ama, e a vontade que emana do seu ser: ajudar. Um exemplo de vida que inspira.

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Desta vez, o projeto “Em Rede pela Vida” rumou à freguesia de Vila Maior, S. Pedro do Sul e esteve à conversa com Guilherme Figueiredo, um jovem de 87 anos que, na sua agenda apertada, encontrou alguns minutos para conversar connosco. Encontramo-lo no Centro Social de Vila Maior, onde passa grande parte dos seus dias. “A minha vida é por aqui. Costumo vir aqui todos os dias, inclusive, ao fim de semana, porque junta-se aqui muita gente e eu tenho que estar cá para dar as informações à família”, explica.

Guilherme Figueiredo gostava de ver outras pessoas a abraçar esta causa. A instituição funciona com os órgãos mínimos exigidos, ou seja, apenas três elementos. “Como não é um cargo remunerado, ninguém se interessa”, lamenta. Como companheiro de lutas, o nosso protagonista faz, ainda, questão, de destacar o trabalho do atual Presidente do Centro e também presidente da freguesia, Manuel Moura Pinto, “que muito deu a esta causa e a esta terra”, refere.

O patriarca de uma família feliz

Guilherme Figueiredo nasceu em Lafões, no concelho vizinho em Vouzela. Temos difíceis, em que só fez a quarta classe porque a tia, que “foi mais que sua mãe, insistiu muito”, porque na altura, em vez de estudar, preferia sachar o milho, “visto, assim, andar em casa dos lavradores, onde sempre se comia melhor”.

Casou jovem, tinha apenas 23 anos, a esposa 17. Naquele tempo, namorar era bem diferente. “Recordo-me de uma vez que fomos os dois comprar manjericos a uma feira, tínhamos os minutos contados, não podíamos demorar mais do que 5 minutos. Hoje é diferente e eu até acho bem, a vida é para ser vivida”, defende.

Hoje é o patriarca de uma família feliz e é com um brilho nos olhos que fala dela. “Tenho uma esposa extremosa, dois filhos de extrema bondade, duas noras maravilhosas, três lindos netos e uma bisneta que é uma verdadeira bonequinha”, diz com orgulho.

Uma vida dedicada à solidariedade

Apaixonou-se por Vila Maior, ao mesmo tempo que se apaixonou pela mulher da sua vida, natural desta freguesia, mas só depois da reforma é que Guilherme Figueiredo passou a viver definitivamente em Vila Maior. Partiu para Lisboa com apenas 12 anos e foi aí que ganhou a vida. “Era trabalhar dia e noite, foi uma vida muito sacrificada”, recorda.

O nosso protagonista já está em Vila Maior há 35 anos, foi um dos fundadores do Grupo de Danças e Cantares de Vila Maior. Agora reformado, decidiu dedicar-se de corpo em alma à solidariedade onde quem dá, acaba sempre por receber. “Quando entro aqui de manhã e vou ver os velhinhos é uma alegria para eles, mas é muito mais para mim. É uma família que aqui tenho”, confessa.

O Centro Social de Vila Maior, nos serviços do Centro do Dia, Lar e apoio domiciliário presta auxílio a cerca de 100 idosos. O trabalho da instituição nos dias de hoje é incontornável, mas por detrás disto, está uma outra batalha: sonhar e concretizar este projeto. Guilherme Figueiredo foi um dos obreiros que esteve ligado ao Centro, antes ainda do lançamento da primeira pedra. “Hoje pode ver-se a obra que temos aqui. É o reflexo de muitos anos de trabalho. Foi um processo muito difícil, foram correrias, atrás de correrias… Aveiro, Lisboa, Porto… tivemos que bater a muitas portas. Eu ajudei a criar isto tudo. Esfolei as minhas mãos a trabalhar. Posso dizer do coração, não há ninguém que conheça isto melhor do que eu. Eu sei de cada pormenor, sei onde está enterrado cada cano, cada tubo…”

O lema de Guilherme Figueiredo é simples: “Quero dar aos outos aquilo que não me deram a mim”, mas não esconde que um dia gostava de receber algum reconhecimento. “Espero que um dia ainda venha a ser reconhecido. E se for, bem o mereço, eu tenho dado muito aos outros”, considera.

Uma vida preenchida

Guilherme Figueiredo não tem mãos a medir para tantos afazeres no Centro Social de Vila Maior, mas desengane-se quem pensa que as tarefas do quotidiano ficam por aqui. Há ainda o grupo coral, a quinta que não descura e as notícias da terra que escreve, religiosamente, todas as quinzenas, para os dois jornais do concelho do qual é correspondente há longos anos. “Ando sempre, sempre ocupado. A minha mulher, às vezes, na brincadeira, costuma dizer: és mais da rua do que és meu. De facto em casa passo pouco tempo”, admite.

A tradições e a lenda das Senhora das Colmeias

Guilherme Figueiredo valoriza as tradições e costume da sua freguesia, as quais, gostava que fossem preservadas no futuro. Por isso, ao “Rede pela Vida” apreçou-se a contar uma das lendas mais conhecidas da freguesia, já retratada na obra “Vila Maior, Suas Terras e Suas Gentes uma produção da sua identidade”, a qual retratamos, também, aqui:

“Já Frei Agostinho de Santa Maria (1716) dizia que, perto do lugar de Goja, existia um célebre Santuário de Nossa Senhora das Colmeias e que era lendária a origem desta sagrada imagem. E acrescentava que, um dia, uma senhora foi ver se as suas colmeias já tinham mel quando lhe apareceu a Mãe de Deus. Disse-lhe para ir buscar a sua imagem que estava numa concavidade de um penedo e que lhe edificassem uma ermida. A verdade é que, ainda hoje, num penedo, não muito distante do local onde outrora existiu a capela, são visíveis duas concavidades que dão a entender, pelo seu feitio, que podiam lá ter estado encostadas duas cabeças de tamanhos diferentes (de Nossa Senhora e do Menino Jesus). Serão essas marcas o desenho das cabeças ou tão simplesmente efeitos da erosão?

Em 1716, eram lá efetuadas procissões em ação de graças, como o caso da de Moledo (freguesia do concelho de Castro Daire) no dia de Ascensão, e a de Pinho (freguesia vizinha), no dia de S. Barnabé, em reconhecimento por a senhora ter livrado aquela freguesia de uma praga de lagartas que tinha destruído as sementeiras. Também se conta que dois jovens pastores, para fugirem a uma violenta tempestade, se abrigaram debaixo de um penedo defronte do outro já referido. A certa altura, terá caído um raio, que só não os feriu por terem invocado a misericórdia da Nossa Senhora das Colmeias”, pode ler-se.Redação Gazeta da Beira