Manuel Silva

Governo e oposição numa encruzilhada

As direcções dos partidos da oposição parlamentar não conseguem  entender-se  na concretização de uma alternativa à política do actual governo, apesar da impopularidade deste junto da população, como se pôde constatar, no ano transacto, em duas assembleias patrocinadas por Mário Soares contra tal política, coroadas de êxito, que juntaram e congregaram o apoio de muitos militantes daqueles partidos, do PCTP/MRPP, do seu ex-secretário geral, Arnaldo Matos, hoje maoista sem partido, embora ainda ligado à organização por si fundada, vários independentes, bem como pessoas ligadas ao PSD (Pacheco Pereira e António Capucho) e o primeiro líder do CDS, Freitas do Amaral.

O desentendimento entre aquelas cúpulas e, particularmente as do PS e do PCP, deve-se à política deste último partido de só aceitar a unidade sob a sua direcção e às hesitações e receio de António José Seguro relativamente a outros socialistas que pensa poderem tirar-lhe o tapete.

No entanto, todos os oponentes  da política da troika e dos seus agentes governamentais, bem como do P.R., estão unidos também na sociedade. Esta situação faz lembrar  uma acesa discussão entre dirigentes estudantis ocorrida numa assembleia de alunos universitários de todo o país, no final do ano de 1968, no jardim da Associação Académica de Coimbra, tendo o então estudante Arnaldo Matos, acima referido, afirmado: “aí em cima as cúpulas digladiam-se, cá em baixo as bases estão unidas”.

A coligação da direita não se encontra tão sólida como parece. Recentemente, o ministro da Economia, Pires de Lima, afirmou ser Paulo Portas um óptimo candidato à Presidência da República. O PSD iria aceitar apoiá-lo, prescindindo do seu candidato próprio? Também o secretário de estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, em entrevista ao “Sol”, dizia ser Paulo Portas o “melhor líder que teve o centro-direita”. Os neo-liberais conservadores, travestidos de sociais-democratas, terão gostado de ler isto? Obviamente não. A solidez da coligação não passa de um mito. Aliás, em muitas matérias, o PSD diz uma coisa e o CDS outra.

Àquelas divergências não é alheia a degradação da situação económica e social do país. Contrariamente ao afirmado pela propaganda governamental, o desemprego não baixou. A diferença entre empregos “criados” e desaparecidos é de pouco mais de  20 000. Tendo em conta que muitos desses “empregos”  apenas permitem 10 horas de trabalho por semana,  o número de pessoas a emigrar, especialmente jovens, os desempregados a frequentar cursos, findos os quais a esmagadora maioria fica sem trabalho, e o facto de quem não procurou  trabalho nas últimas quatro semanas não ser considerado desempregado, o número de cidadãos nesta situação certamente ultrapassará um milhão.

O governo apresenta números macro-económicos positivos. No entanto, a micro-economia, com o desemprego a aumentar, o poder de compra a cair, os salários e as pensões a encolherem, piora constantemente.

Regressou-se aos mercados, obtendo um empréstimo pelo período de 5 anos a uma taxa de juro de cerca de 4,6%. Segundo opinião emitida pelo Prof. Doutor Avelãs Nunes em recente iniciativa do “Palavrares”, em S. Pedro do Sul, se tal empréstimo fosse efectuado  por 10 anos, os  juros a suportar andariam à volta de 6%. Qual o motivo, então,  para tanta euforia  por parte de governantes, economistas e imprensa seguidista do governo, como é o caso mais recente do antes independente e crítico “Expresso”?

Estes factores estão na origem da enorme impopularidade do governo, a maioria parlamentar e o Presidente da República que o suportam, reflectindo-se nas divergências entre PSD e CDS.

Poder e oposição encontram-se numa encruzilhada, da qual o primeiro não mostra capacidade para sair. A oposição poderá fazê-lo com um programa virado para o crescimento económico, sob regulação estatal, o qual deverá também procurar controlar com consciência social o défice e a dívida, renegociando o pagamento desta por várias décadas, à semelhança do sugerido por Álvaro Santos Pereira, ex-ministro da Economia do governo Passos-Portas. Desta forma, a Alemanha (os seus actuais governantes parecem ter-se esquecido) pagou a sua dívida de guerra, boa parte dela para com a Grécia agora sacrificada por Merkel e seus sequazes, fez crescer a sua economia e edificou um estado social forte. Também inúmeros países latino-americanos assim conseguiram estancar o défice, a inflação e melhorar a situação económico-social dos seus cidadãos.

• Manuel Silva

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