Gente e Coisas da minha Terra por Nazaré de Oliveira
As rendas de Bilros

A dois passos da minha casa morava uma família minhota. No rés-do-chão, era uma mercearia-tasca que foi passando por várias mãos, desde o Duque até ao Pedro. No primeiro andar, morava a família Ramos. Quatro pessoas. O RAMOS, mecânico de automóveis com oficina na Companhia, a sua esposa D. Maria, o filho José que trabalhava com o pai, e a filha Salomé. A certa altura, o filho casou e montou casa (uma sua filha veia a ser minha aluna). Ficaram três: o Ramos, a sua esposa e a filha.
Na época a que me reporto, eu era um adolescente. O Ramos, passante dos sessenta, era um homem de estatura média, nariz achatado de boxeur, beiça grossa, pernas arqueadas como os alicates da sua oficina. Às vezes, via-o chegar para o almoço, sempre de fato-macaco, com as suas pernas de alicate, no seu andar balanceado de orangotango. Então compreendi por que aquela peça de vestuário se chamava fato-macaco.
Mas vamos aos elementos femininos que, neste caso, mais me interessam:
D. Maria era também uma sessentona, seca de carnes e de seios murchos como dois balões vazios: procurava enganar o tempo à base de pó de arroz.
A Salomé, a rondar os quarenta, gorducha, rosto cheio, mamuda, imitava a mãe no consumo de pó de arroz.
Sempre metidas na toca, não conviviam com os vizinhos. Então, qual a razão desta crónica? Porque D. Maria e a Salomé eram duas artistas rendilheiras, especialistas em RENDAS DE BILROS, arte que tinham aprendido no Minho de onde eram oriundas, Nisso, sim! E muito apreciadas pelas senhoras de São Pedro, que lhe compravam a obra. Em minha casa, eu ouvia falar nas rendas de bilros da senhoras Ramos. A minha mãe e a sua comadre Belmira do Cerdeira tanto caçoavam do aspecto caricato da D. Maria e da Salomé como teciam louvores à sua arte. Eu nunca tinha visto rendas de bilros. Nem sequer fazia ideia do significado da palavra bilros.
D. Maria e Salomé raramente saíam de casa. Uma vez por outra, sacudiam a naftalina das suas vestes de vir a público, aperaltavam-se e eu via-as passar a caminho da Vila, onde iam comprar linhas para os seus trabalhos. Sempre empoadas, a Salomé com uma pitadas de rouge nas faces e um fio de batom nos lábios, ambas de chapéu, saias até ao meio da perna, pareciam-me dois manequins saídos de uma revista dos anos vinte.
Um dia, tive ocasião de apreciar a sua arte. Meu avô tinha oficina de serralharia e carpintaria frente à casa das senhoras Ramos. Por elas foi chamado para fazer umas reparações na cozinha. Levou-me com ele. Receberam-nos na sala e, logo à entrada, deparámos com uma exposição: na mesa uma linda toalha de renda de bilros; um canapé e cadeiras com coberturas e almofadas de renda de bilros. Orgulhosas da sua arte, levaram-nos aos quartos, para nos mostrarem as colchas de rendas de bilros. Rendas de bilros por todo o lado! Mas eu continuava sem saber o que eram os bilros!
Acabada a exposição, o meu avô e a D. Maria foram para a cozinha tratar dos problemas domésticos. Eu, como não estava interessado, fiquei na sala a ver a Salomé a manobrar uns pauzinhos que puxavam as linhas e as entrelaçavam num crescente rendilhado. Compreendi então o que eram os bilros. Quando regressei a casa, fui ao dicionário e lá estava: “bilros — utensílios de madeira, com forma de fuso, com que se fazem rendas”. Mais tarde, quando vi na televisão os Pauliteiros de Miranda, lembrei-me da Salomé a manobrar os bilros.
Se eu visse apenas a obra e não conhecesse o autor, imaginaria talvez que ela tivesse saído das mãos delicadas de alguma fada. Quantos vezes a nossa imaginação entra no domínio do maravilhoso e sublima aquilo que não conhece! Só que, neste caso, eu sabia que aquela filigrana da linha tinha saído das mãos papudas da rechonchuda Salomé. Ela não era uma fada nem tão-pouco era bela. Mas era uma artista.
Há meses, segui na televisão o concurso Maravilhas da Cultura Popular. Entre os concorrentes, vi as Rendilheiras de Vila do Conde que apresentaram e executaram artísticos e belos trabalhos de rendas de bilros. Não pude deixar de recordar a Salomé da minha adolescência. Já lá vão mais de setenta anos e parece-me vê-la a manobrar os pauzinhos e a renda a crescer nas suas mãos.
27/01/2022

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