Francisco Queirós

O Dilema Brasileiro ou… O destino da democracia liberal!

As “esquerdas radicais” não são verdadeiramente alternativa às “direitas populistas”, e vice-versa. A única coisa que sabem é chamar-se fascistas e comunistas uns aos outros.

Os eleitores brasileiros não parecem, de facto, ter alternativa. Bolsonaro tem saudades da ditadura militar? Sim, mas o PT ainda chora por Fidel Castro. O PT insiste num estatismo supostamente desenvolvimentista? Sim, mas Bolsonaro, antes de se converter ao liberalismo económico também nutria simpatias pelo dito modelo

As “esquerdas radicais” não são verdadeiramente alternativa às “direitas populistas”, e vice-versa. São demasiado iguais, mesmo quando passam o tempo a chamar-se fascistas e comunistas uns aos outros… Folclore e pouco mais! No entanto, se esta for mesmo a escolha, haverá que decidir qual é o mal menor. Mas a democracia não devia ser só isto! É demasiado redutor e minimiza a sua força maior: a força do Povo pelo exercício do Voto

Tolstoi achava que as famílias infelizes eram sempre infelizes à sua maneira, mas no caso dos regimes, a infelicidade tende a ser geral. A escolha que as sondagens prometem aos brasileiros não é singular, e lembra outras eleições na Europa e nas Américas. Durante anos, os regimes ocidentais foram governados por direitas e esquerdas democráticas. Na Europa, eram os partidos da Democracia Cristã e os da Internacional Socialista. Divergiam em muita coisa, mas coincidiam na aliança americana e na integração europeia, como meios de garantir o Estado de direito democrático e economias prósperas. A democratização do Sul e do leste da Europa passou, em grande medida, pela formação de congéneres desses partidos, como o PS, o PSD e o CDS em Portugal. É esse sistema partidário que agora está em causa. Nuns países, os antigos partidos de governo estão a ser substituídos, como o Syriza substituiu o PASOK; noutros países, a ser tomados de assalto, como os Trabalhistas em Inglaterra pelos “Corbynistas” (entre outros “atributos” pelos vistos se mostram muito próximos do antissemitismo primário!)

O grande perigo para a democracia num mundo livre não são os radicais e populistas em si, mas a tentação dos partidos do regime de pactuar e “geringonçar” com radicalismos e populismos. É essa traição das elites, tanto ou até mais do que os resultados eleitorais, que está a dar força a radicais e populistas. Mas por mais apetecíveis que sejam as maiorias parlamentares ou presidenciais que se possam fazer com esses votos, há que ter a lucidez de resistir. Porque radicais e populistas não são apenas versões mais “brutas” das esquerdas e das direitas democráticas: pertencem a outras famílias políticas, por mais maquilhados que apareçam. Não, nem todos os votos são iguais: há soluções de governo que põem em causa os fundamentos da democracia liberal. E não, os regimes democráticos liberais não são simples mecanismos de representação: têm valores e princípios. Isso foi claro até 1989, durante a “guerra fria”. E tem de voltar a ser, para bem das democracias liberais.

Em segundo lugar, antes das “medidas concretas” para resolver “problemas”, há que perceber o que fez as direitas e as esquerdas democráticas perderem a iniciativa para radicais e populistas. Mais uma vez, há que regressar a 1989. Demasiada gente entendeu o fim da guerra fria como o fim das divisões ideológicas que haviam definido a política. Direita e esquerda seguiram então a estratégia de subtrair questões à controvérsia política, invocando coisas como a “globalização”, apresentada como inevitável, ou fomentando o conformismo do “politicamente correcto”, tratado como irresistível. Temas como as migrações ou a segurança deixaram assim de poder ser discutidos livremente.

Resultado? Um acumular de problemas em relação aos quais, dentro do regime, parecia nada se poder fazer, nem sequer dizer. Radicais e populistas exploraram naturalmente os decorrentes sentimentos de impotência cívica: de repente, o voto nesses movimentos deu, a muita gente, a sensação de que podia outra vez fazer ou dizer qualquer coisa. Aos defensores da democracia liberal, à direita e à esquerda, convém restituir aos cidadãos o sentido de que são agentes, o que passa por as elites políticas assumirem sem tibieza, nos termos da democracia liberal, alternativas claras e debates frontais. Só se a política voltar a ser democrática deixará de ser populista ou radical.

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