Francisco Queirós

O pior Cego é o que não quer ver… Et tu, Brute?*

José Sócrates demitiu-se do PS depois de o caso Manuel Pinho, verdadeira gota de água a transbordar o copo, ter precipitado o afastamento de ministros do actual Governo e dirigentes do partido em relação ao ex-primeiro ministro. Saindo também em defesa de Pinho, Sócrates considerou “ter chegado o momento de pôr fim a este embaraço mútuo”. Esta súbita (mas verdadeiramente pouco surpreendente para quem tem os olhos abertos e alguma capacidade de análise, leitura e sentido de antecipação dos acontecimentos e fenómenos políticos!) pode muito bem levar-nos a recuar a 2004, estando Santana Lopes à frente de um Governo com naufrágio anunciado e José Sócrates conspirando afanosamente nos bastidores para tomar de assalto o PS, era já bem visível o “Socratismo triunfante” que se avizinhava com a complacência da maioria dos dirigentes e militantes do partido depois da absurda renúncia de Ferro Rodrigues (que cedeu de bandeja a Sócrates a liderança do PS). Absurda Sim! Afinal Ferro Rodrigues comportou-se (Vergonhosamente!) ao pior estilo de um “menino mimado” a fazer uma birra ridícula porque alguém não lhe fez a vontade. Se bem se lembram O PR de então, Dr. Jorge Sampaio, decidiu que era hora de uma clarificação política séria e optou por convocar Eleições Gerais antecipadas em vez de permitir uma “Geringonça” que colocasse o PS no poder com o apoio mormente do PCP (na altura o BE tinha 6 anos de vida e 3 deputados – viria a ganhar 8 nas eleições de 2005). Como muitos ainda hoje penso (e com todo o respeito por Jorge Sampaio) que o fez convencido que estava que com uma liderança forte e hábil o PS poderia chegar à sonhada maioria absoluta…

Confesso que só o apego à ideia de conseguirem, por via da lealdade aparente, a um líder incontestado e PM com maioria absoluta, os Lugares (vulgo “tachos”) tenha levado pessoas respeitáveis e que julgava inteligentes/sérias a renderem-se com tanta facilidade e falta de sentido crítico a um homem que revelaria, como primeiro-ministro, uma sobranceria, uma soberba autoritária face às opiniões divergentes e uma incapacidade de antecipar a terrível crise em que o país mergulharia e de que ele, com a sua cegueira digna de infalibilidade, foi largamente responsável.

Como foi possível que pessoas como António Costa – talvez à ápoca já visto como o quadro do PS mais bem preparado para suceder a Ferro Rodrigues, afirmar perentoriamente e em tom aparentemente definitivo, que nunca seria secretário-geral do PS e muito menos primeiro-ministro… e como explicar que razão levou Augusto Santos Silva ou Vieira da Silva a vendarem os olhos e terem seguido cegamente José Sócrates? Mas foi isso o que simplesmente viria a verificar-se, atingindo mesmo requintes chocantes, como sucedeu a Santos Silva, pois acabaria como verdadeiro “ministro de propaganda do socratismo”, revelando uma vocação trauliteira de que eu nunca se lhe suspeitara; sendo que até era um dos deputados mais bem preparados e brilhantes do PS. Está visto que, em política, as pessoas se reconvertem e mudam de camisa com uma facilidade impressionante. À luz destes tristes ensinamentos é inevitável concluir aquilo que sabemos desde César e Brutus: os mais fervorosos adeptos de um líder político incontestado são os que aparecem primeiro a afiar a faca quando ele cai em desgraça.

Mesmo quem julga ter alguma perspicácia e sentido de leitura do real ainda assim surpreendente constatar como pode ir tão longe o cinismo dos comportamentos, até ao ponto de provocarem a náusea. Ora, é isso que me inspira algum cepticismo sobre a capacidade de redenção política e recuperação da ética republicana (essa expressão mágica que está em moda nos dias que correm para enfrentar a ameaça do populismo).

Sim, como é possível ter havido tamanha cegueira face a José Sócrates durante tanto tempo, cegueira que apenas se tornou insustentável depois do silêncio ensurdecedor de Manuel Pinho e de os interrogatórios judiciais a Sócrates terem caído na praça pública? Quem triunfa, afinal, são os justiceiros que defendem a legitimidade das encenações televisivas “coladas” à investigação dos magistrados? Do jornalismo de sarjeta passámos à política de sarjeta, onde impera a lei da selva, com cada um a sacudir a água do capote e a clamar “salve-se quem puder”? Confesso que ainda ando à procura de respostas satisfatórias…. Mas como diria Maquiavel “os Homens traem mais facilmente os que amam do que os que tem, pois, o amor desaparece, o temor mantém-se”!

*”Até tu Brutus?” expressão atribuída ao Imperador Romano Júlio César quando assassinado por Caius Brutus , seu filho adotivo/protegido

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