Francisco Queirós

O delírio norte-coreano

A recente escalada de tensão no Extremo Oriente, que tem como protagonista Kim Jong-un, o jovem ditador da Coreia do Norte, e como intervenientes directos a Coreia do Sul, os EUA, o Japão e a China, chamou a atenção do mundo para um regime político tão fechado como desconhecido. O que sabemos afinal sobre a autodenominada República Democrática Popular da Coreia (RDPC)?

No fim da Segunda Guerra Mundial terminou a anexação japonesa da Coreia e dividiu longitudinalmente a península em duas zonas ocupadas – o Norte pela União Soviética e o Sul pelos EUA, que acabaram por dar origem aos actuais países, após a guerra que os opôs, no início da década de 50 do século passado, naquele que foi o primeiro conflito armado da Guerra Fria.

Ambas as Coreias tiveram, a partir daí, evoluções bastante diferentes. Numa simplificação, uma seguiu o comunismo – o Norte –, e a outra o capitalismo – o Sul. No entanto, para percebermos a actual RDPC, esta classificação binária é claramente insuficiente.

 

Afinal que tipo de Regime é o da Coreia do Norte?

Qual é o regime político da RDPC? Esta é uma questão que há muito apaixona os politólogos, já que a mera etiqueta “comunista” não chega. Há quem pense que é uma Democracia…entre eles por exemplo Bernardino Soares (Ex Líder Parlamentar do PCP e actual Presidente do município de Loures), afirmou numa entrevista, em 2003, que tinha “dúvidas de que a Coreia do Norte não seja uma democracia”. De resto este problema de “desconhecimento da realidade” dos dirigentes comunistas sobre os países Comunistas é proverbial: a deputada Rita Rato afirmou que desconhecia o que era um Campo Gulag…

Curiosamente até existem outros dois pequenos partidos, mas que têm que submeter-se àquele que é, na prática, o partido único desta “ditadura da democracia do povo”, como prevê a Constituição. Muitos classificam ainda a RDPC como uma “ditadura familiar” ou uma “monarquia absoluta” (esta visão foi muito bem parodiada pelos bonecos da “Contra Informação”)…

No aspecto ideológico, a RDPC assenta na ideia de auto-suficiência, que muitos consideram o “marxismo-leninismo kimilsunguiano”, onde sobressai um culto da personalidade que estabeleceu que Kim-Il-sung é o “eterno presidente” e que evoluiu para uma quase-religião de Estado. Em 1972 o termo local ‘Juche’ substituiu o “marxismo-leninismo” na Constituição e em 2009 foram retiradas todas as referências a “comunismo”. Recentemente, ganhou força a filosofia ‘Songun’, ou “prioridade militar”.

Há ainda quem defenda algo completamente diferente. Em 2010, Brian Reynolds Myers, estudioso da Coreia do Norte, publicou o livro “The Cleanest Race: How North Koreans See Themselves and Why it Matters” (“A Raça mais limpa. Como os norte-coreanos se vêem a si próprios e porque é que isso importa”), onde defende que a ideologia ‘Juche’ serve apenas para iludir os estrangeiros. Segundo ele, a RDPC é um regime nacionalista, racista e xenófobo, derivado do nacionalismo Showa japonês.

De facto, a única conclusão a tirar é que este regime ‘sui generis’ desafia uma classificação política simples e se presta às mais diversas interpretações.

 

Como aceder a Informação sobre a CN?

Como chegar até este regime fechado? Hoje em dia, através da Internet, é possível aceder a uma quantidade enorme de conteúdos produzidos pela RDPC, que os transmite através de vários canais. Na página oficial da RDPC podemos encontrar diversas informações sobre o país, uma biblioteca electrónica, informações sobre turismo e negócios, uma galeria de imagens e até uma loja ‘online’ onde é possível comprar DVD com filmes, CD de música, emblemas, bandeiras, etc. Há até ensino de Português com alunos motivados por poderem seguir os feitos de Cristiano Ronaldo!

Através do YouTube, é ainda possível ver os filmes norte-coreanos legendados em inglês, para além de concertos de música, programas de televisão.

 

Curiosidade Ocidental é Natural e Evidente…

Em Portugal, o escritor José Luís Peixoto escreveu o livro “Dentro do Segredo – Uma Viagem na Coreia do Norte”, depois de ter passado quinze dias naquele país. Numa entrevista ao “Diário de Notícias”, afirmou: “Mesmo para quem visite a Coreia do Norte com mais liberdade, existe sempre um constrangimento de movimentos, para além de uma exagerada recriação que é feita para os estrangeiros. Para quem está fora daquele culto de personalidade, é difícil aceitar o que nos é dito sobre os líderes e a grande quantidade de qualidades fora do humano que lhes são atribuídas.”

Por muito que no Ocidente se ironize um regime que nos parece vindo de outro mundo – a lembrar a distopia orwelliana “1984” –, a crescente instabilidade no Extremo Oriente pode originar um conflito de proporções desconhecidas.

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