Francisco Queirós

“DAS Fraude” Continua! A Vergonhosa Hipocrisia Alemã soma e segue… (II)

“DAS Fraude” Continua!

A Vergonhosa Hipocrisia Alemã soma e segue… (II)

 

Atirar pedras quando se tem telhados de vidro acaba sempre mal. A Alemanha foi dos maiores críticos de Portugal durante os nossos anos de crise, mas o escândalo VW veio revelar um país onde a classe política e o mundo empresarial estão muito juntinhos, onde Berlim faz pressão junto de Bruxelas para levar a sua vontade avante, e onde a indústria aldraba para ser mais “competitiva”.

Onde está o cerne do escândalo?

O calcanhar de Aquiles deste gigante germânico reside numas escassas linhas de código digital escondidas no programa informático dos carros a diesel vendidos pela Volkswagen. Ao contrário dos dias em que o automóvel era um produto meramente mecânico, as viaturas modernas têm as peças mecânicas controladas por equipamentos electrónicos. Em busca de maior competitividade e de maiores vendas, a Volkswagen programou os seus carros para, em termos simples, fazerem “batota”.

Os controlos de emissões de gases nos EUA são quase tão severos como os europeus. Lá como cá, para se diminuir a poluição produzida por um automóvel é quase sempre necessário diminuir a potência do motor. Mas a Volkswagen, através da sua campanha de marketing “Clean Diesel” (“Diesel Limpo”) promoveu a ideia de que os seus motores eram milagrosamente ecológicos, sem sacrificar a potência.

 

Problema: É MENTIRA!

Os motores estavam programados para funcionarem com a potência máxima durante o uso normal por parte do consumidor mas, quando o carro era ligado às máquinas dos reguladores durante as inspecções, o pequeno pedaço de ‘software’ instalado activava-se – e diminuía artificialmente a potência e a poluição. A diferença não é pequena: a agência ambiental dos EUA (EPA) estima que cada Volkswagen assim “quitado” ultrapassa 10 a 40 vezes o limite legal daquele país!

Era difícil escapar à acusação de fraude, até porque o ‘software’ descoberto não tinha outro propósito de existir sem ser mesmo a batota: “A VW produziu e instalou um ‘software’ na cadeia electrónica do módulo central de comando (ECU) destes veículos que consegue perceber que o mesmo está a ser testado para avaliar as emissões e não a ser utilizado numa estrada normal”, afirmou a EPA, notando que este ‘software’ não está presente na lista de sistemas incluídos no automóvel e que, por isso, a certificação do mesmo é ilegal. Há 11 milhões de carros nesta situação! Para cumulo da desgraça segundo o sistema actualmente em vigor na União Europeia, um modelo automóvel precisa apenas de obter certificação em um dos Estados-membros para ser automaticamente aprovado em todos os 28 países da UE.

Porquê tanto laxismo na Europa? Atente-se: por exemplo: o principal lobista da associação dos fabricantes de automóveis europeus é Matthias Wissmann, um antigo ministro do governo de Helmut Kohl, ex-líder do partido da chanceler Angela Merkel. Curiosamente, o actual vice-chanceler e ministro da Economia da Alemanha Sigmar Gabriel, líder da esquerda social-democrata, foi quadro da administração da Volkswagen durante vários anos. Quem disse que a promiscuidade entre cargos públicos e privados era um exclusivo lusitano/latino?

A hipocrisia e o cinismo dos Alemães perdeu a vergonha de vez: ao mesmo tempo que cedia ao lobby para os carros do seu país poderem poluir mais, Merkel fazia lobby para nos vender mais aerogeradores a preços exorbitantes (as famosas ventoinhas que cobrem Portugal de lés a lés) e dizia que países como Portugal tinham de se tornar mais “verdes”. A ironia é que muitos dos carros banidos do centro de Lisboa são, possivelmente, menos poluentes do que um carro alemão a diesel acabado de sair da fábrica! Entretanto a proverbial incapacidade da UE para resolver as questões vem ao de cima: só em 2020 haverá novas normas de emissões e inspeção!

Para os portugueses, é bom de de saborear a ironia deste escândalo monumental. Após termos sido denegridos como “mentirosos” e “preguiçosos” (apesar de termos menos feriados e dias de férias e de trabalharmos muito mais horas do que os alemães), eis que um dos maiores símbolos da Alemanha enfia ambas as carapuças. A dúvida é, agora legítima: quando nos diziam que tínhamos de ser mais competitivos, os “dadores de lições” germânicos queriam dizer que devíamos fazer batota e enganar os nossos clientes?

Mas, infelizmente, não podemos rir por aí além, pois uma parcela significativa da economia nacional está atrelada ao futuro da Volkswagen, através da Autoeuropa (1% do PIB português e produz quase 8% das nossas exportações).

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