Francisco Queirós
A Demissão de Marta Temido

Não é só em Portugal, mas talvez por cá seja demais. todas as questões complexas são colocadas de lado, em nome da redução simplista de casos. Por exemplo, se há uma crise na obstetrícia, qualquer morte nessa área se deve a essa mesma crise.
Eça foi conhecedor profundo do povo português, resumiu bem esta forma de estar do “português”… uma Sr.ª num salão lê, em voz alta, as notícias do dia: anuncia que morreram 2000 pessoas num terramoto em Java e ninguém comenta; a seguir informa que a repressão de sindicalistas na Bélgica causou 4 mortos que não mereceu que um lacónico “Pobre gente” e por aí adiante. Até que esta grita de forma estridente: “Santo Deus!” Perante a curiosidade dos seus ouvintes, diz: “Foi a Luísa, da Bela Vista… Esta manhã! Desmanchou um pé!” Então, escreve Eça, toda a sala se “alvorotou num tumulto de surpresa e desgosto”.
O que são 2000 vidas comparadas com o deslocamento do pé de alguém conhecido…
O mundo da comunicação social e da opinião pública sofreu várias revoluções tecnológicas, mas não evoluiu muito na substância. Tomemos o mais recente caso de Marta Temido, Ministra desadaptada ao cargo, de pouco diálogo e demasiadas convicções, uma Má Ministra. Diz-se que a gota de água para a sua demissão foi a morte de uma senhora do Santa Maria para o Francisco Xavier. Ora acontece que o que se passou foi uma situação de situação gravíssima que resultou na morte da Mãe apesar de todos os protocolos terem sido seguidos.
No tempo de Eça explicar onde ficava Java (até mesmo a Bélgica) era complicadíssimo. Como o é um processo moroso e complicado discutir todos os erros cometidos por Marta Temido. Pegar num exemplo de uma mulher que morreu com “pré-eclâmpsia” fatal é bem mais simples e óbvio. Este simplismo perante a cada vez maior complexidade dos assuntos arrasta-nos a todos para uma espécie de atoleiro onde quem cai dificilmente sairá.
Se soubermos que o dinheiro aplicado na Saúde, em relação ao PIB do país, está na média alta da Europa ou que o número de médicos por mil habitantes é superior à da maioria dos países da UE, olham-nos perplexos; só ouvimos dizer que são necessários mais meios e recursos. Falar de gestão integrada, através das estruturas atuais conectada com a baixa produtividade em Saúde é quase um sacrilégio; falar da necessidade de cooperação entre sectores (público, privado e social) é reacionário… estes preconceitos tornam a administração da Saúde quase impossível — desde logo quando se desautorizam médicos que precisam de consentimento prévio do paciente para atos que visam evitar a dor (como uma epidural no parto) …
Continuamos irracionais na avaliação das nossas vidas e dos nossos atos. A opinião pública, com a comunicação social à frente, parece apenas saber reagir em manada!
29/09/2022

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