Francisco de Almeida Dias

Rubrica Portugal é mátria

Aprende Rainha, aprende

Mede bem o teu poder

Tu dum lado, o povo d´outro

Qual dos dois há de vencer

Maria II, por William Charles Ross, 1852

 

Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga (alguém me sugeriu, com espírito, que dizer o nome inteiro sem respirar e sem tossir, seria um bom teste ao contágio por COVID-19!): assim foi batizada aquela que passou à história como Dona Maria II, que o povo chamou de “a educadora” e “a boa mãe” e cujo estilo oficial era  “Sua Majestade Fidelíssima, Maria II, pela Graça de Deus, Rainha de Portugal e Algarves, d’Aquém e d’Além-Mar em África, Senhora da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc.” (outro bom treino para a apneia e o despiste viral). Nasceu há 201 anos atrás – o seu bicentenário foi, de facto, assinalado no ano passado, através de diversas iniciativas – a segunda mulher que ascendeu ao trono português e a única monarca europeia a nascer fora da Europa – no Paço de São Cristóvão, Rio de Janeiro, nesses tempos atribulados do primeiro Liberalismo, tornada capital do Reino.

Para que o pai pudesse tornar-se o primeiro imperador do Brasil, arranjou-se-lhe o casamento com o tio D. Miguel (1802-1866); mas os furores ultramontanos do noivo acabariam por gorar as expectativas de conciliação entre liberais e miguelistas e, naturalmente, goraram também as núpcias. Só após a vitória dos exércitos de D. Pedro (1798-1834) chegou enfim a Portugal, onde foi coroada rainha aos 15 anos e tentou arranjar-se-lhe de novo marido; mas ao cabo de dois meses de casamento estava já viúva de Augusto de Beauharnais e ainda sem geração! Dizem que “à terceira é de vez”… E deu certo: casa em abril de 1836 com Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha (1816-1885), de quem tem 11 filhos – mas demasiado numerosos e difíceis serão esses partos, que irão acelerar a sua morte, em agonia, aos 34 anos de idade. E se a sua vida doméstica não lhe dava um momento de paz, também a pública não se lhe haveria de afigurar fácil – jovem soberana inexperiente, nesses tempos conturbados que se seguiram à queda do Antigo Regime.

É assim que entra em cena António Bernardo da Costa Cabral (1803-1889), que, de setembrista inveterado, foi moderando o seu ardor até se tornar o líder da restauração da Carta Constitucional – e, portanto, da liquidação institucional do Setembrismo. Nomeado Ministro do Reino a 24 de fevereiro de 1842, dá início ao plano reformador do Estado, que conhecemos como Cabralismo, garantido pelo grande apoio régio de que gozava – e que lhe valeu o desdenhoso epíteto de “o valido da rainha” e a atribuição de mil histórias de envolvimento afetivo entre ambos, mais ou menos escabrosas. Cada vez mais rico e favorecendo politicamente a família próxima, tem essa magnética capacidade de reunir contra si todas as oposições, enquanto a jovem monarca continua a cumulá-lo de incensos: conselheiro de Estado efetivo (1843), par do Reino (1844), Conde de Tomar (1845). No entrementes, a crescente dívida pública torna a bancarrota iminente e, se havia gota para fazer transbordar o copo, essa tinha de vir do último setor que Cabral não resistiu a incomodar: a Igreja.

O Cabral fugiu p´ra Espanha

Com uma carga de sardinha

Com a pressa que levava

Nem disse adeus à Rainha

 

Viva a Maria da Fonte

Vem com esporas de prata

A cavalo na Rainha

Com o Saldanha à arreata

Supplemento burlesco ao Patriota n.º 1032, 11 nov. 1847.

Explode, pois, um confronto entre Marias, a “Segunda” e a “da Fonte”, com os Cabrais pelo meio –  como de forma tão divertida e eficaz nos mostra o Supplemento burlesco ao Patriota, que aqui reproduzimos. Em lugar de José Bernardo da Silva Cabral (1801-1869), também ele feito Conde pouco antes, aparecendo por trás do mano dos pés de cabra, bem podemos imaginar a pobre Rainha aflita, que, depois da sublevação popular minhota, foi obrigada a pôr termo ao Cabralismo. Demitido a 20 de maio de 1846, lá partiria Costa Cabral para o exílio madrileno, a correr e sem dizer sequer adeus à soberana, com tempo apenas para recolher “uma lata de sardinha” para a viagem… Haveria de voltar, teimosamente, ao cabo de poucos anos (embora disto ainda então nada se soubesse).

Não era só a proibição dos enterros dentro de igrejas, a conta que Cabral estava então a pagar; era todo o ódio acumulado pelos seus inimigos, a que se juntavam ainda tensões da guerra civil entre liberais e absolutistas e a promulgação de algumas leis impopulares, como a do recrutamento militar. E como a insurreição, partida da Póvoa de Lanhoso, teria sido fortemente feminina e liderada por uma mulher da freguesia de Fontarcada, aí tínhamos uma Maria, da fonte, para abanar o trono de outra Maria. Esta última, porém, ainda não completamente satisfeita com toda essa agitação, que havia colocado no governo Pedro de Sousa Holstein, organizou por sua vez um golpe palaciano, dito “a Emboscada”, a 6 de outubro desse mesmo ano, fazendo uma substituição de duques – um Saldanha por um Palmela – o que valeu ao País oito meses de guerra civil: a Patuleia.

Estas quadras populares da época das duas Marias, com um galhardo arranjo musical de cavaquinhos e castanholas, foram recuperadas por Zeca Afonso, que as cantou no álbum Fura Fura, editado em 1979. Comprovava com elas, no momento que então se vivia – o da consolidação do regime democrático em Portugal, depois da Revolução de abril – o constante retorno das mesmas fragilidades humanas no exercício do poder e, portanto, a necessária atualidade da intervenção popular sempre que a representação política falhasse. As últimas estrofes introduzem, nessa luta entre mulheres simbólicas, uma entronizada e outra imaginada, uma terceira mulher bem real:

O Cabral fugiu para Espanha

Já lá vai para a Galiza

Com a pressa que levava

Nem disse adeus à Luísa

 

O Cabral queria ser rei

A mulher quer ser rainha

Foram-se os Cabrais embora

Só ficou a Luisinha

 

Trata-se de Louisa Mitchell Meredith Read (1816-1885) “esposa dedicada e mãe carinhosa”, como havia de mandar lavrar no epitáfio, viúvo e já velho, Costa Cabral, então embaixador em Roma. Aí haveria de resgatar para sempre da sua má fama juvenil, no insubstituível papel de mediador que se encontrou a assumir entre o Papa Pio IX, padrinho de  batismo de D. Maria Pia e “prisioneiro dentro dos muros vaticanos” durante a invasão da Cidade Eterna pelas tropas do piemontês unificador da Itália, Vittorio Emanuele, pai da nossa rainha… Mas essa é uma história que fica para outro dia.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *