Francisco de Almeida Dias

Rubrica Portugal é mátria

Senhora Viscondessa, o seu decote

Excedeu tanto o que rezava a fama

Que mal a vi surgir no camarote

Perdi o fio, a tessitura ao drama…

 

E a impressão no resto da plateia

Pode a Senhora crer, não foi mais fraca

O seu busto gentil de Galateia

Gerou pecados rubros como a laca.

Assim inicia a deliciosa “Carta a desoras” dedicada, pudicamente, às iniciais V. d’A. pelo fino humorista e poeta de feição popular que foi Augusto Gil (1873-1929). Trata-se de uma longa ode (quinze estâncias, em quadra decassilabada), completamente debruçada sobre o vasto decote de uma senhora de sociedade finissecular, hoje de difícil identificação, e às reações que o mesmo gerou no público dessa récita de beneficência – de súbito esquecido da récita e da beneficência, e inteiramente concentrado nesse colo alabastrino. O autor apresta-se a esclarecer a pureza dos seus olhos – que ao contrário de outros, «famintos e vorazes como corvos», poisavam nos ombros da Viscondessa «como um casal de rolas inocentes…» – e a confessar o seu sentimento, que não era de o da paixão: «Mas para que me escreve, então? – dirá. / A falar-lhe a verdade, nem eu sei. / Talvez por ser o melhor modo que há / De lhe dizer que a vi – e que gostei…»

Outros exemplos há, na arte e na literatura portuguesas de Oitocentos, de verdadeiras fascinações por decotes – e principalmente pelo que deles sobressaía, em certas ocasiões de festa, mais permissivas e desafiadoras da moral puritana, própria da época. Lembro, de relance, a aparição de Maria Monforte aos olhos de um ciclotímico Pedro da Maia, então em fase hormonal: «(…) a rapariga principiou a aparecer em S. Carlos, fazendo uma impressão – uma impressão de causar aneurismas, dizia o Alencar! Quando ela atravessava o salão os ombros vergavam-se no deslumbramento de auréola que vinha daquela magnifica criatura, arrastando com um passo de Deusa a sua cauda de corte, sempre decotada como em noites de gala, e apesar de solteira resplandecente de joias. (…) Mas era no camarote, quando a luz caía sobre o seu colo ebúrneo e as suas tranças de oiro, que ela oferecia verdadeiramente a encarnação de um ideal da Renascença, um modelo de Ticiano…».

Com que mordacidade – e, há quem diga, com que pontinha de misoginia – o inefável Eça, na sua obra prima, Os Maias, soube descrever o lado feminino dessa sociedade, feita das  «senhoras que outrora tinham horror à negreira», e que lá vinham «todas, amáveis e decotadas, com o beijinho pronto, chamando-lhe “querida”, admirando as grinaldas de camélias que emolduravam os espelhos de quatrocentos mil réis, e gozando muito os gelados», ou, em registo mais leve, essas outras mulheres mais permissivas, que no dizer de Ega poderiam integrar «um Cenáculo, um Decâmeron de arte e diletantismo, rapazes e mulheres – três ou quatro mulheres para cortarem, com a graça dos decotes, a severidade das filosofias…»

A ação principal d’Os Maias ambienta-se na Lisboa solidamente regeneradora de 1875. Pouco menos de vinte anos antes, no momento de afirmação social dessa mesma ideia estabilizadora de rotativismo político, com toda a sua promessa de progresso material e moral, casava o segundo Visconde de Menezes com Dona Carlota Emília de MacMahon Pereira Guimarães, a 8 de maio de 1858 – o mais célebre decote de todo o romantismo pictórico português! A majestosa tela, que retrata a nova Viscondessa, é hoje conservada no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado (óleo sobre tela, 223 × 150 cm, assinado e datado, inv. 463) e em muito recorda o celebérrimo retrato que Franz Xaver Winterhalter (1805-1873) fez da imperatriz Sissi da Áustria, com o seu vaporoso vestido branco constelado por milhares de estrelas de prata – mas antecipa-o de três anos. Presente em numerosas exposições desde 1862, o ano em que foi acabado, e, desde então, citado em ampla bibliografia da especialidade, vemos a nobre e elegante figura destacada por um feixe de luz, que ilumina parte do vestido branco, avivado pelas flores rubras que o ornam, en pendant com um amplo xale e com as plumas do toucado.

Como sucede com esta tela monumental, também o nosso olhar é fatalmente capturado pelo decote de Dona Carlota Emília num outro retrato, de menores dimensões (77 x 55 cm) e menos conhecido – datado de 1860 e que pertenceu à coleção do banqueiro e amador de arte Ricardo Espírito Santo (1900-1955). Este segundo, na verdade, mais que o da senhora, parece ser o retrato dos próprios ombros dela, embora o modelo nos fite direta e ternamente, através do olhar do marido apaixonado. Nenhuma joia atrapalha a ampla nudez do regaço, que parece desprender-se da farfalhuda complicação do vestido, ganhar vida autónoma. Casada havia dois anos com o pintor e tendo já uma filha, Elisa Wilfride Carlota Miranda de Menezes – a doadora, em 1919, do grande retrato ao Museu do Chiado e  interlocutora de Espírito Santo na venda de outras obras e objetos do Visconde – a frescura e a beleza desta jovem mulher e mãe volta a recordar-me Os Maias: «Nunca Maria fora tão formosa. A maternidade dera-lhe um esplendor mais copioso; e enchia verdadeiramente, dava luz àquelas altas salas de Arroios, com a sua radiante figura de Juno loira, os diamantes das tranças, o ebúrneo e o lácteo do colo nu, e o rumor das grandes sedas.»

Nascido no Porto e afilhado de batismo do economista e político Ferreira Borges (1786-1838), autor do primeiro e longevo Código Comercial português de 1833, Luís de Miranda Pereira de Menezes (1817-1878) ensaiou uma carreira militar, batendo-se ainda novo pela Causa Constitucional, mas depressa se descobriu alma criadora, mais que guerreira. Assim, chegado à capital com 17 anos e os rudimentos da arte aprendidos em casa, irá continuar os seus estudos sob orientação desse duro caráter – e, dicunt, duro pincel – que foi  António Manuel da Fonseca (1796-1890), em cujo atelier será notado pelo Rei-consorte D. Fernando. Tal reconhecimento ganha foros de primeira consagração, e ei-lo embarcando para Roma, onde chega a 29 setembro 1844, para se locupletar com a lição moral e estética do grande Johann Friedrich Overbeck (1789-1869), propulsor da Escola dos Nazarenos. Três anos os vive plenamente a cidade dos Papas e tudo o que ela lhe pode oferecer, retornando à pátria em junho de 1847, mas demorando-se ainda nesse regresso por Bruxelas, Paris e Londres.

Do catálogo das suas obras e do quinhão que conquistou para a sua expressão, tão destacada no panorama oitocentista das artes portuguesas – que em breve merecerá a publicação de novo e completo estudo, coordenado por Ana Pinto Ferreira – sobressaem os autorretratos e retratos de âmbito familiar (com raras e ilustres exceções, como o maravilhoso “Retrato do inglês King” de 1847, também no Chiado), as cópias académicas de quadros clássicos, mas sobretudo a sua sensibilidade como pintor de costumes, de cenas históricas e bíblicas, e de algumas paisagens em que se afirma o grande colorista, que ele mesmo se reconhecia.

A tudo, porém, sobrevém o retrato enamorado da jovem mulher, símbolo mesmo daquela aristocracia urbana dos tempos da Regeneração, preciosa e minuciosamente retratada na sua dimensão estatuária e monumental («segundo uma estética miniaturista, em molde ampliado», como notou Maria Aires Silveira). Como se obra e vida se pudessem resumir àqueles esplêndidos ombros decotados da Senhora Viscondessa, esses que impressionavam poetas e romancistas, inspiravam invejas e excessos, inspiravam um dos chef-d’oeuvre da nossa Contemporaneidade.

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