Francisco de Almeida Dias
Portugal é mátria
Dulce Maria Cardoso
Ao inserirmos entre aspas o nome de Dulce Maria Cardoso no mais famoso motor de busca da internet, obtemos cerca de 107 000 resultados em menos de um minuto – número que impressiona e que demonstra bem a imensa popularidade que esta escritora tem adquirido no espaço público, também internacional. A sua vida literária começou há vinte anos, quando a editora portuense Asa deu a lume a primeira edição de Campo de Sangue, a vida de um homem esvaziada pelos contos de quatro mulheres que o conhecem de diferentes contextos. Quanto uma narrativa revele e esconda de uma vida, necessariamente distorcida pelo que recordamos e inventamos (e amamos e odiamos) de um ser humano, foi o primeiro desafio, que lhe mereceu imediatamente o Grande Prémio Acontece.
Ao observarmos as fotografias e os vídeos que o Google disponibiliza sob este nome entre aspas, temos muitas vezes dificuldade em reconhecer na autora a mesma pessoa, como se se lhe transmitisse a multiplicidade de vidas a que um escritor tem necessariamente de aceder para dar vida às personagens (Dulce Maria Cardoso repete em várias ocasiões que não é o que escreve, mas que está no que escreve). Camaleónica desde esse início de milénio, quando começa a aparecer nos média: quantos cortes e cores de cabelo, quantos estilos no vestir e até quantas diferentes modulações de voz e reatividades distintas perante perguntas, essencialmente sempre as mesmas, que lhe vão sendo postas pelo jornalista de turno.
Nas suas aparições mais recentes a autora tem um ar sereno e sorridente; a voz compassada, transpondo para a oralidade aqueles mesmos tempo e concentração que lhe requerem a elaboração das tramas, o delinear das figuras, o ato mesmo da escrita. Os seus cinquenta e tal anos são decantados pela segurança das escolhas que tem feito, desde a adoção da filosofia e da prática veganas, que exprimem a sua compaixão pelos animais, até à opção consciente da minoria a que quer pertencer, advinda do entendimento vívido (desde o início da adolescência, no retorno de Angola, aspeto central também a nível literário) que sempre esteve excluída de uma maioria por vontade própria, alheia, ou por condição congenial.
À margem, “incorreta”, estava também Violeta, protagonista do seu segundo romance, Os meus Sentimentos, de 2005 (Prémio PEN de ficção e Prémio da União Europeia para a Literatura) e logo a partir do seu aspeto físico. A rememoração a sua vida, problematizando os grandes temas da morte e da sexualidade feminina, deram-lhe mote para um grande desafio formal: 300 páginas de texto divididas em duas partes, em que a segunda é o reverso da primeira; um texto totalmente construído sem futuros nem condicionais verbais e exclusivamente pontuado por vírgulas.
No fim dessa imensa construção sobre a memória, um problema com a memória do computador fê-la perder todo o trabalho e tendo, nesse impasse, optado pela reescritura total do romance baseada no que de mais significativo permanecera na sua memória, encontrou uma técnica que utiliza desde então: apagar o primeiro manuscrito assim que esteja completo, para o voltar a fixar, depurado, mais vigoroso e fluido, mais natural, numa luta contra o tempo e contra a exaustão da escrita, seguindo apenas o fio rubro da afetividade.
O caso de Violeta de Os meus Sentimentos é particularmente curioso, porquanto a personagem se libertou da criadora e se colou à pele da atriz Monica Calle, que adaptou o texto em espetáculo apresentado em abril de 2013 na Culturgest. Como disse à época, em entrevista «Ela não me conhecia, ela não sabia que estava a escrever este livro para mim. Mas estava. A Violeta sou mesmo eu, neste momento da minha vida.» Apesar de não ter interferido na encenação e de nunca terem falado sobre a protagonista, Dulce Maria Cardoso afirmaria na mesma altura: «A Monica diz o texto exatamente como eu o ouço na minha cabeça.»
Foi, todavia, o seu quarto romance, O Retorno – que marcou também o início da colaboração frutuosa com a Tinta da China, e a em 2011, e com a sua editora, Bárbara Bulhosa – aquele que pôs Dulce Maria Cardoso sob os refletores. Refere-se-lhe sempre, com uma modéstia que se sente sincera e profunda, como “um livro muito amado”. Tal facto causou, de início, grande espanto à autora: como é que um tema tão mal-amado da nossa história recente se converteu num livro de tamanho sucesso editorial, com 13 edições, e publicado em tantos países? Tratando-se, acima de tudo, de uma história de perda, de (difícil) reintegração e de recomeço, toca cordas universais, traduzíveis em todas as línguas.
Para os portugueses, O Retorno não surge como um tribunal da História, mas como uma fase desse luto que ainda nos falta fazer. O fim de quinhentos anos de presença em África, de “descobridores” a colonizadores, com tudo o que de mau e de bom essa experiência teve para dominadores e dominados e dominantes, é irreduzível a um juízo dicotómico simplista de bem e mal. É voz de um Rui de 15 anos, entre Luanda e Lisboa, a conduzir o leitor numa viagem que ultrapassa a ficção, como bem notou José Riço Direitinho, na crítica publicada no Público: «Dulce Maria Cardoso, provavelmente a mais importante escritora da sua geração, publica O Retorno, o primeiro caso sério de reflexão literária sobre os 500 mil retornados que aterraram em Portugal em 1975. Embora a escritora, vinda de Angola, fosse um deles, isto não é “um ajuste de contas” com o passado. Mas talvez seja um ajuste de contas com a obra dela.»
2011 era o ano de uma profunda crise que obrigava a Europa a repensar o seu futuro. Era também o tempo certo para O Retorno: passados 35 anos Dulce Maria Cardoso podia enfim reabrir esse grande depósito onde conservara a sua memória de menina que, na véspera de fazer 11 anos, regressara a um país que seria o seu, mas onde era estrangeira. Ter “decorado” os lugares, os factos, as pessoas, numa idade em que a capacidade de memorizar (e de embelezar, decorar – justamente) se sobrepunham à de julgar, permitiram-lhe falar de Rui, mas viriam a confundir a sua própria vivência familiar com a da família do seu protagonista.
Depois de outras experiências literárias (contos, livros infantis, textos teatrais), Eliete – A Vida Normal (2018) é o primeiro volume de uma anunciada trilogia que retrata a sociedade atual, as mutações que atravessa e determina, e essa tão almejada “normalidade” sob a qual tudo pode acontecer. Recentemente veio a lume Autobiografia não autorizada, a compilação das suas crónicas na revista Visão, na charneira entre o diário e a ficção, confirmação da curiosidade sobre uma pessoa que se tornou personagem no nosso mundo cultural e, simultaneamente, superação do pudor com que a autora sempre preservou a sua intimidade do espaço público.
Dulce Maria Cardoso faz da memória e da observação do mundo, desconstruídas e reconstruídas em escrita, concretização da lição bíblica (e da de J.M. Coetzee, um dos seus autores preferidos): o amor e a verdade encontram-se, a justiça e a paz beijam-se, ética e estética fazem-se uma – mas o reverso de tudo isto é também possível, com a mesma coerência literária.
28/07/2022

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