Francisco de Almeida Dias

Portugal é mátria

Patrícia Ferreira

«Quantas línguas sabe um homem, tantos homens é» fixou o imperador da língua portuguesa no seu Sermão Undécimo: Do seu dia. Este tem sido um dos motes que Patrícia Ferreira fez seu, desde que, ainda estudante na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, colaborou com a Professora Teresa Amado numa edição dos textos de António Vieira, patrocinada pela Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses.

O seu ar menineiro, a suavidade da sua voz e a serenidade do seu sorriso não denunciariam, de resto, estarmos perante uma poliglota que para além do Inglês, do Francês e do Alemão que aprendeu seguindo um percurso formal, durante a frequência dos seus cursos escolares secundário e universitário, é também fluente no Espanhol, no Italiano e no Sueco – estas últimas línguas adquiridas essencialmente pela exposição ao quotidiano nos países onde viveu, ouvindo e tendo a necessidade de se exprimir: a outra grande escola, a da vida.

Frequentava o segundo ano da variante de Estudos Portugueses da Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas quando se apaixonou pela lírica medieval, na cadeira lecionada pelo Professor João Dionísio, com uma abordagem especialmente ligada ao texto, à sua materialidade e à História da Língua. Foi ele quem a endereçou a Roma, quando teve ocasião de participar no programa Erasmus, dada a sua importante tradição universitária de estudos de Filologia Românica e, em particular modo, os que se dedicavam ao trovadorismo galaico-português de origem provençal, em redor da figura tutelar do Professor Giuseppe Tavani.

Se os três meses da bolsa de estudos que venceu não se coadunavam com a organização anual dos cursos na Universidade La Sapienza, tal não a impediu de frequentar também as aulas dos filólogos medievalistas Stefano Asperti e Roberto Antonelli e de regressar a Lisboa a tempo de recuperar a primeira parte do semestre, que arriscava perder-se nas malhas da burocracia luso-italiana.

Mais importante que tudo, porém, foi esse encontro com a Cidade – e com a Professora Mariagrazia Russo, que a esperava com o marido, o jornalista Stefano Pace, no Aeroporto de Fiumicino, à sua chegada. Patrícia Ferreira tinha 19 anos apenas, mas soube aproveitar a oportunidade de estar em Roma e de frequentar a Biblioteca Angelo Monteverdi, especializada em estudos filológicos, linguísticos e literários.

Ali travou amizade com Nicoletta Longo, que a introduziu a esse “monstro sagrado” da lusofilia em Itália, Luciana Stegagno Picchio – já jubilada do ensino, mas mantendo intacto os seus fascínio pessoal e preponderância académica. E foi ali também que frequentou jovens estudantes que se haveriam de tornar, entretanto, em nomes de referência na Universidade italiana – os filólogos Paolo Canettieri e Carlo Pulsoni, e o atual diretor do Centro de Línguas da Sapienza, Julian Santano Moreno. Partiu com vontade de voltar – o que iria acontecer, mas somente 10 anos depois.

Esse gosto que tomou pela viagem teve imediata expressão no verão sucessivo ao seu regresso de Erasmus, quando partiu com a sua amiga de longa data, Paula Lopes, e uma outra moça conhecida nessa ocasião, na aventura do Interrail… Trabalhou na caixa de um hipermercado e juntou dinheiro durante meses para regressar a Itália e ver as cidades que não conhecera: Milão, Veneza, Florença, Pisa, Nápoles. Depois, embarcando em Brindisi, aportou na Grécia – tal como Sophia o fizera no início dos anos 60 – e visitou os lugares sagrados do Peloponeso e Atenas, eterna como Roma. O coração antigo da Europa em direção ao centro do seu coração africano, nascida em Angola de pais e avós partidos de Portugal para o Ultramar: a vocação de andarilha estava-lhe, afinal, nas veias.

Chegava ao último ano da sua licenciatura sabendo apenas que queria trabalhar na área cultural, longe ainda de sonhar ser professora – como o era, aliás, a sua mãe. Essa ideia começou a desenhar-se-lhe depois de uma experiência muito positiva que teve, quando frequentava o quarto ano: a de ter ido dar aulas de português para a extinta Escola Profissional Almirante Reis, na Rua do Paraíso, em Lisboa. Mais que a almejada independência económica, surpreendente foi relação de respeito e de trabalho que Patrícia Ferreira estabeleceu então com os alunos, apesar de ter praticamente a mesma idade deles.

Há em italiano duas palavras que podem ser traduzidas aproximadamente em português como “autoridade”: autorità e autorevolezza. Enquanto a primeira é vertical e imposta, a segunda impõe-se naturalmente pelo respeito que se reconhece em alguém que o inspira. Foi esta segunda a autoridade que os alunos reconheceram na jovem Patrícia Ferreira, a mesma que passou a pontuar a sua vida profissional, em definição a partir desse momento: o ensino português nas Escolas e, depois de abdicar de um Mestrado em Literatura Medieval, um concurso do Instituto Camões para vários leitorados de português na Europa, em que se classificou em primeiro lugar (para sua surpresa) e em que (para surpresa de todos) escolheu a Suécia como destino seguinte.

O seu contrato anual na Universidade de Estocolmo foi renovado duas vezes e ao fim desses três anos, para além da aprendizagem do Sueco – que lhe viria a abrir portas no mundo das traduções técnicas, no âmbito da Comissão Europeia e do Parlamento Europeu – tinha também adquirido a formação em programação informática, quando fora incluída num projeto-piloto para a criação de um site académico que suprisse a falta de materiais didáticos para o ensino à distância, inversamente proporcional aos excelentes meios técnicos de que a Faculdade dispunha.

Se uma mudança na política interna do Instituto Camões atrasou a criação de um Centro de Língua e determinou o seu não regresso a Estocolmo, quase imediatamente (e ainda através de Mariagrazia Russo) soube de um concurso que a Universidade de Perugia abria para um docente de português. Assim, 10 anos depois do Erasmus, Patrícia Ferreira havia de regressar a Itália e, desta feita, para ficar.

Ao fim de pouco tempo a colaborar com o Professor Brunello De Cusatis, torna a Roma e à Sapienza, onde trabalha ao lado da Professora Sonia Netto Salomão. Os módulos disciplinares técnicos que aí promovem, paralelamente aos cursos gerais de língua, vão estar na base do livro Terminologias do turismo – Instrumentos para a formação especializada em língua portuguesa, que publica em 2013 com as Edizioni Nuova Cultura. Começa a ensinar ainda nos cursos livres de língua e cultura do Instituto Português de Santo António, uma experiência de que gosta especialmente, pelo entusiasmo que um grupo muito heterogéneo de alunos manifesta ao aprender o Português.

O desfio mais recente de Patrícia Ferreira está no prelo: o segundo volume da sua Grammatica d’uso della lingua portoghese, pela prestigiosa editora Hoepli de Milão. Trata-se de um modelo de progressão didática, dividido em unidades autónomas que, à explicação sucinta dos temas gramaticais, faz corresponder uma série de exercícios – os mesmos que irão formar as novas gerações de lusófilos italianos: mulheres e homens renovados naquilo que são pela aprendizagem de uma nova língua – como defendia Vieira no seu Sermão Undécimo.

14/07/2022


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