Francisco de Almeida Dias
Portugal é mátria

A palavra é de origem italiana e a sua primeira aceção é militar, para um lugar alto, de observação e avistamento. Esse sentido de elevação é aquele em que vedetta se mescla imediatamente com o mundo dos palcos, erguidos acima das plateias, para que os refletores ponham em evidência o artista encarnando a obra.
No caso de Ivone Silva (1936-1987) a polissemia aplica-se-lhe inteira, como um trajo de cena que adere ao personagem e à persona do ator – quiçá como aquele «simples vestido preto», com o qual nunca deixou de se comprometer… Sobre os tablados, em cima nos cartazes, acima dos demais da sua geração; e dentro do coração do público. Mas nunca essa altura a afastou do povo, de onde vinha, orgulhosamente. E sempre essa altura lhe serviu para observar, para avistar, para nunca cometer o pecado da desatenção e nunca deixar impune aquilo que considerasse uma injustiça social ou um abuso político, com uma firmeza e uma constância marciais.
Ainda hoje reconhecida e recordada pelo público e pelos colegas (e também por algumas das vozes mais autorizadas da história do Teatro em Portugal, como Luiz Francisco Rebello e Vítor Pavão dos Santos) como uma das últimas grandes vedetas populares da Revista à portuguesa, foi, simultaneamente – no dizer de quem mais de perto com ela privou e lhe foi amigo – um exemplo acabado do antivedetismo.
O seu coração generoso dispensava alardes, como daquela vez em que, compreendendo as dificuldades de uma jovem mãe, deu indicação na Charcutaria do Rato para que se lhe enchesse o cabaz e que o pagamento, anónimo, ficasse por sua conta – recorda a figurinista e cenógrafa Helena Reis, convocada pela RTP para um programa sobre os 25 anos sobre a morte da artista e que participara já em 1989 no documentário Falar de… Ivone Silva, realizado pelos atores Linda Silva e Morais e Castro, irmã e cunhado da homenageada.
No mesmo programa, Natalina José, companheira de tantos e tantos sucessos de palco, falava da simplicidade do trato e rapidez de raciocínio com que resolvia qualquer problema. Como daquela outra vez quando, regressando numa madrugada de temporal desfeito de um espetáculo em Abrantes, foi bater à porta de uma perfeita desconhecida que lhe desse batatas – porque o limpa-para-brisas não funcionava e ouvira falar do efeito hidrorrepelente do tubérculo… Assim, de meia em meia hora, Natalina encostava à berma, Ivone saía sob a chuva torrencial, ia besuntar o vidro e certo é que chegaram ambas sãs e salvas a Lisboa.
«Sou eu ou sou ela / Qual a verdadeira / Olívia patroa ou a costureira?» Vedeta ou antivedeta?
Uma entre treze filhos de José António da Silva, que fizera algumas aparições no cinema mudo e oriunda de uma família de alfaiates, ficara-lhe, das teatradas da infância em Belém, o sonho que acompanhou os dez anos em que foi emigrante em França. No regresso, em 1962, respondendo a um anúncio para “discípulas” da Companhia do empresário José Miguel, partiu em digressão para África, estreando-se em Luanda com a brasileira Berta Loran, as fadistas Anita Guerreiro e Helena Tavares, Carlos Coelho e Camilo de Oliveira – com quem, vinte anos mais tarde, fará aquele inesquecível par de bêbedos, estranhamente lúcidos sobre a realidade política de 1981: «- Ai Agostinho! / – Ai Agostinha! / – Que rico vinho!… / – Vai uma pinguinha? / – Este país perdeu o tino, a armar ao fino… / – Este país é um colosso: está tudo grosso… / Anda tudo a fazer pouco… da gente!»
Logo a seguir àquelas deixas num “número de cucas”, substituindo a atração brasileira de O gesto é tudo na tournée ao Porto, teve um batismo de fogo com o “Chachachá da vassoura”, a primeira colaboração com o grande comediógrafo César de Oliveira: mesmo lançada para o meio do palco em bata de mulher-a-dias, o sucesso foi imediato… Estava mais que “safa” (como lhe disse então alguém). Confirmações tê-las-ia várias nos anos a seguir, desde a contracena com Hermínia Silva em Ai venham vê-las (uma Revista só com mulheres, da parceria César de Oliveira, Paulo da Fonseca e Rogério Bracinha) a Mini-Saias (1966, no Teatro ABC), cujas interpretações lhe valeram os prémios para a “Melhor Atriz de Teatro Ligeiro” da Casa da Imprensa e o “Estêvão Amarante” do SNI.
Assumindo-se digna herdeira da grande tradição feminina da Revista à portuguesa, coube a Ivone Silva, por circunstância etária, afirmar-se sobre os palcos nessas décadas de 60 e 70, em que o país atravessava grandes mudanças. O seu forte sentido crítico e popular e as suas capacidades histriónicas – particularmente importantes num género teatral que vive tanto dos apartes que os atores improvisam sobre o original, as famosas “buchas” – permitiram-lhe ludibriar a Censura quando esta comprometia a integridade da mensagem e da comicidade, e entrar na Democracia idolatrada pelo povo, que com ela se identificava e que lhe enchia as casas, independentemente da qualidade da peça. Tornar-se-ia depois a intérprete mais idónea para aquela arrojada frase de Uma no cravo outra na ditadura (onde se estreou Herman José): «Esta elegância revolucionária arrebata-me… Ai eu acho uma graça à mãozinha fechada!»
Também por isso, quando a Revista entrou em lenta agonia e o entretenimento televisivo lhe foi ocupando o lugar, Ivone Silva foi reclamada pelo novo meio de comunicação. O seu magnetismo superou as limitações da bidimensionalidade, atravessou a alta frequência das ondas de teletransmissão e trouxe-a para os dias de hoje, como que miraculosamente inteira na sua graça, na sua força, na sua autenticidade. É com imenso gosto que a vemos ainda hoje a dar ao poliedro mágico de Rubik e, exasperada pela própria inépcia, concluir: «E o cubo é tal e qual este país… nunca mais acerta! Calma, Ivone! Calma!» – outro dos sketches humorísticos de César de Oliveira, transposto do teatro para o Saba-Da-Badu, transmitido pela RTP entre 1981 e 1982.
Uma das amarguras que levou consigo foi ter visto a sua inscrição no Conservatório recusada «porque fazia Revista», quando quis estudar, evoluir profissionalmente e se deparou com o preconceito, com o “alto” e o “baixo” – palavras sem sentido quando se trata de verdadeira cultura. Mais tarde, em 1980, haveria de substituir Eunice Muñoz na digressão do Teatro Experimental de Cascais ao Brasil e receber uma ovação de pé de 15 minutos pela sua interpretação em Oração de Fernando Arrabal, no Teatro Glauce Rocha do Rio.
Vedeta e antivedeta. Uma “açorda de coentros”, como dela disse o poeta Ary dos Santos – generosa, nutritiva, perfumada. Um carisma que se apoderava da cena. Perfecionista e exigente, às vezes mal-humorada. Com «o Diabo no corpo, mas Deus no coração», segundo Henrique Santana. Ivone Silva teve a grande condecoração do pública que ainda não a esqueceu, mas vai sendo tempo que os poderes instituídos a recordem também, como uma voz alta da nossa democracia.
Comentários recentes