Francisco de Almeida Dias

Portugal é mátria

Interpretar, sim, mas para dizer – porque dizer era o verbo que verdadeiramente fazia seu. Repelia a afetação do recitar e os efeitos redundantes da declamação; o que Maria Germana Tânger (1920-2018) queria era estabelecer uma verdadeira intimidade com o poema, tentar tocar, com a sua, a sensibilidade do poeta e entregar depois ao público, com a total simplicidade das coisas verdadeiras, o resultado desse encontro de almas. Por isso sabia todos os poemas de cor, par cœur, entre corações, chegando também aos nossos corações, assim magnetizando as plateias, que lhe intuíam a sinceridade na voz, no respiratório decantar das palavras.

Germana Tânger

A dificuldade na definição de tal mester afligia já em 1962 o Sindicato Nacional dos Artistas Teatrais, que autorizava Germana Tânger a mudar a classificação da sua carteira profissional de “artista de variedades” para “artista de género dramático”, na falta de designação mais apropriada. Não espanta, por isso, ver constantemente repetidas nas notas biográficas os títulos de “declamadora”, “recitadora” (que abominava) ou “atriz”. Este último, sendo embora o mais afastado do seu ser-estar nos palcos, era talvez o que mais lhe agradaria, ou não tivesse Maria Germana sido, desde sempre, uma apaixonada pelo teatro – vocação renegada geração após geração na sua família…

Já sua mãe incorrera na ira do avô, “militarão à moda antiga” (como disse em certa entrevista), quando, numa festa em casa do filólogo Cândido de Figueiredo, recebera uma caixa de bombons por ter recitado eximiamente “A judia” do poeta Tomás Ribeiro. «- Se quiser ser cómica, vá dizer poesia para as paredes do seu quarto» foi a frase que pôs termo às fantasias da menina. O motivo de tamanha aversão ao teatro soube-o Germana Tânger muito mais tarde: é que a grande atriz Virgínia (1850 -1922) fora filha natural do seu bisavô e esse fantasma, junto ao da “perdição”, que sempre sombreava a vida das atrizes, vedava-lhes a pretensão ao tablado. Quando, terminado o Liceu Maria Amália, foi Maria Germana a dizer à mãe que queria ir para o Conservatório, não lhe ouviu uma resposta negativa, mas viu-a chorar dois dias a fio. Entrou então para Letras.

Curiosamente, será durante a sua breve frequência da Universidade que conhece Manuel Tânger Correia, então diretor do Grupo de Teatro Moderno da Faculdade de Letras de Lisboa. Com ele irá subir a palco a partir de 1947 em peças de Miguel Torga, Raul Brandão e Gil Vicente, entre outros) e com ele irá casar a 31 de julho de 1948. A mãe morrera entretanto, de 27 para 28 de abril de 1945 – madrugada que Maria Germana passara, a seu pedido, à cabeceira da cama, a ler todos os sonetos de Antero de Quental.

Em 1954 estava a viver em Paris com o marido, Leitor de Português no Institut Catholique de Paris, quando ouviu na rádio um poema estranhamente familiar… era a “Tabacaria” de Álvaro de Campos, traduzida por Armand Guibert. Decide então seguir as aulas da Arte de Dizer da Association Polytechnique pour le dévelopement de l’Instruction Populaire e, em 1954, irá frequentar o Atelier Théâtre Jean Vilar, onde irá aprender dicção com o grande ator George Le Roy. Qualificava-se assim para, no regresso a Lisboa, se candidatar ao lugar de professora no Conservatório Nacional, atividade que inicia a 25 de outubro de 1962, formando sucessivas gerações de atores ao longo de 25 anos. Ensinou as técnicas da respiração, da articulação e da colocação da voz para ensinar os jovens atores a esquecê-las de seguida, para que nascesse arte.

A paixão pelo teatro sublimava-se na poesia, através da pedagogia e da divulgação de um amplo repertório, partindo das galaico-portuguesas Cantigas d’El-Rei Dom Diniz, até à Contemporaneidade, que amava especialmente. Começara justamente com “O Menino da sua Mãe”, dito em 1948 na Casa da Comarca de Arganil – tempos insuspeitos, em que Pessoa pertencia apenas a um estreitíssimo círculo de intelectuais e aos estudos de Gaspar Simões – e em que Júlio Dantas a menciona num artigo do Primeiro de Janeiro. No estrageiro, depois do recital na Sorbonne, em Paris, seguiram-se as digressões a Angola e Moçambique, convidada pelo Maestro Freitas Branco e acompanhada ao piano por Adriano Jordão, e ao Brasil, onde o marido fora colocado como Adido cultural de Portugal em 1966. Entrementes, os programas radiofónicos e televisivos para que é convidada ou que concebe, tal como “Roteiro Poético”, dão-na a conhecer a um público amplo.

Parte importante desse percurso fê-lo em estreita colaboração com Almada Negreiros, desde que o marido, certa noite, lhe comunicou que seriam visitas da casa da Rua de São Filipe Néri. Muito intimidada com a situação, assim que entrou, sentou-se numa cadeirinha baixa junto de Sarah Affonso, que bordava afanosamente, mas foi despertada pela voz do Mestre, que lhe pedia para dizer uma poesia… E foi com “O Corvo” de Edgar Allan Poe que Almada ficou definitivamente conquistado, para não mais abdicar da presença de Germana Tânger em qualquer espetáculo que organizasse onde houvessem poemas.

E dentre todos, o mais importante – e aquele que constituiu, até ao fim, a verdadeira “coroa de glória” de Maria Germana – foi a homenagem que se prestou no Teatro da Trindade a Fernando Pessoa, na tarde de 29 novembro de 1959, a véspera do 24º aniversário da morte do poeta. Foi nesse espetáculo que a artista disse, sem o auxílio de uma cábula, os quase mil versos da “Ode Marítima” de Álvaro de Campos, o heterónimo pessoano com o qual mais se identificava. Será, de resto, a essa data, a esse palco e a essa Ode que, exatamente 40 anos mais tarde, Germana Tânger irá regressar, para fazer a sua despedida artística.

Quando, em 2004, publicou o audiolivro Poemas de Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, ditos por Germana Tânger (Assírio&Alvim) – a segunda e última gravação editada, depois de o ter feito em 1970, com a pianista e grande amiga Cristina Lino Pimentel, dizendo Florbela Espanca a convite da Valentim de Carvalho – o historiador José-Augusto França dedicou-lhe estas palavras no texto de apresentação:

 

Uns poetas falam, outros não, só escrevem e para eles, por silêncio necessário. Os que falam cantam também, às vezes, como os mais antigos faziam. A voz que têm ou tenham é a própria — mas nem sempre apropriada, porque a palavra escrita soa-lhes diferente, e eles têm dificuldade, ou impossibilidade, de a igualarem depois, em sonoro. (…) A Maria Germana (…) agora, em disco — tão presente, em pessoa e enleio que nos prende de verso em verso adivinhando e escondendo o seguinte que depois é sempre revelação, como deve ser — e para o poeta foi.

 

NOTA: Uma “Cronologia Biográfica” muito completa, da autoria de Mafalda Ferro, pode ser consultada através do site da Fundação António Quadros, atual detentora do acervo bibliográfico, artístico e documental de Germana Tânger: http://www.fundacaoantonioquadros.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=312&Itemid=430

16/06/2022


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