Francisco de Almeida Dias*
“Simone de Oliveira, sim, sou eu”

“Simone de Oliveira, sim, sou eu”. Não poderia ser mais orgulhosa a expressão que deu nome ao espetáculo de despedida da famosa cantora portuguesa, ao fim de 65 anos de carreira, que teve lugar no passado dia 29 de março no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Uma carreira iniciada um pouco casualmente e sem a noção de que se viria colar definitivamente à sua vida, como reiterou em várias ocasiões, até que Sol de Inverno a levou à primeira vitória no Festival da Canção em 1965. Depois de alguns anos a cantar Nóbrega e Sousa e Jerónimo Bragança, como diz em entrevista à agência Lusa, dá-se o encontro com Ary dos Santos e Nazareth Fernandes, altura em que «as coisas foram tomando uma certa importância em relação às palavras».
E será, justamente, «Quem faz um filho fá-lo por gosto» a frase-manifesto que melhor e mais definitivamente a virá a definir, brandida como uma espada no Festival de 1969. O que o júri talvez não soubesse e o que o público em geral não sabia (e que só muito mais tarde Simone declarou publicamente) é que, nessa noite, na plateia do Teatro de São Luís, estava o seu companheiro de então, ao lado de uma outra mulher. Não havia margem para erros; era pôr quanta força tinha naquelas palavras de Ary dos Santos e vencer, ser a melhor, mesmo pouco confiante nos seus 84 quilos, no vestido feio e no penteado soviético, mesmo ouvindo os comentários maliciosos no backstage de quem se apercebera da situação.
Venceu. E a música tornou-se e tornou-a num dos ícones absolutos do século XX português, com Salazar a agonizar depois da “cadeira” e a Ditadura com ele. «Quem faz um filho fá-lo por gosto» preanunciava uma época nova, em que as mulheres haveriam de reivindicar para si os direitos durante tanto tempo negados, em que o sexo começaria lentamente a deixar de ser tabu e, sobretudo, em que uma revolução política sonhava com uma renovação social. Como nunca se cansa de repetir, em 1969 a audácia causou escândalo e causou-lhe situações pouco simpáticas, desde insultos na rua à intervenção das forças públicas. Mas a novidade foi também portadora de uma frescura, que se mantém ainda hoje, miraculosamente, intacta.
Regressando a 2022… Com uma pequena orquestra dirigida por Nuno Feist, em pouco mais de uma hora e perante um Coliseu lotado, Simone repercorreu a sua carreira e a sua vida, na intimidade que sempre estabeleceu com o público, encenda por uma mesa e um candeeiro junto aos quais se sentou no palco. E talvez porque um instinto de sobrevivência a levou a reinventar-se depois de cada revés – e alguns com um dramatismo quase definitivo, como a perda da voz que se seguiu ao grande sucesso da Desfolhada e o cancro que combateu duas vezes – fez seus os versos de Fernando Pessoa: «Não sei quantas almas tenho. / Cada momento mudei. / Continuamente me estranho. / Nunca me vi nem achei. (…)».
O espetáculo não se limitou, porém, a ser uma nostálgica revisitação dos sucessos, abrindo-se também ao futuro. Foi nesse sentido a “entrega” que a cantora fez do seu Sol de Inverno a Edmundo Inácio, finalista da última edição do The Voice Portugal: «Há uma coisa que me deixa muito feliz: malta nova a cantar muito bem (…) Será que daqui a alguns anos alguém cantará a Desfolhada? Eu gosto de acreditar que sim». Aos 84 anos, depois de mais de 400 canções, Simone rejeita a tirania do passado e continua a desejar para a sua vida a liberdade, de que sempre fez uma bandeira: quer jantar com os amigos e desfrutar dos netos, como diz a Rui Miguel Abreu (Expresso, 29.03.2022) – «Já chega de luzes e de vestidos compridos.»
Entre o antes e o depois desta notável carreira, permito-me destacar um dos momentos que mais me toca, e que se reporta à noite de 26 de fevereiro de 1973, data em que a fotografia que ilustra este artigo foi tirada nos camarins do Teatro Maria Matos, em Lisboa. A décima edição Festival RTP da Canção – apresentado pelos saudosos Alice Cruz e Artur Agostinho e vencido por Fernando Touro com a sua sarcástica Tourada (música dele mesmo, para os versos de Ary dos Santos) – marcou o regresso de Simone aos palcos, depois das suas cordas vocais a terem forçado a uma paragem de três anos. Apenas o meu Povo é o tema assinado pela mesma dupla vencedora do certame e haveria de valer então à cantora o Prémio de Interpretação.
Uma música escrita para os seus 33 anos sofridos e apaixonados, para aquele momento de renascimento que então vivia, e para uma nova grande mágoa que se imprimira no seu coração – a morte inesperada da sua mãe, facto que recorda como um dos maiores choques que teve, e que a impediu de partilhar a esse retorno às canções. Simone contou algures que, interrompendo o ensaio-geral, da plateia do Maria Matos, José Fialho Gouveia, esse importante homem da rádio e da televisão, levantou o tom para lhe perguntar o que aconteceria se nessa noite voltasse a perder a voz: «– Zé Fialho, eu NUNCA MAIS vou perder a voz.» E assim foi, até hoje.
Com uma timbre mais baixa, colorido e redondo, colocado num lugar mais dramático e profundo, em perfeita sintonia com o tema da canção, Simone lança, uma a uma, as palavras de Ary (e suas) como pedras num charco: morte, perdição, terror, desespero «saudade em vez de amor», «tristeza em vez de esperança», para terminar com um rugido de fera ferida, mas mais viva que nunca, indomável, vitoriosa:
Apenas quem me viu calada e triste
E despertou em mim um mundo novo
Apenas a esperança que resiste
Apenas o meu sangue, apenas o meu povo
Depois da conversa com Rita Olivaes, que deu origem à interessante fotobiografia Eu, Simone, me confesso (Bertrand, 1997), o sucesso editorial de Simone – Força de Viver, de Patrícia Reis (Matéria-Prima Edições, 2013) comprova a admiração que a vida pessoal da cantora também suscita no seu público, elevando-a a modelo inspirador de força e de coragem ao enfrentar grandes desafios: «Alguém que ouve sempre o coração, não aceita amarras e nunca baixa os braços. E quando nós pensamos que as mágoas e a saudade podem levar a melhor, Simone celebra a vida, num gesto de entusiasmo extraordinário, e prova que tem o dobro do sangue dos outros» pode ler-se na sinopse.
A mais recente homenagem que Simone recebeu – e esta especialmente afetiva – foi a de figurar num grande mural que cobre a empena de um prédio em Alvalade, pintado pelo neto, o arquiteto e grafitter André Mano. Este representa-a com um profundo olhar melancólico, fumando um dos seus eternos cigarros, e a cara vincada pelas rugas de que sempre se disse orgulhosa; Simone sobressai de um caos de estruturas arquitetónicas em que se leem palavras alusivas à sua personalidade (Guerreira, Íntegra, Amante) à sua carreira (Desfolhada, Sol de Inverno), e à sua vida pessoal (1 Cigarrinho, Varela Silva, Mãe, Avó).
«Só espero que continuem a reinventar-me. É assim que eu renasço» – foi uma das frases com que Simone se despediu do seu público no Coliseu. Ícone absoluto da cultura portuguesa, abre-se assim aos mitos com que a história se vai atualizando, ao correr dos tempos e das absurdas pretensões de cientificizar a memória… Eis uma das várias versões dela mesma, por quem bem a conhece, a iniciar uma anunciada “Galeria dos Inesquecíveis”, promovida pela Junta de Freguesia do bairro lisboeta.
12/05/2022

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