Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria

Close-up sobre as mãos do pianista, que inicia a dedilhar o teclado de um fotogénico Steinway branco (por gentil concessão da Casa Valentim de Carvalho, observam os créditos iniciais – onde curiosamente não figuram os nomes dos componentes do quarteto de piano, violino, baixo e saxofone). Plano-geral da sala de um dancing, idealizado em estúdio, pelo bom gosto modernista de Paulo-Guilherme d’Eça Leal; o conjunto começa a tocar, seguindo o pianista. Novo close-up, depois de brevíssima introdução musical; uma voz feminina, dulcíssima e bem timbrada, elegantemente contida num tom confessional, começa a cantar as palavras dessa canção de amor – e a câmara vai subindo…
Primeiro, uns pezinhos colocados corretamente “às cinco para a uma” com elegantes sandálias muito abertas (estávamos entre outubro e novembro de 1956, mas a jovem cantora não sentia frio, sobre o seu pequeno estrado); depois a ampla saia florida, évasée, terminando na “cinturinha de vespa”; o decote em V a rematar a parte de cima do vestido de meia-manga, com os ombros rigorosamente cobertos; enfim o colo cândido e a cabecinha coroada por uns cabelos ondeados e cortados à la garçonne come então se usava.
Bela e perfumada de inocência, Júlia Barroso tinha então 26 anos acabados de fazer e uma frescura de adolescente. No entanto, quando o realizador Henrique Campos a escolheu para comentar musicalmente uma cena de Perdeu-se um Marido (filme baseado na comédia de Manuel Frederico Pressler, protagonizada por Laura Alves e António Silva, que haveria de estrear a 19 de fevereiro de 1957 no Cineteatro Monumental de Lisboa) a cantora algarvia estava no auge da sua fama.
No ano seguinte o tema aqui interpretado, “Lua de Mel” – da autoria de Luís de Lemos (erradamente reportado, em algumas fontes, como sendo de Silva Tavares) e música de Jaime Mendes – acompanhada pelo Conjunto de Heinz Worner, havia de ser editado pela Alvorada (etiqueta da Rádio Triunfo), no single cuja capa aqui se reproduz, intitulado “Júlia Barroso”, tout simplement.
Em 1958, coincidindo com os dez anos de carreira, o seu nome era quanto bastava para garantir um sucesso comercial; curiosamente esse viria a ser também o ano em que acrescenta um apelido aos seus e decide sair de cena, ao casar com médico João Xara-Brasil (na Igreja de São Sebastião da Pedreira, a 19 de abril de 1958), de quem veio a ter seis filhos, dedicando-se-lhes a partir de então, conjuntamente com a docência para a que a preparara a Escola Industrial frequentada na Lagos natal (Educação Doméstica na Escola Secundária do Cacém e Trabalhos Manuais na Escola Preparatória Manuel da Maia).
Mais de sessenta anos volvidos sobre esta data, talvez só agora comece a ser de novo compreensível, para as gerações de filhas e netas dessas mulheres emancipadas, que participaram entusiasticamente nas revoluções dos costumes dos anos 60 e na Revolução de abril de 1974, uma opção como a de Júlia Barroso. À nossa modesta escala, ela era uma vedeta nacional, que no ponto mais alto da sua vida artística teve a lucidez de perceber que esta lhe dera já o que de melhor poderia dar e que era tempo de abdicar dos refletores, para se cumprir como mulher e mãe de família.
Recorde-se brevemente essa ascensão fulgurante: feita a sua formação musical no Centro de Preparação de Artistas da Rádio, de Motta Pereira, iniciou a sua carreira na Emissora Nacional em 1948. Seguindo um percurso habitual na época, fez espetáculos em digressão pelo país e foi rapidamente convidada para o teatro – onde, na revista Ela aí Está (que Eugénio Salvador concebera para celebrar o regresso de Beatriz Costa do Brasil em 1949), havia de criar a canção mais emblemática da sua carreira, aquela que ainda hoje mais ou menos todos sabemos trautear: “Adeus”, de José Galhardo e de Raúl Ferrão. E logo em 1951 será a primeira a receber em Portugal o título de “Rainha da Rádio”, atribuído pela popular revista Flama, partindo em representação do país pela Europa – atua na televisão francesa e é entrevistada pela BBC de Londres – e recebendo em Lisboa a cantora Dalva de Oliveira, que no Brasil obtivera o mesmo título de Júlia Barroso.
A minha reflexão parte justamente do “Rouxinol do Brasil” e segue depois os caminhos do velho Continente que a nossa cantora percorreu, convidada para atividades do Plano Marshall – impedida que se viu de maiores “voos” apenas pelo seu proverbial medo do avião (tendo de barco chegado a Açores, Madeira e Angola). Penso em Júlia Barroso comparando-a com as grandes estrelas da canção desse momento de reconstrução do mundo pós-bélico: a vida em technicolor do outro lado do atlântico, onde uma Rosemary Clooney brilhava em White Christmas com música de Irving Berlin, ou numa mais sóbria versão francesa em escala de cinza, Irène Fabrice entoando “Etre seuls tous les deux” com a orquestra de Franck Pourcel…
Alguma vez teriam sido essas cantoras românticas, próximas por geração, capacidades e repertório, apupadas nos seus próprios países de “nacional-cançonetistas”? Será que a coincidência histórica e geográfica com a Ditadura de artistas apressadamente postas sob essa ampla e negativa etiqueta não é o enésimo exemplo do desamor e do desinteresse que continuamos a votar ao que é nosso? É certo que Júlia Barroso cantou na rádio do Estado e que representou o país no estrangeiro – tão certo como ter sido muito mais do que isso: ter sido essa linda figura de sorriso delicioso e timbre doce e firme, que recordaremos sempre na frescura de adolescente com que deixou o palco e de que ficaram alguns registos audiovisuais.
Termina este in memoriam de Maria Júlia Conde Barroso Xara-Brasil (Lagos, 1930 – Lisboa, 1996) com os célebres versos e a vívida recordação da sua harmoniosíssima voz: «Adeus, não afastes os teus olhos dos meus / Até quando ao longe a bruma a pairar / Me consuma entre as ondas do mar / E os céus…»
31/03/2022

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