Francisco de Almeida Dias*

Maria de Almeida e Vasconcelos Moniz (Maria Reriz)

Na secção “Bibliografia” da revista Beira Alta, publicada no 1º trimestre de 1946, seguindo imediatamente a recensão crítica ao famoso Aldeia – Terra, Gente e Bichos, primeiro volume da tetralogia dedicada às “Terras do Demo” de Aquilino Ribeiro, surge pela pena do seu primeiro diretor, Alexandre de Lucena e Vale, a crítica à segunda obra publicada por Maria Reriz. Em pouco mais de uma coluna de texto, o entusiasta investigador da história beirã, com ampla obra publicada, debita, num tom respeitoso, uma análise bastante superficial da obra, que acabava de ser publicada em Lisboa, pela prestigiosa casa editora Portugália – fundada havia quatro anos pelos livreiros Pedro de Andrade e Raul Luís Dias, com o apoio financeiro do industrial e mecenas Agostinho Fernandes, tornada famosa pela edição de antologias literárias, ficção contemporânea e ensaio. Começava assim:

A distinta Senhora, nossa patrícia, que no ano passado se estreou para as lides literárias com o romance Dois Caminhos, publicou agora um segundo, Três Mulheres. Como no primeiro, o entrecho sem grandes complicações dramáticas nem percussão de sentimentos, desenrola-se entre gente de sociedade, num ambiente de certo mundanismo, que permite à Autora, num gesto bem feminino, sublinhar amiúde a elegância de certas toilettes ou o bom gosto de certos interiores confortáveis e distintos.

De mais, esta nota de frívola e graciosa feminilidade domina todo o romance, desde o desatavio da narrativa, desenrolada através dumas dezenas de cartas, simples, descerimoniosas, quase familiares, até a mesma naturalidade das situações romanceadas, casos vulgares da vida real que só a imaginação da Autora dramatiza, revestindo-os dum interesse e emoção que na verdade não têm. E é precisamente este apecto de Maria Reriz o escrever umas centenas de páginas sobre um nada da vida, elaborar com leve jeito o caso comum de um devaneio sentimental ou a trivialidade mais vulgar de um desentendimento doméstico, a nota da sua imaginação criadora.

Muito ficara por dizer acerca deste “romance” de cerca trezentas páginas, original desde a forma escolhida pela Autora para o desenvolver, que chega a pôr em causa a categorização literária mesma. Após um breve capítulo inicial, que enquadra as três jovens protagonistas, durante um intervalo do seu último dia de colégio interno – prestes, portanto, a iniciarem a sua vida adulta – toda a obra é constituída por uma epistolografia unilateral, sem respostas, da parte destas para Emília Vieira, «mulher miudinha» de 40 anos, que ali estudara e ficara ensinando lavores, havia vinte anos; «espírito suave e compreensivo» era amada e procurada pelas alunas como confidente e conselheira. Na hora da partida, a mestra formulara um voto: «Seja em que terra estiverem, escrevam-me. Contem-me as suas tristezas e alegrias. Encontrarão sempre em mim uma amiga segura, que tentará guiá-las pelas suas advertências.»

Esta é, pois, a voz que intuímos, mas que não voltamos a ouvir até ao fim da obra, quando, numa mensagem lacónica, adverte da sua chegada iminente ao Porto, onde se encontra a principal das suas jovens interlocutoras. O fragmentarismo próprio do género epistolar é sublinhado pelas respostas que faltam às 48 missivas, que se espraiam temporalmente desde o verão de 1930, apenas terminada a formação colegial das três moças, até à primavera de 1943. Durante esses quase 13 anos as três jovens entram plenamente na idade adulta, em diversas condições familiares, sociais e profissionais, por contraste com a estabilidade e a constância que se adivinha na presença muda de Emília, natural ponto de referência, a quem regressam em espírito para dar conta das circunstâncias factuais e pedir o amparo de um conselho, que consideram sábio. Encontram-se certamente na obra de Maria Reriz os tais «fins moralizadores», que Lucena e Vale sublinha na sua crítica; mas o que lhe subjaz, e que considero mais interessante, é o facto de se tratar, em versão revista e atualizada para uma certa realidade portuguesa feminina da época em que foi escrito, de um verdadeiro Bildungsroman, que acompanha a desenvolução psicológica e moral, social e estética, destas três jovens mulheres, acabadas de sair da adolescência.

O facto de ser, como se dizia, o fiel retrato de uma época, através de uma característica perspetiva social – aquela que era congenial à Autora, naturalmente – pode transmitir ao leitor hodierno desta escrita uma primeira sensação de se deparar com uma temática datada, talvez ultrapassada. Há, contudo, uma qualidade intemporal na sua prosa, que ultrapassa a vocação criadora literária e se volta a ligar especificamente à biografia de Maria Reriz: filha de uma rica nobreza de província e certamente recetáculo, ela mesma, de uma esmerada educação literária, a sintaxe das frases é imaculada e vigorosa, e é perpassada por uma cultura, essencialmente livresca e musical, de que dá prova elegante, sem exibicionismos, em várias citações que vai fazendo.

A isto se junta uma coerente construção dos caracteres das três protagonistas, enunciado logo de início, em aparente trivial associação a três diversos tipos físicos – a morena volitiva, a loira etérea e a ruiva sensual – que logo nos surpreende ao ver emergir, como mais forte entre as personalidades, a da loira Maria Amélia, que desejava apenas a vida familiar e se acha protagonista da vida das três mulheres. Maria Natália, cujo desejo de se formar e de independentizar através da carreira jurídica, verá frustradas as suas expetativas pela disfuncionalidade familiar e pelo atraso da mentalidade social. Enfim Margarida, a femme fatale, cujo impudico hedonismo vai causando estragos em redor, aos quais, após um breve período de contrição, volta a demonstrar-se indemne, ainda que consciente.

Maria de Almeida e Vasconcelos Moniz nasceu em São Pedro do Sul a 29 de março de 1898, primogénita do segundo Marquês de Reriz, Cristóvão de Almeida de Azevedo e Vasconcelos, e de sua mulher, Ana Cardoso Moniz, filha da Baronesa de Palme. Casada com João de Figueiredo Cabral Mascarenhas, é avó paterna do atual titular de Reriz, marquesado a que sucedeu ela mesma por morte do irmão, Diogo, em novembro de 1962. Veio a falecer em Lisboa, a 29 de março de 1981, aos 83 anos de idade.

Da sua curta carreira como escritora, iniciada em idade matura, contam-se os três romances publicados pela editora lisbonense Portugália a dois anos de distância entre si – Dois caminhos, em 1944, Três mulheres, em 1946 e Archotes entre a bruma, em 1948 – hoje apenas disponíveis no mercado antiquário livreiro. Conquanto limitada no tempo e na produção, seria interessante, seja sob o ponto de vista das literaturas femininas do século XX português, seja a nível regional, como achega para a tão destratada memória histórica de São Pedro do Sul, um estudo mais aprofundado e completo sobre Maria Reriz, expoente da nobreza local e, episodicamente, autora publicada por uma grande chancela da capital, esquecida testemunha de algumas das grandes mudanças sociais da nossa contemporaneidade.

*Francisco de Almeida Dias, Ph.D. é professor de Literatura e Língua Portuguesa na Università degli Studi della Tuscia (Viterbo)

10/02/2022


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *