Francisco de Almeida Dias

Rubrica Portugal é mátria

Como tem sido devida e justamente assinalado, estão a cumprir-se os 50 anos sobre a conceção daquela que é uma das mais revolucionárias obras da literatura portuguesa: as Novas Cartas Portuguesas. Permaneceriam para sempre as suas autoras na memória popular como “as três Marias” – termo tanto provocador, quanto é clara a evocação bíblica das seguidoras de Jesus durante do Tríduo pascal. Eram aqueloutras Maria Isabel Barreno (1939-2016), Maria Velho da Costa (1938-2020) e Maria Teresa Horta, a Mátria desta quinzena.

Havia uma quarta Maria (aliás, Mariana) por detrás desse título nada inocente, e era ela, naturalmente, Soror Alcoforado do Convento de Nossa Senhora da Conceição em Beja (1640-1723), a suposta emissora das cinco Lettres Portugaises, dirigidas a Chamilly, oficial francês que se demorava por terras lusitanas em tempos de Restauração da Independência e que, aliás, não correspondeu minimamente à alta conta em que a freira o tinha…

As primeiras Cartas, publicadas em forma de romance epistolar pelo editor francês Claude Barbin, corria o ano de 1669, tiveram, como é sabido, ampla fortuna. E assim também sucedeu às segundas Cartas, que haviam de causar o escândalo almejado pelas jovens portuguesas, instaurando um caso editorial que comportou sequestro da primeira edição e processo judiciário, terminado poucos dias depois da Revolução de Abril, com aplauso do magistrado depois da plena absolvição.

A obra é hoje duplamente histórica pela novidade literária e sociológica que constituiu. Datados entre 1 de março e 25 de outubro de 1971, os fragmentos (não assinados separadamente) que constituem a obra – epístolas, ensaios, poemas escritos em português antigo e moderno, com insertos noutras línguas – constituem uma obra híbrida, descontínua, que não se deixa categorizar. Por outro lado, a abordagem do erotismo como forma liberatória da mulher – aquilo que o velho Regime considerava “imoral” e “pornográfico” no Relatório da Censura nº 9462 de 26 de maio de 1972 – começava imediatamente a tornar-se na pedra-de-toque do feminismo no Portugal contemporâneo. A comprová-lo, se mais fosse necessário, o interesse que a obra despertou então e continua a despertar, aqui e no estrangeiro, como nos diz o projeto “Novas Cartas Portuguesas, 40 Anos Depois”, coordenado por Ana Luísa Amaral que, a partir da Universidade do Porto, cria uma «uma rede transcultural e internacional em torno do livro Novas Cartas Portuguesas (…) dando conta da investigação desenvolvida em Portugal e em vários países ocidentais nos últimos quarenta anos em torno de Novas Cartas Portuguesas.» (cf. http://www.novascartasnovas.com/index.html)

O que é menos comum referir-se a respeito da obra é que, na génese imediata, está uma violência perpetrada contra Maria Teresa Horta e motivada – imagine-se! – por um seu livro de poesia. Nos 59 poemas que formam Minha Senhora de Mim (Lisboa, Coleção “Cadernos de Poesia”, Dom Quixote, 1971) a autora reapropria-se da tradição lírica trovadoresca, subvertendo a sua matriz patriarcal; ao contrário do que acontece nas Cantigas, aqui são a mulher e o seu desejo sexual a estar no centro da narrativa, afastada, portanto, a ideia de submissão implícita na tal espera sofredora por um Amigo ausente. Dando à mulher a iniciativa e despojando o sexo da necessidade de procriação, o livro foi naturalmente proscrito e apreendido pela PIDE. Mas não só, como refere a escritora numa recente entrevista à Agência Lusa (publicada em https://www.rtp.pt/noticias/cultura/maria-teresa-horta-recorda-nascimento-das-novas-cartas-portuguesas-50-anos-depois_n1318780):

«Escrevi Minha Senhora de Mim, que causou o maior dos burburinhos, como se tivesse qualquer coisa escandalosa. Os fascistas resolveram impor moralidade no país, apareceram e fizeram coisas inconcebíveis, como mandarem dar-me uma tareia na rua. (…) Foram mais adiante, saíram dois, ficou um ao volante, deitaram-me ao chão e começaram a bater-me e a dizer “Isto é para aprenderes a não escreveres como escreves”, que é uma coisa assaz difícil. Bateram-me com a cabeça no chão, na calçada, diziam palavrões, e a única frase completa foi esta, que nunca mais esqueci na minha vida.»

Salvou-a um vizinho que cruzava a rua e pensou que a estavam a assaltar. E foi a seguir a ter passado a noite no Hospital de Santa Maria, almoçando com as duas amigas no Treze do Bairro Alto, que Maria Velho da Costa, ao ouvir o sucedido, exclama: «Uma mulher apanha uma tareia porque escreve um livro? O que é que eles fariam se fossemos três a escrever um livro?». Justo é recordar que, ao cabo dos 9 meses de elaboração da obra, foi a poeta Natália Correia quem teve a coragem de impor a publicação das Novas Cartas Portuguesas aos Estudios Cor – sendo que ela mesmo havia enfrentado pouco antes um processo semelhante, a respeito da sua Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica: dos Cancioneiros Medievais à Actualidade (ed. Afrodite, 1965).

Caso de invulgar força e paixão sempre renovadas, ao cabo de sessenta anos de vida literária (que tem incluído ficção, teatro, poesia e jornalismo), Maria Teresa Horta continua a falar da Mulher, através de um discurso plúrimo de indagação poética, narrativa, memorial. Desde  que publicou em Faro, em 1960, o seu Espelho Inicial, a primeira coletânea de poesia, surgiram outras quatro dezenas de títulos.

Entre os mais recentes conta-se Estranhezas (Dom Quixote, 2018) que lhe mereceu, este ano, o Prémio Literário Casino da Póvoa 2021, âmbito do encontro literário Correntes d’Escritas, anunciado a 26 de fevereiro último. Fortemente autobiográfico, o volume, dividido em sete partes que revisitam a inteira obra da autora (“No Espelho”, “Da Paixão”, “Da Beleza”, “Alteridades”, “Tumulto”, “Ferocidades” e “Diante do Abismo”) foi considerado pelo júri deste prémio uma «síntese de um percurso poético ancorado na celebração do corpo e do desejo que estabelece um diálogo transgressor com a lírica medieval e renascentista» e ainda «uma exaltação da paixão, da beleza, do real concreto e efémero eternizado pela deslocação da esfera do tempo para o espaço da escrita».

Enquanto se espera para breve a sua próxima compilação de poesias, que terá como título Paixões e será dedicada à memória do marido, o jornalista Luís de Barros (1941-2019), aqui ficam as combativas “Questões de Princípio”, do livro recentemente galardoado:

Não me exijam

que diga

o que não digo

 

não queiram

que escreva

o meu avesso

 

não ordenem

que eu aceite

o que recuso

 

não esperem

que me cale

e obedeça

 

PS: Este texto foi-me inspirado pela Profª Doutora Anabela Galhardo Couto, que interpretou as Novas Cartas Portuguesas à luz do binómio “Liberdade e Transgressão”, numa recente conferência na Universidade de Viterbo, a que tive o gosto de assistir.

16/12/2021


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *