Francisco de Almeida Dias*

Rubrica Portugal é mátria

Maria Judite de Carvalho

Acaba de assinalar-se, no dia 18 de setembro, o centenário do nascimento de Maria Judite de Carvalho, no âmbito do qual foi promovido o colóquio “Além do Quadro” pelo Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Nesta ocasião, com Rute Navas, estudiosa da produção juditiana, e Margarida Braga Neves, professora de Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea, dialogou Inês Fraga, neta da escritora e uma das responsáveis pela reedição integral da sua obra, iniciada em 2018, quando passavam vinte anos sobre a sua morte.

Trata-se até agora de cinco volumes, que abraçam a inteira produção literária (do conto à crónica, passando pela poesia e pelo teatro) e que têm ainda a particularidade de serem ilustrados com pinturas e desenhos de Maria Judite de Carvalho – um trabalho editorial de grande qualidade, levado a cabo pela editora Minotauro. A obra, até aqui dispersa, pouco conhecida do grande público e por isso mesmo apenas parcialmente reconhecida, pode enfim ser lida com a angulação necessária e avaliada na sua inteireza, sugerindo a propósito a necessidade de mais aprofundados estudos académicos sobre ela.

Considero estas duas ações a mais justa e feliz homenagem centenária que se poderia fazer a Maria Judite de Carvalho. E, começando pelo início, releio eu também, em jeito de homenagem silenciosa e pessoal, esse extraordinário Tanta Gente, Mariana, título do conto com que a Autora se estreia na publicação, aos trinta e oito anos: de um lado tanta, toda a gente e, do outro, a solidão de uma voz feminina que constitui, como bem haveria de notar Urbano Tavares Rodrigues, declarando o seu amor e admiração por essa mulher com quem foi casado, «o paradigma do sofrimento e do início de uma revolta surda, que antecipa as palavras, já bem explicitas, das escritoras feministas que vão depois aparecer».

Há, certamente, nesta escrita, o sentido e pressentido pulsar de uma mudança que, apesar do estreito espartilho salazarista, as mulheres portuguesas começavam a ensaiar em vários âmbitos nesses anos pós-bélicos. Mas há mais, naturalmente.

Atravessamos as frases como em transe, conduzidos pelo fio da palavra e até, de certo modo, alheados do que a narradora sente e da compaixão que poderíamos sentir pelas emoções que ela descreve. Vamos arrastados em voo pelo discurso de Maria Judite de Carvalho e, todavia, não receamos; deixamo-nos ir nesse tropel, sem vigilância nem sobressaltos. Ela diz a verdade e isso nos garante. Acabada a leitura, é como se recordássemos o nosso mesmo passado: parece outra vida, mas sabemos que é a nossa. Espantosamente, o discurso ficcional da Autora cola-se às realidades biográficas, a sua e a nossa, e para isso contribui ainda, a meu ver, o facto desta narrativa superar em muito o sempre tão sublinhado “retrato do tempo”, que Maria Judite de Carvalho apresentaria nos seus livros. Trata-se, para além de toda a circunstância, de uma essência humana que vibra:

«Há tantas coisas em que nunca pensámos por falta de tempo! Na esperança, por exemplo. Quem vai perder cinco ou dez minutos a pensar na esperança, quando pode usá-los muito mais proveitosamente a ler um romance ou a falar ao telefone com uma amiga, a ir ao cinema ou a redigir ofícios no emprego? Pensar na esperança, que coisa imbecil! Até dá vontade de rir. Na esperança… Sempre há gente… E ela metida como areia nas pregas e nas bainhas da alma. Passam anos, passam vidas, aí vem o último dia e a última hora e o último minuto e ela então aparece a tornar inesperado aquilo por que esperávamos, a fazer o que já era amargo ainda mais amargo. A tornar mais difíceis as coisas.» (Tanta Gente, Mariana)

À sua infância e adolescência infelizes – marcadas pelo afastamento dos pais, na Bélgica, a vida austera em casa das tias paternas e os lutos que sucessivamente sobre ela se abateram até que o último membro vivo da família, o pai, foi dado como desaparecido, tendo Zita (como a chamavam) apenas 15 anos – não se cansam os biógrafos de ir buscar, com razão, a raiz da sua melancolia, do seu sentir-se sempre fora de contexto e da norma, sentimentos que transvazam para as suas personagens ficcionais. Talvez por isso essas personagens, maioritariamente femininas, se movam muitas vezes em espaços de interioridade física, mais impressivos na revelação de uma intimidade que se cola aos conceitos de silêncio, de segredo e, claro, de solidão. Todavia a casa não surge tanto o espaço de harmonia, mas, mais amiúde, como o território onde se evidencia e expressa a grande revolta daqueles que ninguém vê e ninguém ouve – daqueles que Inês Fraga define, em entrevista, como “os anti-heróis”.

Por essa mesma linha de leitura têm seguido estudos juditianos, como se reconhece, deitando de relance o olhar sobre uma lista, que vem aumentando nos últimos anos: As palavras poupadas: o silêncio em Maria Judite de Carvalho (Dulce Tavares Novo, Universidade de Aveiro, 2010); A melancolia nas crónicas de Maria Judite de Carvalho (Olívia Rocha Freitas, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2011); Pensar a solidão e a busca de felicidade em ‘Tanta gente Mariana’ (Teresa Guimarães da Silva, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2019); Maria Judite de Carvalho: uma escrita de ausência (Diana Saraiva de Carvalho, Universidade Nova de Lisboa, 2019) – para citar apenas quatro publicados na última década em âmbito lusófono, que citam explicitamente nos seus títulos silêncio, melancolia, solidão e ausência como conceitos-chave para a leitura desta obra.

Maria Judite de Carvalho dizia que bastava ler a sua obra para se conhecer a sua vida. De facto, esse estar à margem do tempo, com a solidão que daí advém, encontra confirmação na biografia: dos tempos da Faculdade, onde cursou Filologia Germânica e conheceu, em 1944, Urbano Tavares Rodrigues, com quem casou cinco anos mais tarde; à vida em França, seis anos entre Montpellier e em Paris, em cujas universidades o marido ensinava português; ao regresso a Portugal, onde a única filha, deixada aos cuidados dos avós paternos, tinha já cinco anos e o trabalho para a revista Eva (que lhe publicara já um conto e as “Crónicas de Paris”, desde 1953), a que se seguiu a colaboração, como redatora e cronista, com Diário de Lisboa e O Jornal.

Refere o Dicionário Cronológico de Autores Portugueses (vol. V, Lisboa, 1998), «quase podemos adivinhar as sucessivas etapas que transpôs e seus particulares estados de espírito, sobretudo a nível das atitudes afetivas que exterioriza perante a deterioração que deteta nas relações humanas e a que os recursos técnicos narrativos, de que se socorre, não podem ser alheios.» No entanto, defronte da entidade desta obra, não posso crer que Escritora seja aquela Mariana que é surpreendida, no fim da sua vida, pela amargura de uma esperança serôdia. Passados os anos, a esperança não terá tornado inesperado aquilo por que se tinha esperado; antes veio confirmar definitivamente Maria Judite de Carvalho como uma das mais claras e firmes vozes da literatura portuguesa.

*Francisco de Almeida Dias, Ph.D. é professor de Literatura e Língua Portuguesa na Università degli Studi della Tuscia (Viterbo)

30/09/2021


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