Francisco de Almeida Dias*
Rubrica Portugal é mátria
Luísa Arruda é uma das referências quando se fala de azulejaria barroca portuguesa. Mas Luísa Arruda é também a maior especialista nacional na obra gráfica de Vieira Lusitano. E Luísa Arruda é ainda uma reconhecida estudiosa sobre o desenho de Paula Rego, sobre o que apresentou as provas de agregação à Faculdade de Belas Artes de Lisboa, em 2019. Quem é, então, Luísa d’Orey Capucho Arruda – esta discreta eminência na História da Arte Portuguesa, com tantos estudos publicados e tantos anos de docência? É, antes de mais nada, uma mulher bonita e elegante, cheia de charme e com um aceso sentido de humor, o que torna agradabilíssima a sua convivência. E é, depois disso, uma personalidade académica e científica que, de todos esses assuntos sérios, fala simplesmente e cheia de humanidade.
A sua sensibilidade artística foi moldada de tenra idade, quando frequentava ainda a pré-primária no Lycée Français Charles Lepierre, onde contactou com um ensino muito aberto e que dava grande importância à expressão plástica. Mas a ligação a esses territórios veio-lhe também do facto de ser filha do connaisseur e colecionador de arte portuguesa que foi António Emídio da Silva Capucho.
Com espírito, o pai dizia que colecionava filhos (teve nove, do casamento com Teresa d’Orey) e as peças que começou a conhecer e a comprar, quando trabalhava ainda na empresa familiar, sedeada na Rua de S. Paulo, em Lisboa – uma zona de alfarrabistas e de antiquários. Foi na frequência desses ambientes e dos conhecimentos que aí travou com historiadores e intelectuais, que se iniciou na bibliofilia – tendo vindo a constituir uma biblioteca com milhares de volumes e variadas preciosidades bibliográficas. Pouco depois, haviam de chegar os objetos de arte, sobretudo de cerâmica em terracota, azulejaria e faiança.
Amizade que passou para o convívio familiar foi a do historiador da arte João Miguel dos Santos Simões, especialista em azulejo e responsável por essa secção no Museu Nacional de Arte Antiga, na origem do atual Museu do Azulejo. Talvez também por isso era um grande frequentador das Janelas Verdes, onde ia a exposições e a palestras, e onde levava muito as filhas Luísa e Teresa (a pintora Teresa d’Orey Capucho). A certa altura, filhos e obras de arte eram tantos, que a família teve de mudar da Rua do Salitre para São João de Estoril, uma casa de férias do avô paterno de Luísa, apta a receber até, na parte de baixo do edifício, um museu privado.
Era por esse museu que Luísa e os irmãos passavam quando saiam a caminho da praia. A única condição imposta aos filhos era não mexerem em nada, apesar destes serem convocados para a montagem dos novos objetos à medida que iam chegando; e assim, peça a peça, a arte ia entrando no seu quotidiano e qualificando esteticamente a sua vida. Por isso, acabado o 7º ano do Liceu de Oeiras, resolveu inscrever-se em Letras, como o fizeram as suas grandes amigas: Cucha Carvalheiro, em Filosofia e Joana Luz, em História. No entanto, assim que começou a frequentar a Faculdade, pensou: «aqui não vou ser feliz». E resolveu mudar para Belas-Artes.
As aulas de desenho que tivera até então – com o garboso Arquiteto Artur Rosa, marido e colaborador da grande artista Helena Almeida, que aparecia de descapotável vermelho no Liceu de Oeiras e punha as alunas a fazer desenho livre ao som de música clássica, numa metodologia muito de vanguarda – não lhe tinham, todavia, ensinado a usar o carvão ou a técnica do desenho de estátua, com todas as medições que requer e o entendimento da escultura. Por isso pediu à amiga Helena Roseta, estudante de arquitetura, que a levasse ao atelier de Lagoa Henriques, onde poderia aprender o que precisava para entrar em Belas-Artes. O grande escultor tinha a aula cheia, pois todos os candidatos a Belas-Artes passavam pelas lições de desenho de estátua e resolveu recomendá-la àquele jovem talentoso que, aos 18 anos, expusera um desenho ao lado do seu, na II Exposição de Artes Plásticas da Gulbenkian, em 1961. Miguel Arruda tinha também o seu atelier da Calçada do Galvão cheio de artistas e arquitetos – mas para Luísa sempre arranjou «uma sala à parte»… E também um lugar à parte no seu coração: um casamento feliz que dura há mais de 50 anos, donde nasceram um filho e dois netos. Naturalmente ainda não era desta que conseguiria aprender “desenho de estátua”.
Foi, enfim, depois das aulas de desenho com o escultor Carlos Amado, que entrou para a Faculdade, tendo, ainda estudante, começado a dar aulas na inovadora Cooperativa Torre, onde se seguia a pedagogia democrática e colaborativa de Célestin Freinet e onde Tana Vieira de Almeida recebia os filhos dos presos políticos gratuitamente. Acompanhou o marido nos anos do serviço militar em Nampula, até que o 25 de abril os trouxe de novo a Portugal. No regresso, continuou a ensinar na Escola Industrial do Marquês de Pombal, na Francisco de Arruda e noutros estabelecimentos. Através do Ministério da Educação teve uma bolsa de estudo e ingressou no único Mestrado em História da Arte que então havia em Portugal, na Universidade Nova de Lisboa.
Sob orientação de José Horta Correia escreveu um dos primeiros textos de relevo sobre um tema muito amado, que virá a publicar sob o título Azulejaria barroca portuguesa. Figuras de convite. (Inapa, 1993). Fazer esta pesquisa foi também regressar à biblioteca do seu pai, onde tinha praticamente tudo o que precisava – e juntos andarem pelo país fora, a visitar as casas onde estas preciosidades permaneciam quase sempre por estudar. Venceu o concurso que a levou a ensinar na sua antiga Faculdade e onde, lutando sempre contra o estigma de “menina queque de Cascais” com que a tentaram marcar, deu provas da sua experiência e excelência no ensino.
Entretanto quis também continuar a estudar – e foi Mestre Lagoa com o Historiador de Arte José Fernandes Pereira que orientaram o seu de Doutoramento. Interessava-lhe relevar um caso artístico português que se alinhasse em qualidade plástica com a produção internacional, surgindo-lhe então Vieira Lusitano, autor a que ainda hoje retorna (tem em mãos um interessante trabalho sobre o portrait historié) e sobre quem organizou a antológica exposição Vieira Lusitano, 1699-1783, o desenho, no Museu Nacional de Arte Antiga, em 2000.
E de Vieira… a Paula Rego, cuja obra apreciava desde quando expunha em coletivas de artistas portugueses. Teve a oportunidade de a conhecer pessoalmente, quando acompanhou a irmã Teresa, que fazia um Mestrado sobre a artista, a visitá-la em Londres. Tempos depois, encontraram-se casualmente as três, a caminhar no “paredão” de Cascais. Surgiu a ideia da Casa das Histórias, imediatamente apoiada pelo irmão, António Capucho, à época Presidente da Câmara.
Azulejaria barroca, Vieira Lusitano, Paula Rego… O fio condutor da vida e da carreira de Luísa Arruda parece ser o da estética, também nas suas valências ética e afetiva. Fala simplesmente e cheia de humanidade, com um claro sorriso, dos grandes temas, porque eles fazem parte da vida: da sua e da nossa.
*Francisco de Almeida Dias, Ph.D. (1980) é doutorado em Literaturas Comparadas pela Università degli Studi Roma Tre.
15/07/2021

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