Francisco de Almeida Dias*

Rubrica Portugal é mátria

**Francisco de Almeida Dias, Ph.D. (1980) é doutorado
em Literaturas Comparadas pela Università degli Studi Roma Tre

A primeira vez que a muito jovem Lucília Dias Gonçalves visitou Roma foi há exatamente 50 anos: ia inserida no grupo paroquial de uma amiga irlandesa, que com ela trabalhava no icónico Claridge’s de Londres. Não esquecerá nunca a emoção dessa semana de férias que não previa um segundo de descanso: havia que ver os grandes monumentos, os tesouros do Vaticano – comoveu-se às lágrimas durante a bênção de Paulo VI – e, obviamente, tinha de lançar a moedinha na Fontana di Trevi. Diz a lenda urbana que, quem queira regressar a Roma, tem de o fazer por cima do ombro, de costas para a fonte e, no caso de Lucília, deu pleno resultado.

Em março desse mesmo ano 1971 tinha ela conhecido um rapaz alto, louro, de olhos azuis, em nada semelhante ao estereótipo italiano. Mas o Luigino Rossi era mesmo um “romano de Roma” e a paixão entre ambos nasceu imediata, muito escondida dos colegas (todos, mais ou menos, enamorados da belíssima Cila). Havia mais de um ano que namoravam quando foram enfim “denunciados” por certa Paquita, de Málaga, que os viu a dançarem juntos num dia de folga… Entretanto, Luigino foi trabalhar para Paris, mas nem essa distância os afastou; e quando um dia Lucília passou pela capital francesa, o galã fez por se apanhar sozinho com ela e foi atravessando Montparnasse, num táxi a 100 à hora e com um ramo de rosas vermelhas, que a pediu em casamento. Era dezembro de 1973.

Começou então a tratar-se dos papéis para a boda, que seria em Roma, a cidade onde o casal iria residir. A Revolução de Abril atrasa-lhes um pouco os planos e nem a 16 de setembro, quando se cumpre enfim o ato civil, o severo pai de Luigino se comove: retira-lhes as alianças acabadas de trocar no registo do Capitólio, para lhas restituir apenas no 1º de dezembro desse 1974, dia em que são casados religiosamente na Igreja de Santo António dos Portugueses, pelo então Reitor António Antunes Borges.

Lucília fala muitas línguas e faz-se imediatamente reconhecer pela sua seriedade e eficiência. Anna Gnecco, a proprietária do Hotel Internazionale – no nº 79 dessa mesma via Sistina, onde Amália tanto havia de atuar nesses anos – confia-lhe uma posição de chefia, que não abandonará sequer quando, meses mais tarde, fica à espera da sua primeira filha, Isabella. «Deve ser por isso que adoro tomar o pequeno almoço em hotéis, sentir aqueles perfumes todos… Sinto-me em casa», diz Isabella, que, ainda na barriga da mãe, recebia as festas de todos os hóspedes do Hotel, uma espécie de bênção internacional, antes mesmo de nascer.

As alegrias dessa primeira maternidade quase não as pôde gozar Lucília, saindo de casa às 6 da manhã e confiando a bebé aos cuidados dos sogros. Será apenas com o nascimento da segunda filha, Elisabetta, que decidirá interromper o trabalho, retomando-o mais tarde ao serviço da Compagnia Italiana Grandi Alberghi, na importante função de Governante no Excelsior de via Veneto, com períodos de formação no Gritti de Veneza. São 18 anos de convívio com le grand monde que frequenta esses ambientes – príncipes e presidentes; comitivas de xeiques cujas dezenas de mulheres e filhos ocupam vários andares; e, naturalmente, muitas celebridades, com quem tem modo de privar: Sting, Cobain, Peter Falk vestido tal e qual a sua personagem de tenente Columbo, Michael Jackson e seus irmãos quando ainda eram The Jackson 5, Paul Hogan na época em que era o famoso Crocodile Dundee, Whitney Houston, Pelé, muitos outros… Os seus últimos anos de atividade reservar-lhe-iam ainda uma grande alegria – o de ser efetivamente a “dona de casa” de um hotel mais pequeno, mas de imenso fascínio, com o seu terraço sobre o Coliseu: o Hotel Capo d´Africa.

Entretanto Isabella crescia, inteligente e curiosa – e desafiadora, também. Se lhe era proibido o acesso à Capire – grande enciclopedia di formazione intellettuale, era justamente nesses apetitosos volumes que ela punha as mãos, assim que o avô virava costas; e a sua criatividade levava-a a inventar estórias para a irmã mais nova, misturando as personagens de diferentes épocas que enchiam as páginas daqueles volumes, em deliciosas ilustrações dos anos 60. Vem também daí, das reproduções das grandes obras de arte, o seu primeiro contacto com as disciplinas artísticas.

Os livros tornam-se-lhe os brinquedos favoritos, embora “ler” significasse “aprender” – recorda um severo tomo de História da Civilização, ainda roubado à biblioteca do avô. Só mais tarde, na adolescência, descobre que literatura é também emotividade e marca-a, de forma particular, Rinascimento privato de Maria Bellonci – uma autobiografia inventada da sua homónima Isabella d’Este, duquesa de Mântua, protagonista desse momento de renovação das artes, das ciências e das mentalidades que foram os séculos XV e XVI italianos.

De Portugal, as primeiras recordações são cheias daquela sensualidade estival que faz a poesia saber a terra – os campos de ervas altas (mais altas que ela), cheios de espigas de trigo, batidos pelo vento; o odor, a um tempo acre e puro, dos estábulos rente às casas, na milenar e íntima convivência entre animais e humanos; as linhas de escorredura da água das regas, que se lhe afiguravam grandes rios a transpor; os belos enchidos a balouçar no fumeiro de casa da avó Domingas, em Telhado, nessas largas e luxuriantes Terras de Barroso… Recorda também como a língua lhe parecia cava e misteriosa; então fugia dela, num misto de vergonha e culpa por não falar com a voz das suas antepassadas.

Vem certamente destas descrições a associação, quase imediata, entre esta linha de mulheres fortes e o maravilhoso universo gráfico de Graça Morais, sobre o qual Maria Velho da Costa escreveu: «Que é infantil, a sua mundividência? Não, bem feminina, já foi dito – mas mediterrânica, de um arcaísmo mais fiel ao luto que à retaliação.» A relação profundíssima da pintora com a sua mãe, Alda, modelo omnipresente a reevocar a ligação à terra transmontana por via matriarcal, conta ela mesma, de forma íntima e familiar, o Portugal que emigrou e que singrou lá fora, mas nunca esqueceu de onde veio.

Com um percurso académico brilhante, Isabella licencia-se na Faculdade de Conservação de Bens Culturais em Viterbo, faz um master em História da Arte Medieval e Moderna na Universidade La Sapienza e doutora-se em História da Arte na Universidade de Tor Vergata, Roma, com uma tese sobre círculo cultural em redor de Pietro Stefanoni – um antiquário, marchand de arte e editor, imigrado do norte da Itália na cidade papal. Este trabalho, dedicou-o «a todos os meus Avós, às suas lágrimas de suor e sangue». Pensar neles e no exemplo das suas vidas deu-lhe, a cada passo, a força para superar todas as dificuldades.

Começou a sua vida profissional na Galleria Borghese – a que a ligava a recordação das suas primeiras 10000 liras ganhas pelo mérito de saber falar de cada uma daquelas obras de arte, vistas e sonhadas em casa num guia ilustrado – e integra hoje a equipa do Istituto Centrale per la Grafica, situado no Palazzo Poli, a dois passos daquela mesma Fonte de Trevi onde a mãe, anos antes, havia deitado a moedinha do regresso a Roma…

24/06/2021


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