Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria

Um dos traços mais característicos da cultura de cada povo é o seu sentido de humor. No nosso caso, exemplos recuados encontramos nas deliciosas Cantigas de Escárnio e de Maldizer, na cortante ironia do teatro vicentino e até em Camões, naquele “apressado” desenlace «Oulá, Veloso amigo! Aquele outeiro / É milhor de decer que de subir!» (Os Lusíadas, V-35-3,4). Mais próximo no tempo, não esqueçamos, foi pela porta do humor que se insinuou o Republicanismo no fim do século XIX, e é a ele, sob forma de caricatura, que recorrerá a primeira Geração de Modernistas, talvez o único momento na história portuguesa em que as nossas artes gráficas andaram à la page com a Europa…
Com o olho vivo e um sorrisinho trocista tão característicos, Hermínia começa a gingar aos primeiros acordes de um tema por demais conhecido do público, que nessa tarde viera ao Teatro de São Luís, para assistir à homenagem que então se lhe fazia – a entrega da Medalha de Ouro de Mérito da Cidade de Lisboa. E enquanto meneia os ombros e se bamboleia, comenta, alto e bom som, causando uma risada geral: «Também podia ser Yé-Yé, olha…»
Podia, de facto: tanto mais, que fora a própria fadista a declarar-se, dez anos antes, a “sacerdotisa dos hippies do Bairro Alto”, no álbum A Hermínia Canta Yé-Yé (DECCA, 1970). Aqui, à semelhança de várias outras versões paródicas dos grandes sucessos, nacionais e estrangeiros, que por esses anos gravou – inspirada colaboração com o humor de Eduardo Damas, tão afim do seu – irá interpretar não só um pessoalíssimo Who Needs the Peace Corps?, piscando o olho a Frank Zappa, mas também o famoso Sugar Sugar dos The Archies, aliás “Chunga Chunga nacional – o Chunga MADE IN PORTUGAL”…
O fado e a caricatura, que pareciam situar-se em territórios tão opostos da sensibilidade e dos estados de humor, vieram a encontrar no Teatro de Revista um espaço comum, de confronto e de intercâmbio, e em Hermínia Silva (1907-1993) a sua mais acabada personificação – ambos aflorações caracteristicamente portuguesas e populares: um puro encanto transversal a todas as classes sociais e a todas as extrações culturais, porque, em Hermínia, tudo era absolutamente genuíno, sem sombra de compromissos políticos ou conveniências de qualquer tipo, que não fossem com o que ela sabia e sentia ser no seu âmago mais profundo.
Nessa tarde de 1980 – em que o então presidente da Câmara de Lisboa, Nuno Krus Abecasis, estava para lhe prestar a mesma homenagem com que, havia pouco, distinguira outro mito do fado, Alfredo Marceneiro – enquanto meneava os ombros, se bamboleava, e ameaçava um Yé-Yé, Hermínia arranca outra das suas mordazes charges feitas de parceria com Damas. Tratava-se de um tema gravado em 1968 nos Estúdios da Valentim de Carvalho, em Paço d’Arcos, com o evocativo título de Vou dar de beber à alegria, versão daquela famosa “Casa da Mariquinhas”, a musiquinha de Alberto Janes, que a voz e a interpretação de Amália haviam tornado um sucesso sem precedentes.
A protagonista era familiar aos aficionados do fado, desde que Marceneiro havia gravado, alguns anos antes, com música sua e letra do jornalista e poeta Silva Tavares, uma Casa da Mariquinhas, transformando-o num dos seus maiores êxitos de sempre. De tal ordem que, fazendo jus ao seu ofício, ele mesmo construíra uma casinha em madeira, em tudo correspondendo à descrição dos versos («É de aparência singela / Mas muito mal mobilada / E no fundo não vale nada / O tudo da casa dela»): jarras sobre colunas no vão de cada janela, “colchas de chita com barra, quadros de gosto magano”, uma guitarra em lugar do piano, um cofre-forte, um candeeiro a petróleo e, é claro, as célebres “janelas com tabuinhas” – hoje em exposição no Museu do Fado.
Por sua vez, dois anos antes da versão de Hermínia – que, aliás, foram duas, pois nesse mesmo 1968 a artista gravara também, ao vivo, no seu restaurante em Benavente, uma sarcástica Lição de Folclore, em que o repertório amaliano volta a estar na berlinda – o single Vou dar de beber à dor merecera a Amália o Prémio Pozal Domingues, seguindo-se-lhe a vitória, nos três anos seguintes, do Prémio M.I.D.E.M. para o record de vendas no mercado discográfico de origem (algo que apenas acontecera antes com os Beatles).
Se Amália achou graça à piada – é conhecida a admiração que tinha por Hermínia (irrompeu pelo palco do São Luís, nessa tarde de homenagem em 1980, para o relembrar carinhosamente) e a antiga amizade que unia as duas fadistas, cimentada nos tempos em que ambas pisavam o palco do Variedades na revista Boa Nova (1942), ou quando uma era a “Rosa da Mouraria” e outra a “Rosa de Alfama” da opereta Rosa Cantadeira (1944) no Teatro Apolo – o mesmo não se passou com a Comissão de Censura da Emissora Nacional. Muito rapidamente a transmissão radiofónica do tema haveria de ser proibida, por conter uma palavra incriminada: “camarada”. Era necessário exorcizar qualquer referência, por mais ténue que fosse, ao temido ideário comunista, mesmo que se tratasse apenas de uma ridente evocação dessa «cantada e recantada Mariquinhas», de regresso à sua legítima casa…
É bem de ver que não foram apenas as vizinhas da Mariquinhas a ficarem «todas danadas» (por causa das “tabuinhas”, «agora já não podem deitar para lá os ‘mirones’, é claro»); o humor de Hermínia espicaçara as esferas altas, e se lhe eram toleradas brejeirices revisteiras lá no seu “Solar” – a fadista manteve no Largo Trindade Coelho, em Lisboa, de 1958 a 1982, um restaurante e casa de fados chamado, justamente, o Solar da Hermínia – o mesmo não lhe era, por ora, permitido em radiodifusão nacional.
No entretanto, porém, ao seu encontro com Damas parecia nada escapar: sucederam-se os temas (ainda hoje popularíssimos) dos Festivais da Canção – uma Balada de D. Urraca, que se metia com o tema de José Cid Balada para D. Inês (1968), bem como a A Desfolhada da Hermínia, em que não poupa Simone de Oliveira, vencedora do V Grande Prémio TV da Canção Portuguesa, ou ainda o álbum Festival da Invernia, no qual parodia vários temas levados ao Festival da RTP em 1970, a começar por De onde vens Alviela que bebo (Onde vais rio que eu canto, interpretada por Sérgio Borges).
Para não esquecer Hermínia, nem esse humor que lhe era congenial, já ensaiado nos palcos da revista, e tão afim de uma certa corrente progressiva (e positiva) do espírito nacional, aí estão estas gravações, excelente testemunho histórico de como digeríamos (mal) as musicalidades pop do mundo anglófono, de como pasmávamos frente ao recém-adquirido televisor ou pretendíamos intelectualizar o folclore, de como púnhamos nos píncaros o relato de musical das venturas e desventuras de uma Mariquinhas, de vida, afinal, tão duvidosa para os moralismos desse tempo… No que disse e no que insinuou apenas, Hermínia conta a História pelo avesso, mas é verdadeira a História que conta.
PS: Aconselho vivamente o canal de Miguel Catarino no YouTube, com mais de 90 entradas, contributo de um profundo conhecedor para a malnutrida historiografia da canção portuguesa https://www.youtube.com/channel/UCLcXSPiATFcJU0ddNywFmFw
27/05/2021

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