Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria

Em Alice O Outro Lado da História – a “experiência imersiva” teatral que traz uma outra luz sobre a ambígua relação entre Lewis Carroll, autor de Alice no Pais das Maravilhas, e a menina que lho inspirou – é uma enfermeira, simbolicamente chamada Sofia, amargurada pelo tempo e pelo (des)amor, que interpela o público sem filtros: o primeiro impacto, eventualmente chocante, para quem se dirige ao Lugar do Cabo Ruivo, ainda com as cores da versão Disney num confim da memória, e é projetado para Rutledge, o escuro hospital psiquiátrico onde Alice Liddell foi internada aos 18 anos, em 1870. A base é o texto de Paulo Miguel Ferreira, adaptado e encenado por Miguel Thiré, mas o desafio é pessoal, é repetido, é constante, para a atriz Maria LaLande que contracena a cada 5 minutos com um novo elemento do público que vai chegando, durante as 3 horas e meia que dura cada sessão. Feitas as contas, são quase setenta espetáculos por noite, setenta provas de concentração nas reações que a dureza das suas palavras têm no espetador-ator (ele é, na verdade, a própria Alice com quem os atores interagem) – reações que se concentram agora na zona dos olhos, deixada livre pela máscara nestes tempos de pandemia…
Maria LaLande quis sempre ser atriz. É algo bastante fácil de compreender quando se tem no código genético a herança de dois avós que estão entre os primeiros do teatro e do cinema em Portugal. Maria Lalande (a “Mátria” da quinzena passada) e Francisco Ribeiro, o famoso Ribeirinho daquelas deliciosas fitas a preto e branco que todos sabemos de cor – algumas delas produzidas pelo seu irmão, outra figura incontornável da cultura portuguesa do século XX: António Lopes Ribeiro. Apesar de não ter conhecido a avó, nem ter recordações do avô, que morreu antes que pudesse ter consciência de si, os seus espíritos tutelavam, vivíssimos, a memória doméstica e afetiva em que cresceu. Quando a mãe a levou a ver o mítico Passa por mim no Rossio de Filipe La Féria, sendo ainda pequena, a neta da Lalande e do Ribeirinho foi acolhida nos bastidores, calorosamente, por quem com eles ainda havia privado. E assim, uma menina muito tímida, mas que sabia que queria vir a ser atriz, achou-se na bancada do camarim de Eunice, que lhe explicava como maquiar-se, e em frente daquele que se viria a tornar um grande amigo e mentor, João Perry, que lhe disse: «se queres realmente fazer teatro, tens de trabalhar muito!»
As primeiras experiências, com o entusiasmo e a ingenuidade própria das crianças, fá-las na escola – onde escreve, ensaia, interpreta os espetáculos dos dias de festa. Há mesmo um professor de História que se decide a dar-lhe positiva, quando sabe que a sua falta de gosto pelo estudo da sua matéria é contrabalançada pela vocação para o teatro: e assim, em lugar do exame, aí a temos a encenar uma tragédia grega com alguns colegas arrolados para a ocasião. Desde sempre conta com o apoio da mãe na prossecução dos seus sonhos e no projeto de ir estudar para fora… Mas antes disso, a fé quase mística e seguramente romântica do “fogo sagrado que habita o grande ator” (recordo um depoimento em que Monica Vitti dizia ter tido exatamente a mesma ilusão e desilusão nos seus primeiros tempos) havia ainda de sofrer um abalo, quando não superou a segunda parte das provas do Conservatório.
Momentaneamente desviada da sua estrada, licencia-se em Cinema e Vídeo e faz uma pós-graduação em Cinema Documental, formação que lhe deu alegrias e granjeou prémios, enquanto ia fazendo workshops de teatro com Claudio Hochman e atuava numa banda musical. O teatro ia-se, assim, reaproximando, quando, em 2006, depois de um ano em que conclui um curso de representação na Escolta In Impetus, parte para um curso de verão na prestigiada Guildhall School of Music & Drama em Londres. No regresso, a primeira audição que faz levá-la-á a dois anos de colaboração com a Companhia “Sola do Sapato” de Almeno Gonçalves até que, aos 25 anos, está pronta dar o grande salto da sua vida: vai a Nova Iorque em passeio e apercebe-se que é ali, onde será avaliada por si mesma, porque ninguém a conhece nem sabe quem foram os seus avós, na escola The Neighborhood Playhouse, fundada por Sanford Meisner, onde poderá estudar a sua técnica teatral, que quer viver – e assim fará, de 2008 a 2011, tendo vencido uma bolsa de estudo no último ano de formação.
É de Meisner a ideia de religar o ator aos seus impulsos emotivos e guiá-lo numa atuação radicada no instinto, anulando a voz crítica da mente – e isto através do uma forte concentração fora de si, ouvindo o outro, em contracena com o outro (o colega, o público), contacto que viabiliza a espontaneidade das emoções e o trabalho de improvisação, sobre as cenas de uma obra de antemão conhecidas: estar presente, agir e reagir a cada momento, «viver verdadeiramente dentro de uma situação imaginária». É essa verdade que garante a relação empática com o público – e foi também essa verdade que tocou para sempre Maria LaLande, hoje não só atriz, mas também professora que ensina a Técnica de Meisner na escola onde estudou, In Impetus, e em diversos Workshops que dinamiza – e que atualmente continuam on line, por força das circunstâncias.
Criou o Grupo de Teatro Passe-Vite, aberto «a todos os que se quiserem divertir e descontrair durante duas horas por semana ou àqueles que querem ter uma iniciação teatral», como se lê no programa. A peça escolhida para levar a cena o ano passado, não poderia vir mais a calhar, em tempos suspensos como os da pandemia: À espera de Godot de Samuel Beckett, as cenas do absurdo construídas em redor da espera, de uma espera infinita, de uma espera provavelmente baldada. O projeto foi finalizado em streaming, filmado com as máscaras do momento (não as do teatro) e será disponibilizado on line. Aspeto curioso é que a primeira representação desta peça em Portugal, no Teatro da Trindade, em 1968, foi levada a cabo pelo seu avô, Ribeirinho, à frente da Companhia Teatro Nacional Popular, sendo também sua a interpretação do personagem Estragon.
Hoje, Maria LaLande é uma mulher independente, mas não indiferente, dessas “figuras da memória” teatral da sua família: elas continuam vivas, em constante mutação, dentro do seu imaginário, herança que lhe chegou por fios invisíveis, de que é depositária por pura magia, herança que outros, mais do que ela mesma, reconhecem num seu certo modo de dizer ou num seu certo jeito de se mover e que a fazem neta da grande Maria Lalande, do grande Ribeirinho. Aliás, este caso de homonímia levou-a mesmo a pensar “trocar” de nome – chegou a fazê-lo, durante algum tempo, indo rebuscar um pomposo apelido aos seus antepassados – mas acabou por desistir.
Hoje, Maria LaLande é uma atriz inteira, que sabe que toda a gente é capaz de tudo e que pode, por isso, ser quem quiser (pelo menos na verdade do palco e na imaginação)… E é assim, como uma piscadela de olho, que, quando a veem num palco e lhe dizem que nem parecia ela, ela sabe que aquela era mesmo ela, ou uma parte dela, ou um alter-ego que é ela também.
https://www.marialalande.com/
Maria LaLande em “Alice O Outro Lado da História” ©Tiago Sales
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