Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria
Maria Luísa Ribeiro Ferreira
Atravessar, passar através de, entrar – são sinónimos do verbo cruzar, que significa, antes de mais, dispor em forma de cruz. Este é o verbo escolhido para dar nome à sexta edição do curso de ‘Filosofia, Literatura e Espiritualidade’, promovido pela comunidade da Capela do Rato de que é coordenadora científica Maria Luísa Ribeiro Ferreira. E este é, de resto, um termo que bem poderia servir de mote à sua vida: cruzamento de perspetivas; abertura ao que os anos nos oferecem de diverso e de comum, dia após dia; reflexão sobre o que a Cruz de Cristo ensina, fé e razão harmonizadas na vivência pessoal e na experiência profissional desta mulher de fé, que é filósofa e mãe, avó, bisavó. Acreditar e pensar são para si «duas linhas que se cruzam» (justamente) «e que têm afinidades»: a fé não pode ser cega, deve antes ser esclarecida, fundamentada, embora ela se estenda para lá da razão; e é onde a razão não chega que emerge a fé, dando um sentido à vida, uma via alternativa para a interpretação do mundo, embora também ela precise sempre de ser alimentada…
Nos tempos agitados da I República a sua família, bem instalada socioculturalmente e oriunda do Porto, sofre uma pesada débacle financeira. São figuras marcantes, por vezes trágicas, que, parte de uma mitografia familiar, se tornam sobretudo impulso de recomeçar, de lutar por se voltar a ter aquilo que se perdeu. E assim, a primeira de quatro irmãos, Maria Luísa Araújo de Oliveira Monteiro nasce em Lisboa num ambiente caloroso e protetor, preocupado em dar aos filhos uma formação completa – que para além do Francês, do Inglês e do Alemão incluía naturalmente as lições de piano e os seus detestados bordados. Esses estudos iniciaram em casa com aquela que fora já mestra de ambos os seus pais, D. Beatriz de Carvalho. Quando a velha senhora fazia a pergunta sacramental «– Onde estão os deveres?», lá ia a aluna exemplar recuperar os cadernos que as manas gémeas haviam lançado para trás dos armários, fazendo de conta que tudo estava bem.
Com o marido os 8 netos e o primeiro bisneto.
Apesar do Liceu Maria Amália ficar mesmo em frente de sua casa, havia sempre um membro do pessoal doméstico para atravessar a rua consigo; foi assim, embora vigiado, que se deu o seu primeiro salto para a liberdade, feito o exame da 4ª classe. Frequentava a turma A, com um grupo de meninas vindas de um colégio de elite da capital, a Escola Ave-Maria, e muito recomendadas pela sua diretora, a famosa Minhana (Maria Alexandra de Almeida Eusébio), à professora de moral – a tal Teresa Navarro que lhes repetia (para horror de Maria Luísa): «vocês são a nata do leite»… É ali que uma excelente professora de Inglês e Alemão, Armanda Bastos, será em parte a responsável pela sua primeira escolha universitária, o curso de Germânicas. Mas é, sobretudo, então, que faz amizades para a vida toda, como a de Antónia Pacheco, a saudosa Toina que, com Maria Luísa entrou para Letras e também consigo transitou para Filosofia ao cabo de um ano.
As férias eram na linha de Cascais – onde o pai, amante dos cavalos, insistia para que os filhos aprendessem equitação: excitação máxima para as suas irmãs e sobressalto constante para si, que escolhia sempre um ginete coxo, garantia de chegar inteira ao fim da cavalgada. Desses verões com o “grupo do Beco” na Praia da Azarujinha, ficaram memórias divertidas e grandes amigos que conserva até hoje. Exceção única nessas pausas estivais foram aqueles dois meses, quando estava já no segundo ano da Faculdade, em que partiu com Manuela Araújo para Hannover, para melhorar o Alemão e para fazer a primeira experiência de trabalho: depois de várias peripécias, as duas amigas acabaram a apagar as anotações dos livros devolvidos à biblioteca local, das seis e meia da manhã à hora do almoço, no meio de um grupo de anciãos…
Com os irmão no Parque Eduardo VII
Na Faculdade dá-se o encontro decisivo com o grande pedagogo e humanista que foi o Padre Manuel Antunes. Nas suas aulas de Cultura Clássica – comuns a todos os alunos do primeiro ano de Letras – compreende que é Filosofia o ramo que quer seguir. Ao acrescido interesse intelectual que lhe despertam essas matérias, juntava-se também a atração por esse grupo mais heterogéneo do que o das “meninas de Germânicas”: nele se cruzavam (ainda uma vez este verbo) alunos de várias as idades e diversas proveniências, «gente mais solta, que eu não conseguia bem situar». Um universo de individualidades que, nunca formando um verdadeiro “grupo”, nunca lhe deu grandes oportunidades de se integrar, mas também não a excluiu e, sobretudo, permitiu-lhe ampliar horizontes, conhecer para além do que lhe era já conhecido. Talvez por isso mesmo, de início, a sua escolha fosse olhada com desconfiança pela família; estávamos na época das grandes greves académicas, que nos anos 60 agitaram a Cidade Universitária, e que a surpreenderam a caminho de uma aula do Padre Manuel Antunes, precisamente.
Não tem ainda 20 anos quando parte para Moçambique, com o grande grupo da Ação Académica, que reunia estudantes universitários e alguns membros já formados, e é nessa viagem que conhece um dos “Doutores”, José Manuel Ribeiro Ferreira, com quem mais tarde começa a namorar e vem a casar, pouco antes da conclusão da sua Licenciatura. Oswaldo Market é o professor que interpela para ser o orientador da sua tese final, sobre Simone de Beauvoir, de quem já tinha lido tudo… «Mas porque não escolhe antes um homem sobre quem estudar?» foi a resposta que obteve do académico kantiano. Assim, põe de parte momentaneamente a existencialista feminista francesa e, depois de um inicial desaponto, acabará por encontrar aquele a que chama, com espírito, “um dos homens da sua vida”. Será a Baruch de Espinosa, racionalista holandês, de origem judaica portuguesa e fundador da crítica bíblica moderna, a quem irá dedicar os seus estudos e sucessivamente as suas dissertações de Mestrado e Doutoramento.
Logo a seguir à Licenciatura – e conjugando-o com o seu papel de mulher e mãe de filhos pequenos – foi professora no Ensino Secundário e foi aí que retomou a vontade de se dedicar às suas próprias investigações, enquanto orientava alguns estagiários que, para seu grande contentamento, viriam a fazer eles mesmos carreiras universitárias notáveis – como Maria Filomena Molder, conhecida investigadora e professora catedrática de Estética.
A prossecução do seu brilhante percurso académico virá mais tarde, com o Mestrado pela Universidade Nova de Lisboa, em 1984 e, dez anos volvidos, o Doutoramento pela Universidade de Lisboa – mantendo sempre em suspenso a ideia das Mulheres na Filosofia. O Prof. Joaquim Cerqueira Gonçalves, do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, compreender-lhe-á o alcance e esse virá a ser um dos três projetos que aí coordena, para grande entusiasmo de uma equipa de avaliação internacional. Sobre o mesmo trará a lume, como autora ou coordenadora, algumas obras fundamentais: O que os Filósofos pensam sobre as Mulheres (Lisboa, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 1998), Pensar no Feminino (Lisboa, Edições Colibri, 2001), Também há mulheres filósofas (Lisboa, Caminho, 2001), As teias que as mulheres tecem (Lisboa, Edições Colibri, 2003), Hannah Arendt, Luz e Sombra (Lisboa, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2007), As Mulheres na Filosofia (Lisboa, Colibri, 2009), Simone Weil, Marginalidade e Alternativa (Lisboa, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2010). Dos seus riquíssimos currículo académico e elenco bibliográfico constam outras dezenas de trabalhos nos âmbitos da Filosofia Moderna, Didática da Filosofia, Filosofia da Natureza e do Ambiente e Filosofia do Espaço Público. https://luisarife.wixsite.com/site
No cruzamento das perspetivas filosófica, literária e teológica – uma encruzilhada virtual, dados os atuais constrangimentos pandémicos, através de sessões online, até 26 de abril – se entrecruza, uma vez mais, o caminho da Catedrática de Filosofia Moderna e Contemporânea da Universidade de Lisboa e a Comunidade religiosa da Capela do Rato. Relação antiga, que vem dos tempos em que era aí capelão o famoso protagonista do movimento católico progressista, Padre Alberto Neto, e que se veio a estreitar nos últimos anos. Desde o primeiro curso que promoveu, há seis anos, a convite de José Tolentino Mendonça (o atual Bibliotecário e Arquivista da Santa Sé, que inaugurou as sessões deste ano com a conferência sobre a encíclica papal Fratelli Tutti) sente, como nunca, fazer parte de uma equipa coesa, ligada por uma amizade de fortes laços, que a surpreendeu numa fase da vida em que é raro fazerem-se novos e tão bons amigos, tão frutíferos cruzamentos.
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