Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria

Há vidas que se cumprem ao serviço das vidas dos outros. Penso que são as vidas mais felizes, porque da felicidade alheia se faz felicidade íntima, libertada do egoísmo, em harmónica comunicação com leis maiores – de Deus, do Espírito ou do Universo, como lhe queiramos chamar. Exemplo disso mesmo é a já longa (e, todavia, tão jovial) vida de Ilda da Fontoura Pires, cuja primeira imagem que conservo é a da figura atlética, calcorreando os caminhos da Fraguinha, como que espicaçada pelo frio de rachar que se sentia nessa manhã de 26 de janeiro do ano que agora termina. É, como muitas vezes acontece com as primeiras impressões que recebemos e as sensações que elas nos provocam, uma imagem bastante fiel desta viajante, para quem os caminhos não são exclusivamente geográficos, mas humanos e relacionais, experiência para viver e partilhar com as pessoas com quem viaja:
Gosto de passar pelas coisas, pelas pessoas, absorver a cultura dos povos que visito e não me deter apenas na espetacularidade e monumentalidade dos países. Gosto, sobretudo da Natureza. Creio que foi a imensidão da savana africana, a frescura e força da floresta virgem, que deixaram em mim esse gosto. E a montanha, onde nasci, a minha raiz… como ela me seduz! (…) Viajar, põe-me em comunhão com o mais além. Percebo melhor quanto somos iguais nas nossas diferenças. Percebo o mundo, de facto, para além do “tempo e do espaço”.
Himalaias (galgou 4120 metros, aos 74 anos!), a Transiberiana, Nepal, Índia, Tailândia, Irão, e a sua querida África – do Cabo a Zanzibar – continente em que começa a sua aventura internacional. Tanto mundo para quem nasceu na pequena aldeia de Mairos, no Concelho de Chaves, em 1938. Ali viveu uma infância feliz e livre, em contacto com a natureza, ensombrada aos seis anos pela morte do pai, aquela que considera a maior perda da sua vida. E será dali que parte para o Colégio de Santa Cristina do Couto, em Santo Tirso e, depois, para o Porto. Ingressa na Ordem das Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora, onde mantém uma conduta exemplar, obediente e submissa, competente na execução das tarefas que tem de desempenhar, mas muitas vezes desvalorizada, quando não humilhada. Juízos contraditórios criam-lhe uma grande desorientação:
Meu Deus como eu tinha medo: medo de Deus, medo das superioras, medo de não ser suficientemente boa e perfeita. Medo seria de facto a palavra adequada para me definir em grande parte esta longa etapa.
Chega em 1960 para Moçambique, onde irá viver dezassete anos, em grande parte dedicados ao ensino e à missionação, duas vocações cuja prática lhe dá grande prazer e que lhe vão granjeando autoridade e prestígio dentro da Ordem, chegando a Superiora. Esse continua a ser, no entanto, um período atravessado por grandes sofrimentos psicológicos, que lhe vão dando uma progressiva consciência de si, e, em paralelo, a coragem de começar a dizer o que pensa e o que quer. Quando, aos trinta e tal anos, alguém lhe pergunta «o que pensas sobre este assunto?» fica surpreendida: nunca ninguém lho perguntara com tanta honestidade… Como se sabe, a independência é bastante incompatível com estruturas fortemente hierarquizadas e Ilda vê-se, abruptamente, cair do topo da pirâmide, pelo simples facto de ousar pensar pela própria cabeça.
O que fora surpresa, estranheza, dor, transforma-as em oportunidade uma mulher inteligente como Ilda da Fontoura Pires. Parte em 1977 para Bruxelas, três anos que se revelarão de «crescimento interior intenso, de abertura da alma, de libertação de medos e de cura de feridas», quando tem oportunidade de se formar em Estudos religiosos de Pastoral e Catequese e evoluir, a nível pessoal, no contacto com as multinacionalidades, que significa para si um alargar de horizontes e de confiança nas suas capacidades: «ganhei asas e senti que podia voar».

De regresso a Portugal, no início dos anos 80, sentiu o clima de rejeição que então se vivia em relação aos chamados “retornados” das ex-colónias portuguesas. Inicia a catequizar numa zona rural, de onde passa depois para Setúbal, com responsabilidades na mesma área. Mas é difícil a adaptação à vida comunitária que reencontra no país, cresce em si um sentimento de solidão e de incapacidade de comunicação e partilha, que se lhe vai tornando insuportável. Aos 47 anos de vida, o encontro com o PRH (Personalidade e Relações Humanas), uma psicopedagogia do crescimento pessoal, vai ao encontro da sua vocação de mestra e dá-lhe a força necessária para deixar a Congregação. É nessa altura que, com sacrifício, mas grande determinação e alegria, decide licenciar-se em Ciências Religiosas na Universidade Católica, em Lisboa.
O seu espírito irrequieto e sincero, todavia, não a deixará ainda pacificada e feliz; ao fim de sete anos, 3 de formação e 2 como Formadora, deixa o PRH, onde uma sensação de fortes enquadramento e controle lhe recordam demasiada e angustiosamente o convento. Sabe que achou aquilo que gosta realmente de fazer na área do Desenvolvimento Pessoal, acompanhando a evolução das pessoas a partir das próprias potencialidades, crescendo também com elas, mas sabe também que ainda não é exatamente aquela a sua estrada. É então que, por necessidade de sobrevivência económica, regressa ao ensino, fixando-se em Aveiro, onde contou com o precioso apoio de alguns familiares para reorganizar a sua vida. Dá aulas de Religião e Moral numa escola da Diocese e consegue, ao cabo de algum tempo, comprar a sua primeira casa:
Entrar num espaço só meu, livre de controlos e de interferências foi uma sensação indescritível. Tinha 52 anos. Apesar das dificuldades económicas que vivi nos primeiros anos, nunca me arrependi dos passos que dei para aqui chegar. Não sei se procurei alguma coisa, sei que me deixei conduzir pela vida. Olhando para as coisas a partir daqui, creio que eu só queria, talvez de uma forma inconsciente, ser livre e feliz.

A partir daí, como diz, «foi como se uma autoestrada se tivesse aberto diante de mim». Primeiro apenas como professora, depois, assim que lhe foi possível, lançando-se de novo na área da formação, procurando e frequentando vários cursos no âmbito das psicopedagogias do crescimento. Isto sem nunca se desligar da Religião e onde, com a sua formação e visão alargadas, tentou introduzir algo de novo: um Evangelho libertador.
Foi só mais tarde, quando as condições materiais lho permitiram, que iniciou as suas longas explorações geográficas – pois que espírito livre e viajante, irrequieto e buscador, como bem vimos, sempre o teve Ilda da Fontoura Pires. Faceta esta que se integra numa outra, compassiva e voltada para os outros: «Às vezes tenho o desejo de acolher todo o sofrimento do nosso mundo. Mas, como isso é impossível, tenho como missão aquele que vem ter comigo. (…) Quando a gente sofreu muito e integrou esse sofrimento, tem mais facilidade em acolher o sofrimento dos outros.»
Quando Ilda ri, todo o rosto se lhe ilumina, dá gargalhadas límpidas, como as de uma menina, e nisso se expressa, sem palavras que atrapalhem a pura, espontânea verdade comunicativa, o seu imenso amor pela vida. Dá longos passeios gozando o sol junto da Ria de Aveiro, enquanto a pandemia lhe tolhe a possibilidade de percursos maiores. Espalha a alegria e o bem em seu redor, pelas pessoas e pela natureza – e o torrão de que toma conta, onde plantou uma horta florida, é disso exemplo eloquente. Continua todos os dias a buscar a humanidade consciente do corpo e do espírito, bebendo as lições da vida e de algumas leituras inspiradas, como a de Jean-Yves Leloup, que, numa dedicatória que lhe faz, sublinha a sua «communion avec le manque au coeur de la plenitude et de la plenitude au coeur du manque». Ela bem o sabe:
Sei que sou, como todos os mortais, luz e sombra e que tento segurar numa das mãos a luz e noutra a sombra, mantendo o necessário equilíbrio, numa tentativa de ser aquilo que sou e só aquilo que sou, sem o conseguir às vezes muito bem.

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