Francisco de Almeida Dias

Rubrica Portugal é mátria

Cristina Neiva Correia

A sua paixão é “a mesa”, les arts de la table, expressão cunhada em França no século XVIII para se referir a tudo o que rodeia e faz parte do ato da refeição. Foi a partir do início dos anos 90, quando participou na exposição “Tesouros Reais”, que tal paixão se desenvolveu profissionalmente. Atual Conservadora da coleção de Cerâmica do Palácio da ajuda, está neste momento a ultimar um grande projeto museográfico, que revelará os bastidores da Mesa da Casa Real portuguesa, na viragem do século XIX. O dia a dia da “Mesa de Estado”, mas também das outras mesas do Palácio da Ajuda como a dos particulares, das camareiras, as “arrecadações das pratas e loiças”, a cozinha dos aposentos da rainha, a mantearia, a casa das lavagens, as alfaias das cozinhas, dos piqueniques, dos veleiros.

Como quase sempre acontece, porém, todas as coisas da nossa vida adulta têm uma raiz longínqua, nos confins da infância. Influência que considera determinante em cada escolha que fez foi a do seu pai, um “espírito renascentista”, como o define: foi ele quem lhe estimulou o gosto pelo estudo das línguas estrangeiras, que lhe permitiriam contactar as versões originais de muitos textos essenciais para a sua formação; com ele aprendeu a apreciar música erudita, em especial da época Barroca; dele também o gosto pela leitura e ainda essa forma tão original que tem de abordar a vida: recorda, enquanto o pai se doutorava em Engenharia Química, a “escola criativa” que este quis que frequentasse entre o arvoredo de Vondelpark (Amsterdão) – amplos painéis de vidro em lugar de paredes e os meninos todos sentados em redor de uma mesa, iniciando a escolaridade através de métodos alternativos.

A arte, a literatura e também a mesa fundem-se ainda, na sua memória menineira, com as marcantes referências femininas das avós, da velhinha prima Noémia que lhe ofereceu o seu primeiro livro de cozinha sério, e dessa imensa e fantástica Nazaré, sempre impecável no seu avental branco com um grande laçarote, que lhe surgia como uma figura de cinema e com quem passava horas perdidas na cozinha da Avó.

Foto de Gonçalo Rosa da Silva 2017©

Da avó materna, Maria Helena, do seu convívio com artistas como Estrela Faria, António Duarte ou Martins Correia, ficou-lhe uma primeira ligação às artes – no atelier de Estrela, ao Arco do Cego, havia ela mesma de assistir à pintura do retrato da Avó Lena, que hoje ‘vive’ na sala. Mas também dos ateliers do Museu Conde Castro Guimarães, em Cascais, onde todas as técnicas de artes plásticas eram abordadas pelo tempo de um verão. Da outra avó, Cândida, a “avó da quinta” de Porto Franco, propriedade dos Neiva Correia, nos arredores de Torres Vedras, as leituras dos clássicos franceses, em particular das sagas familiares. Neta mais velha de ambos os lados e naturalmente predisposta a aprender, foi do convívio com os avós Sabido que lhe veio o gosto pelo cinema, pelos ballets de Maurice Béjart e a educação do paladar, experimentando sempre novos pratos em bons restaurantes. Era ainda com a Avó Lena que frequentava a Gulbenkian onde, certa tarde, num dos documentários que integravam as exposições, a menina de 10 anos viu Pompeia e o Vesúvio em fogo e lava, imagens fantásticas que não mais a abandonaram – e que regressam certamente agora, quando participa na organização de uma importante exposição sobre Pompeia em parceria com o museu de Arqueologia.

Com o pai, em Amesterdão

Aos 12 anos parte com a família para o Brasil, onde o pai, especializado na refinação do açúcar, começa então a trabalhar. A partida é aventurosa, no transatlântico Augustus, que depois de 24 anos de honrado serviço nas rotas da América do Norte e do Sul dava a impressão de cair aos pedaços, nos seus últimos anos de “carreira”… Depois do primeiro mês num hotel em Copacabana, a família muda-se para o interior do Estado, Campos dos Goytacazes, e mais precisamente Barcelos, onde a aventura será ainda maior (e não falo do facto das almofadas dos sofás se terem perdido pelo caminho!). Cristina e o irmão Pedro – a mais nova, Constança, era muito pequenina e ficava aos cuidados da mãe – alvoroçavam-se à passagem da “Maria Fumaça”, um comboio ainda movido a lenha para o transporte da cana de açúcar, que dava a volta à sua casa para fazer o torna-viagem. Era aí também, num enorme jardim, que tinham a sensação de viver num fime da National Geographic vendo espécies animais nunca antes vistas nem sonhadas, estendidas ao sol ou em voo picado. Da idílica Recife, onde viveram os últimos anos brasileiros, recorda sobretudo o imenso calor que tudo permeava – até a convivialidade. Daí o choque que sentiu no regresso a Portugal, no inverno de 1978, onde encontrou uma sociedade que lhe parecia “excessivamente vestida”, contida, e que era, sem dúvida, muito menos calorosa que a pernambucana.

Com a mãe e a avó materna

Ao inglês dos primeiros anos de escolaridade, na Queen Elizabeth’s School, juntou o francês que estudou na Alliance Française. Seguiu Ciências no Liceu Pedro Nunes até ao 11º. Um erro de percurso que a obrigou a voltar atrás e rumar pelas Humanidades, dois anos num só. Não se inscreveu no 12º ano, com a intenção de entrar diretamente para Restauro. Mas o curso não abriu nesse ano… por forte e boa influência do seu pai decidiu licenciar-se em História. Frequentou também um curso livre de azulejaria e faiança, orientado por Rafael Salinas Calado – e todas essas formações, decididas ou não, vieram a revelar-se absolutamente certeiras e confirmadas pelo sucesso futuro.

Começa a sua carreira no Instituto Rainha Dona Leonor, onde é posta à prova a facilidade que sempre demonstrou na leitura paleográfica de documentos antigos, e é dali que Cristina Neiva Correia passa para o museu que não mais deixou. Em 1989 é chamada para investigadora na exposição sobre o rei D. Luís. Um ano depois faz parte da equipa, chefiada por Teresa Valente, que lança o Serviço Educativo.  Dez anos de visitas guiadas às exposições e ao palácio permitem-lhe compreender que aquele é o modo como mais gosta de transmitir o conhecimento, em contacto com o público. Nos 3 seguintes trabalhou como conservadora adjunta da coleção de pratas e integrou a equipa que estudou e publicou sobre a fascinante Baixela Germain. Foi assegurando a ‘gestão’ da coleção de cerâmica, da qual veio a tornar-se responsável a tempo inteiro. Durante dois anos acumulou com a Fotografia Histórica, que a apaixona, mas as mãos não chegam para as 17.000 peças de cerâmica.

Como historiadora de Arte, Cristina Neiva Correia ainda é filiada em várias associações: Associação Portuguesa de Historiadores da Arte (APHA), na qual integra os corpos sociais desde 2009; nos comités de Casas Históricas e Casas-Museu (DEMHIST) e no de Artes Decorativas (ICDAD), comités do Conselho Internacional de Museus (ICOM). Está ainda ligada à The French Porcelain Society, sedeada em Londres, e ao Réseau Art Nouveau Network de Bruxelas. Mas talvez uma das funções a que está mais próxima afetivamente, até pela forma como o convite surgiu, é a de Sócia Honorária da Haviland Collectors International Foundation, uma organização dedicada ao estudo e coleções da porcelana produzida em Limoges pela Haviland. Uma empresa familiar que produzia em França e exportava para o mundo, um sucesso empresarial de dimensões notáveis e técnicas irrepreensíveis, a quem a rainha D. Maria Pia adquiriu centenas de peças entre o final do séc. XIX e inícios do XX.  Um dia, interpelando esta Fundação em nome de uma estagiária universitária, deixou os interlocutores boquiabertos ao informá-los da existência, nas coleções públicas portuguesas, de cerca de 600 peças Haviland. Desde então têm-se multiplicado os convites para participar nos encontros internacionais da Fundação.

Entrevistada pelo jornal Diário de Notícias em junho de 2019 e interrogada sobre da fragilidade – e unicidade – da coleção de que é responsável, declara: «Se eu tiver de sair a correr, é com as peças de Majólica que saio», pois é o aspeto experimental da faiança o que mais a emociona e lhe interessa – a máxima potencialização dos materiais através de sucessivas tentativas, em ligação à cultura artística. A paixão é ainda e sempre o que a move.

17/12/2020

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *