Francisco de Almeida Dias

Rubrica Portugal é mátria

A palavra irmão (e irmã, de consequência) vem do latim germanus e significa ser da mesma raça. Ser filho do mesmo pai, da mesma mãe, ou de ambos, é destino que se não escolhe – acontece, é fatum. Há irmãos que inventamos, irmãos que escolhemos para atravessar connosco “o deserto do mundo”, como escreveu Sophia. E depois há os outros, ditos “verdadeiros” por serem de sangue, que às vezes são nossos amigos e às vezes parecem ser a imagem do sentido do humor do universo, por não poderem ser mais diferentes ou mais afastados de nós nos seus gostos e tendências.

Ser “irmã de” parece ter sido destino de Celeste Rodrigues (1923-2018), ser humano de excecionalidade reconhecida por quem com ela privou e que bem a recorda, pouco mais de dois anos passados sobre o seu desaparecimento. Mas também artista de excecionalidade confirmada, tanto pelo sucesso que alcançou em vida, quanto pelo registo que da sua voz e de algumas das suas atuações, que estendem até a um futuro indefinido a dignidade da sua imagem, a contrição do seu canto, a sobriedade do seu ser um grande animal de palco, para lá de qualquer exibicionismo inútil.

Um destes registos está disponível no YouTube no canal de Diogo Varela Silva, neto da fadista e seu admirador mais-que-confesso (https://www.youtube.com/watch?v=aUWYy5gt990). Trata-se da interpretação de Meu Corpo, versos de José Carlos Ary dos Santos e melodia de Fernando Tordo, originalmente para a voz de Beatriz da Conceição no espetáculo “Cabelo Branco é Saudade” que, pelo ano de 2005, reuniu sob o mesmo palco a artista com Argentina Santos, Alcindo Carvalho e o então muito jovem Ricardo Ribeiro.

É este último que, afastando-se de Celeste majestática, sentada numa cadeira dourada como em olímpico assento, deixa lugar à sombra da rainha. A solenidade da imagem (encenada por Ricardo Pais) é sublinhada pelas rugas da artista, que parecem mais fundas ao cantar. De rubro vestida e, como adorno, apenas uma pregadeira de onde pende um manto: as mãos estreitas ao xaile, estreitas uma à outra, rimam com os joelhos, também eles estreitos na emoção do canto. Os olhos sempre fechados fazem recordar aqueles nobilíssimos ceguinhos, que noutros tempos cantavam o fado nas esquinas de Lisboa – figuras tão reconhecidamente marcantes na forma de cantar e no primeiro repertório de Celeste, como de Amália.

Não sei se o orgulho da tristeza

Nos dói mais do que a pobreza

Não sei

Mas sei

Que estou para sempre presa

À ternura sem defesa

Que eu dei

 

A comoção de Celeste nesta passagem do fado faz-se movimento. Quando canta “Mas sei / que estou para sempre presa”, nega a frase com o gesto da cabeça; mais do que contradizer-se, não aceita. Não aceita estar na gaiola um pássaro de tão ampla asa, voo e canto pelo ar fora, libérrimos. A artista tinha já então mais de oitenta anos. Recordo vagamente de lhe ter ouvido, talvez numa entrevista televisiva, que tinha um certo pudor em cantar o amor romântico na sua idade –  «Meu corpo / É um barco sem ter porto / Tempestade no mar morto / Sem ti / Teu corpo / É apenas um deserto / Quando não me encontro perto / De ti (…)» Se aqui “o fado aconteceu” (como ela mesma costumava dizer) é porque talvez, mais do que doutra coisa, os versos de Ary falem das “memórias do desejo” e das saudades da partida, que ficam sempre com quem permanece, nunca são levadas por “quem parte de tão perto”…

Estive a ponto de fazer uma entrevista a Celeste Rodrigues, pouco antes da sua morte. Alinhei os temas sobre o que pensava orientar a nossa conversa e transmiti-os ao neto, que me acolheu com a maior das simpatias e me contou a história que hoje pretendo recordar. O meu interesse nascia de um facto, muitas vezes aflorado em entrevistas, mas nunca esclarecido totalmente – e que me tocava pessoalmente, por estar ligado às minhas origens familiares. Tratava-se do romance com o cavaleiro tauromáquico José Casimiro d’Almeida, nascido como Celeste nessa grande Beira comum (ele em Viseu, ela no Fundão) com 12 anos de diferença. No final dos anos Vinte vêm ambos para Lisboa com seus irmãos e pais, sendo ambos “os mais novos” de famílias tocadas pelo êxito nos respetivos campos artísticos, aliás, sempre ligados entre si – fado e tourada. O encontro, em 1940, é mencionado por Celeste em duas entrevistas:

Tinha 17 anos – ele 27 – e fiquei completamente louca. Namorámos durante três anos. Depois juntámos os trapinhos. (…) Talvez fosse um pouco avançada. Para mim, sempre bastou gostar. A única coisa que não quis ter fora do casamento foram os filhos, por causa apenas de uma lei que os dava como filhos de pai incógnito (…) No caso do Zé Casimiro, (o que me cativou) era a graça dele. E era muito giro, toureava. Foi um grande cavaleiro de uma família com tradição nas touradas, e tinha muito sucesso com as raparigas. Gostava muito de dançar, tal como eu. Frequentávamos diariamente os chás dançantes. (in «O meu bisneto começou a tocar guitarra para me acompanhar», 06/07/2015, Notícias Magazine)

Era tão engraçado. Era irmão da Casimira, Mirita Casimiro. Com aquele mesmo nariz. Era parecido com ela, portanto não era bonito. (…) Tinha 17 anos quando o conheci. Prendeu-me mais pela conversa. A personalidade.  (…) A minha mãe adorava-o. Aceitou. Mais do que o meu pai. O meu pai não nos falava, ao princípio. As minhas irmãs adoravam-no também.  (in «Celeste Rodrigues – Fado de um azul Celestial» por ANABELA MOTA RIBEIRO, 07/09/2014, Público)

Pelo ano de 1953 (a 10 de outubro do ano anterior, José Casimiro despedira-se do seu público no Campo Pequeno) o romance termina, ao cabo de dez anos: «Um mal-entendido. Ele não gostou que um jornalista tivesse anunciado o nosso casamento e eu vi nisso o medo de assumir o passo. E acabei.»; «A culpa foi minha. Aquele complexo da menina de Alcântara. Entendi mal uma coisa que ele não fez e devia ter feito. Achei que era porque eu era de outro meio [social]. Eu achei que ele não queria que as pessoas soubessem que íamos casar.» Da família Casimiro, porém, Celeste não se livra tão cedo; “Olha a Mala”, o tema de Manuel Casimiro, ex-futuro cunhado da fadista, tornar-se-ia no seu maior êxito de vendas e dura cerca de 12 anos («Nessa altura deixei de ser chamada ‘a irmã da Amália’. Passei a ser a ‘olha a mala’») – apesar da fadista ter rapidamente deixado de gostar dessa música tão absurda e superficial, tão longe do seu sentir mais profundo e requintado.

Muitos e muitos anos depois, já Celeste estava separada do seu companheiro de toda a vida, o ator Varela Silva, soube que José Casimiro estava doente no Hospital da CUF e decidiu visitá-lo, para desfazer, enfim, esse equívoco com quase três décadas. «Ele beijou-me [a mão]. “Sabia que você vinha.” Chamou os médicos: “O grande amor da minha vida está aqui.” Foi chocante. Saber que não me tinha esquecido depois de tantos anos. Sabia tudo o que eu fazia, escrevia-me todos os dias uma carta sem a mandar. Não casou. Eu casei.» conta a Anabela Mota Ribeiro. Também eu ouvi esta história, em primeira mão, da boca do outro interlocutor desse reencontro – o realizador Diogo Varela Silva, que acompanhava a avó nessa emocionada ocasião. E foi com emoção que ele me transmitiu a ternura de um amor tão grande, tão dos confins da vida – e, todavia, tão presente. Na verdade, um bom argumento para um filme melancólico e humano.

Conheço uma única fotografia desbotada em que estão juntos, Celeste e José, datada de 1949, num grupo em que se vê também Amália e se reconhece o ambiente da Adega Mesquita. Frágil imagem de um tão forte sentimento, de uma tão bela estória.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *