Francisco de Almeida Dias

Rubrica Portugal é mátria

Dona Guiomar ou melhor Maria Fernanda Soares Branco

Guiomar – ou Guimar, a versão com que o vocábulo de origem bretã é encontrado em documentação portuguesa desde o século XIII – era o nome dessa figura feminina que, envolta na nuvem do mito, está associada ao início da história da presença nacional na cidade de Roma.

Muito provavelmente de passagem ou de retorno da Terra Santa, meta privilegiada de peregrinação nesse final da Idade Média, esta senhora portuguesa decide fixar-se na Cidade dos Papas, não mais regressando à sua Lisboa natal. Ao que parece, era filha de um certo Vicente, ainda aparentado com a família Noronha, e teria sido casada em algum momento – dado que um pergaminho de 1372 se refere ao seu “dote nupcial”. Sabe-se que morreu durante o pontificado de Bonifácio IX, portanto entre 1389 e 1404.

Ora, a esta mulher, de quem tão escassas informações históricas dispomos, se deve a fundação da primeira estrutura que permitiu albergar os peregrinos portugueses que ali chegavam, depois de uma desgastante e perigosa travessia da Europa em romagem aos lugares santos da ÆTERNA VRBS. E, assim, é a Guiomar de Lisboa que está associado o primeiro capítulo da história pátria (ou melhor, mátria) em Roma, de que se viriam depois a escrever tantos e tão entusiasmantes capítulos.

Monti, o bairro histórico onde se desenrola esta ação, tem no seu nome, de origem medieval, uma clara indicação topográfica: é que dos seus declives, que reuniam três das sete colinas sobre as quais a cidade foi erigida – o Esquilino, o Viminal e parte do Quirinal – se avista, ao fundo, em toda a sua imutável grandeza, o Coliseu. Essa zona, que em época romana antiga fora densamente povoada, por patrícios na parte alta, junto às Termas de Diocleciano, e por plebeus na parte baixa, a Suburra de má fama, era já pouco habitada quando ali chegou Dona Guiomar. Havia então dificuldades no fornecimento de água, dada a dos aquedutos que serviam o bairro, durante as invasões bárbaras.

A propriedade da senhora portuguesa situava-se na freguesia de S. Sérgio e S. Baco, por trás da Igreja da Madonna dei Monti, no quadrângulo formado pelas atuais via del Grifone, via Baccina e via dei Serpenti. E aí, em sua casa, movida pela piedade, pelo espírito de caridade cristã e sem dúvida por um certo patriotismo avant la lettre, começara a recolher mulheres que chegavam a Roma do longínquo e familiar Portugal. Não era só a viagem, mas também os perigos que esperavam essas peregrinas, mais pobres do que ela fora, dormindo pelos pórticos das igrejas, passando privações… Da estrutura inicial, houve memória até 1526 de uma casa, um palheiro e terreno, bem como de uma segunda casa, mais pequena, que Dona Guiomar adquirira em 1367.

Como um número crescente de romeiros lhe pedisse amparo, a piedosa senhora viu-se na necessidade de organizar um hospital ou hospício, nome pelo qual eram conhecidas estas casas que, simultaneamente, acolhiam os peregrinos e lhes prestavam os necessários cuidados médicos. Nascia assim o chamado “Hospital de Nossa Senhora de Belém”, formalizado por uma escritura datada de 1363. Nela se destinava que os bens de Dona Guiomar e dos demais benfeitores (hoje desconhecidos) servissem para a fundação de um alojamento para os portugueses, de ambos os sexos, que a Roma viessem rezar nos lugares santos. Esse mesmo instrumento legal estabelecia as regras de funcionamento e as obrigações assistenciais e pias do Hospital: a direção era atribuída a um governador, eleito pelos portugueses residentes em Roma, que ocorreria no palácio de S. Pedro, na presença do Vigário Geral do Papa, a quem caberia a aprovação da eleição. Assim, o Hospital pertencia à nação portuguesa, mas mantinha-se também sob a alçada da Igreja.

Tais estatutos, conhecidos até 1593, regeram o estabelecimento cerca de 104 anos, o momento da anexação dos hospitais portugueses, projetada por D. Antão Martins de Chaves e concretizada na fundação, no bairro de Campo Marzio, de Santo António dos Portugueses – igreja e instituto que ainda hoje lá estão, para orgulho nosso. À fundadora se refere o diplomata Miguel de Almeida Paile (1900-1958), no primeiro volume do seu Santo António dos Portugueses em Roma, Origens 1363-1508 (Lisboa, União Gráfica, 1951, p. 128):

(…) diretamente de D. Guiomar ou do seu hospital nada nos chegou, tudo se tendo desmoronado e sumido pouco a pouco durante quase seis séculos; mas ao mesmo tempo tudo está vivo, porque está vivo o Instituto, porque do impulso fecundo dessa nossa longínqua compatriota o efeito prolongado e alongado (…) veio até nós (…)

É, de facto, a ela e à memória do primeiro hospital para os peregrinos portugueses, posto sob a invocação de Nossa Senhora de Belém, que se pode ver ainda hoje, à esquerda, logo a seguir ao cruzeiro da igreja nacional de Santo António dos Portugueses, uma belíssima capela com um ciclo pictórico de Antonio Concioli (1739-1820) dedicado à Natividade, assim como, no interior do Instituto que lhe está anexo, uma monumental e magnífica tela do grande nosso Vieira Lusitano (1689-1793), que estudara pintura e desenho em Roma e aí voltou, no turbilhão das suas venturas e desventuras amorosas com D. Inês Helena de Lima e Melo.

A casa original, de dois andares e a da esquina com a atual via del Grifone, foram com o tempo incorporadas numa única propriedade e aforadas em 1778, por várias gerações, à família do mestre-de-obras da igreja nacional, tendo por fim sido adquiridas por um seu descendente em 1909. O resto da propriedade – dois estábulos, e terreno que se alongava para trás até “Monte Cavallo” – foi sendo transformada e edificada progressivamente, tendo sido vendida, pelo início do século XX, aos seus inquilinos. Todavia, ainda hoje lá está, para quem o quiser ver, junto ao número 3 da via dei Serpenti – o brasão de Portugal com a inscrição HAEC. DOMUS. EST SUB PROPRIETATE HOSPITALIS SANCTI. ANTONII LUSITANORUM DE. URBE.

Via dei Serpenti, 3

Uma visita a Roma exige uma passagem pela via dei Portoghesi. Ao entrar-se no pátio de Santo António dos Portugueses, lá se encontrará também memória de Doma Guiomar – uma bela efígie brônzea que, na verdade, a representa apenas idealmente. Bolseiro do Instituto de Alta Cultura em Roma, a metade dos anos Cinquenta, e encarregado pela Reitoria do Instituto do restauro comemorativo da fonte que se encontra ao centro daquele espaço, o escultor Domingos Soares Branco (1925- 2013) obviou o problema da falta de um rosto para a fundadora, colando-lhe a linda face da sua então muito jovem mulher, Maria Fernanda. Conheci-a em Portugal, meio século volvido sobre essa aventura romana, sempre muito bela e muito reconhecível: uma Dona Guiomar em idade madura.

A tertúlia lusófila em frente à casa de Guiomar

Entusiasta da cultura que exprime na nossa língua, reunindo-se a dois passos da velha habitação de Guiomar de Lisboa e, por isso, ligado a ela por um invisível fio rubro de emoção, um grupo de mulheres italianas criou o chamado “Salottino Lusofilo” – uma tertúlia em que se fala em português, se escreve em português e se abordam temas do quotidiano, da cultura ou da afetividade, e sempre em português. A entusiasta anfitriã é Radiana Nigro, que ensinou o Italiano pelo mundo, e também em Portugal – a sua última missão, onde deixou um pedaço do seu coração. Juntam-se-lhe Anna Maria Ferroni, Antonella Miceli, Gaia Marnetto, Giovanna Schepisi (ex-diretora do Instituto Italiano de Cultura em Lisboa), Ivana Bartolini e Roberta Pucci – a única “salottiera” que não aparece na fotografia à porta da casa portuguesa de Monti, mas que canta o fado como verdadeira portuguesa que é, tendo porém nascido em Nápoles… A linha feminina da cultura portuguesa em Roma é assim assegurada, honrada e mantida bem alto por estas imponderáveis “filhas” de Dona Guiomar de Lisboa.

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