Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes. (…)

Assim inicia uma pequena composição poética de Ricardo Reis, com data de 14 de fevereiro de 1933 e publicada no número da revista Presença desses mesmos mês e ano. São versos que sempre me fazem pensar em Marisa Araújo, a coordenadora do CLDS de São Pedro do Sul e que, por coincidência, ainda há dias, podiam ser lidos à porta da sua sede, na Rua Direita, integrados no projeto “A poesia saiu à rua” – um dos muitos pequenos gestos com os quais a equipa pretende qualificar o quotidiano dos sampedrenses. Marisa dá o exemplo, na primeira pessoa: a sua vida fala de alguém que, todos os dias, um após outro, tenta pôr tudo aquilo que é e tem dentro de si em cada coisa que faz.
Quando se lhe pergunta a profissão, diz que é professora. Ser mestre é uma vocação como outra qualquer – e é a sua. Há, de facto, uma forte componente didática na sua missão à frente do CLDS, cujo plano de ação, iniciado com 31 propostas de atividade, pretende sensibilizar as populações de todas as freguesias do Concelho para as suas potencialidades, partindo das suas necessidades. Assim, renunciando ao cómodo vitimismo, tão enraizado na cultura nacional, e mantendo embora uma lúcida visão da realidade local («aquilo que é uma limitação, pode revelar-se uma vantagem, mudando apenas a perspetiva», diz-nos), quer “EMPODERAR” a Comunidade, fazê-la orgulhosa do seu território, a partir de coisas simples que lhes estão na alma profunda. Um exemplo: a ampla distribuição de um saco de algodão para fazer as compras, não só reduz o desperdício e o (ab)uso dos plásticos, mas recorda também um tempo, que não é sequer muito recuado, em que as compras eram feitas de mão na mão e transportadas para casa numa cesta entrançada.

Para Marisa Araújo a experiência no CLDS iniciou quando decidiu fazer um interregno na sua carreira académica, não porque tivesse deixado de gostar de ensinar ou porque o contacto com os alunos da Escola Profissional de Carvalhais não a satisfizesse já, mas porque sentiu surgir em si um desejo de mudança a que era preciso dar azo – dar um salto no vazio, para que a vida a pudesse surpreender. Saiu da entrevista na ADRIMAG (Associação de Desenvolvimento Rural Integrado das Serras do Montemuro, Arada e Gralheira) com um sentimento misto de medo e de enorme alegria, por ter intuído imediatamente o impacto positivo que o projeto viria a ter nos lugares e sobre a vida das pessoas. Em breve não seria só imaginar as coisas boas que poderiam acontecer – seria fazer coisas concretas para que elas se concretizassem.
A divulgação do projeto começou por encontros com todos os Presidentes de Junta de Freguesia do Concelho, o modo mais capilar de fazer chegar à população, de todas as faixas etárias, esta boa notícia: o nosso é um território que ainda está a tempo de combater os efeitos nefastos, que a destruição do ambiente natural já demonstrou em tantos outros sítios. Para que tal aconteça, basta que queiramos, basta que cada um faça a sua parte, sentindo-se parte de um todo.
Com o brilho da sua personalidade e a força persuasiva do discurso, que lhe vem da profunda convicção do que diz e da verdade por detrás das sua palavras, Marisa Araújo tem posto em ato uma verdadeira onda de sensibilização, que é o primeiro passo para a mudança de atitude. E, se aos Ecopontos (criados com os velhos números da Gazeta) se seguiram a “rua florida” e a “poesia na rua”, é porque, para ela, Arte e Beleza trabalham de modo subtil certas dimensões que existem dentro de cada pessoa, e que é apenas necessário avivar. De facto, para breve, espera-se na cidade um grande mural da artista sampedrense Margarida Fleming, a obra gráfica de uma mulher que servirá para homenagear as Mulheres do Interior. Portugal é Mátria…
Aveiro – cidade comunicante, fluida, onde facilmente se chega a todos os lugares e perpassada pelo perfume do mar – foi o lugar onde cursou Línguas. Opção natural, para quem ler e escrever foram tendências que descobriu em si desde muito cedo, dos tempos em que frequentava a Escola Primária, na Vouzela natal. A esse propósito, ainda não há muito tempo, Marisa Araújo teve uma agradável surpresa: a sua professora das 3ª e 4ª classes, Dr.ª Fernanda Figueiredo, a abordou na rua, recordando um lindo texto que escrevera por ocasião do nascimento da sua irmã mais nova – coisa de que ela mesma não se lembrava.
A escrita, que «primeiro deve baralhar as coisas, para depois lhes poder dar uma nova ordem», expressou-a ao longo dos anos, em diversos modos e, um dos mais felizes, foi o blogue que criou sob o estímulo dos seus colegas da Escola de Carvalhais: “Coisas d’amar” (interessante jogo de palavras com o nome por que familiarmente é conhecida, Mar) e cuja descrição exprime bem a dimensão sinestésica e a temperatura humana da sua veia literária: Fragmentos. Coisas pequenas que surgem com os dias. Coisas que podem ser feitas. Com as mãos. Ou que podem ser vividas. Coisas que nos acrescentam. A música, um livro, um sítio, uma refeição. Que depois de incorporadas são memórias. As coisas que gostámos de viver. (in http://d-amar.blogspot.com/)

O seu não é um exercício de exposição pessoal, essa epidemia que aflige os nossos tempos e se difunde através das redes sociais, nem tampouco um espaço onde exprimir uma opinião sobre cada coisa; é, antes, a ocasião de contar uma história a partir de uma receita e de uma imagem, evocação multissensorial, um pouco à la Tolentino Mendonça, entrecortada pelos silêncios que dão mais força às palavras. Há, evidentemente, uma outra escrita, mais íntima, feita para si e para os que lhe estão mais próximos, para a qual não sente urgência ou sequer necessidade de que seja lida, mas que tem vindo a delinear uma sua vocação – e uma sua definição pessoalíssima.
Assim, também, as viagens que ama fazer: que a acrescentam, porque a surpreendem nessa fragilidade em que nos encontramos num lugar outro, diverso do nosso. Não há evasão, há maravilha perante o diverso – e há depois o regresso e todas as coisas que traz consigo nesses regressos, para uma coleção de renovadas memórias. Andaluzia, um entre tantos, talvez o mais belo dos destinos de viagem, porque a ele regressou muitas vezes, ainda estudante e já depois de casada. Quando diz A-N-D-A-L-U-Z-I-A, é invadida pelo cheiro dos limões, pelas sombras rendilhadas da Alhambra de Granada, pelo sabor forte e ácido do manchego, pelos reflexos d’oiro do azeite, pelo ritmo vibrante do tablado flamenco. Mas Marisa Araújo não escolhe um só lugar, deseja-os a todos – recordando a longa viagem até França com os pais e os três irmãos mais novos, a bordo de uma carrinha familiar, ou o fascínio do Norte da Itália, que conheceu com o marido.
Se é verdade que um filho não é um meio de realização pessoal, nem uma garantia de eternidade, também é verdade que Marisa Araújo sempre desejou ser mãe – e desejou sê-lo jovem, para poder acompanhar a evolução do seu filho, crescendo com ele. É a vida doméstica que se entrecruza com a profissional e com a de criadora: pôr quanto é no mínimo que faz, sempre. E o mínimo torna-se o máximo, torna-se a própria vida. Uma vida que sorri nos seus olhos encantadores, cheios de luz.
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