Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria
Um cavalo de fogo a galopar
por estradas sem nome.
(Nem o sol me acordou, nem o relógio,
mas uma vaga fome.)
Duas asas sem pássaro a voar…
(Uma torneira esvai-se, pingo a pingo…)
Não me acordou o chá nem o jornal,
acordou-me o domingo.
Hoje, tantos de tal,
faço anos. Cem anos.
Onde estarei? Metade aqui deitada
a pensar no meu estranho aniversário?
O resto, a galopar
na metade cavalo do meu signo
de Sol e Fogo, o Sagitário?

Em dezembro de 1962, ano e mês em que veio a lume A ilha da grande solidão pela Portugália Editora, Fernanda de Castro não fazia 100 anos, mas 62. No entanto, revela-se, logo no início desse longo poema autobiográfico – que constitui, com África Raiz (1966), o acme da produção poética da Autora – uma sensação de cansaço, de ter já vivido a sua vida inteira. Vida longa e excecional a vários títulos, iniciara com o século a de Maria Fernanda Telles de Castro e Quadros, a que viria a juntar o apelido do marido, António Ferro (1895-1956), interpelado a 6 de novembro de 1920 na Société Amicale Franco-Portugaise, durante uma conferência que o mesmo fizera sobre a escritora francesa Colette: «Quando no fim da conferência nos apresentaram e ele, muito convencido, muito senhor de si, me perguntou se tinha gostado, disse-lhe redondamente que não… O António Ferro olhou-me perplexo. E creio bem que foi nesse momento que resolveu vencer, custasse o que custasse, a minha resistência, nem que para tal fosse necessário – sei lá! – pedir-me em casamento.» – como recordará no segundo volume de Ao fim da memória.
Podemos hoje imaginar o impacto e, sobretudo, o significado de tal grito de independência para uma “menina bem-nascida” como Fernanda de Castro (1900-1994) – filha de um Oficial da Marinha de origem brâmane goesa e de uma senhora de antiga nobreza decaída economicamente, e, por tudo isso, ainda mais austera nos princípios e no sentido de pertença a uma verdadeira elite? Este explica-se, em parte, do mesmo modo como jovem tinha “debutado” na vida pública lisboeta havia alguns meses, não tanto pelo lustro do seu berço e do seu meio, mas pela porta do mérito pessoal: «Preciso de trabalhar, quero trabalhar, vou trabalhar», o seu mote. Foi rapidamente reconhecida como a Autora das «mais sensacionais plaquettes da nossa literatura feminina contemporânea», que imprevistamente surgira «à noite e à tarde nos salões da aristocracia e do copo diplomático, de manhã nas redações dos jornais, esta rapariga alegre e insinuante de 18 anos cheios de saúde e de vivacidade, duma inteligência brilhante e culta», como se lhe refere a Ilustração Portuguesa de 5 de novembro de 1921, acrescentando ainda: «grande exemplo de trabalho e perseverança dá esta rapariga que a sorrir trabalha todo o dia dignificando amplamente a sua ingrata profissão de mulher de letras, bastando-se a si própria, impondo-se como alto exemplo de honestidade e como um enternecedor temperamento de mulher que vence.»

Frequentando as tertúlias artísticas que se reuniam em casa de Branca de Gonta Colaço, Veva de Lima, Elisa de Sousa Pedroso, Carlota de Serpa Pinto e Madalena Martel Patrício, escrevendo para os periódicos O Século, Capital, Ilustração Portuguesa, A.B.C., Pátria, tendo já publicado os livros de poesia Ante-Manhã (1919) e Danças de Roda (1920) e tendo vencido um concurso de originais do Teatro Nacional com a peça Náufragos, escrita com Teresa Leitão de Barros, Fernanda de Castro era uma jovem mulher, moderna e independente, sem sentir vontade ou necessidade de ser escandalosa – como a protagonista da novela em fragmentos do futuro marido, Leviana (1921). Estaria, pois, certamente pronta para enfrentar a família e os amigos, quando lhes comunica a decisão de casar por procuração com o seu colega do Diário de Lisboa, no dia 1 de agosto de 1922, ela em Lisboa, na igreja de Santa Isabel e ele no Consulado de Portugal do Rio de Janeiro, tendo por testemunhas a atriz Lucília Simões (protagonista da peça Mar Alto de Ferro) e o herói nacional da travessia aérea do Atlântico Sul, Almirante Gago Coutinho. O pedido de casamento fora telegráfico, quase futurista: «ACABO TER PROPOSTA MUITO VANTAJOSA PARA SERIE DE CONFERENCIAS CIDADES BRASIL STOP TOURNEE 8 A 9 MESES SO ASSINAREI CONTRATO SE ACEITARES CASAMENTO PROCURAÇÃO TELEGRAFICA STOP PASSAGEM RESERVADA ARLANZA MALA REAL INGLESA STOP PEÇO RESPOSTA TELEGRAFICA STOP ANTONIO».
A vida a dois de Fernanda de Castro iniciada assim, provocatória e aventurosamente, começa no Brasil, onde as conferências do marido (São Paulo, Rio de Janeiro, Baía, Recife, Santos, Ribeirão Preto, Belo Horizonte, Campinas e Juiz de Fora) começarão a ser seguidas pelos recitais da Poetisa, colocando o jovem casal em estreito contacto protagonistas da famosa “Semana de 22”, o ponto de rutura da contemporaneidade brasileira – quando Tarsila do Amaral e Anita Malfatti a retratam simultaneamente. António Ferro publica ali o livro de crónicas Batalha de Flores, dedicado a «A Maria Fernanda, a flor mais linda que me coube na batalha». No início de 1923 o casal regressará a Lisboa onde, a 14 de julho, lhes nasce o primeiro filho, António – Gabriel de segundo nome, em homenagem a D’Annunzio, que Ferro entrevistara em Fiume três anos antes – o futuro filósofo e escritor António Quadros (1923-1993). Apesar de lhes ser frequentemente reconhecida uma grande independência, Fernanda de Castro acompanhará o marido toda a vida, nas “embaixadas culturais” e nas representações de Portugal no estrangeiro, que este promove como diretor do Secretariado da Propaganda Nacional, mais tarde designado SNI. Estavam em Roma como chefes da representação diplomática portuguesa quando Ferro adoece, vindo a falecer em Lisboa – seis anos antes da publicação A ilha da grande solidão, nesse sentimento de luto e de fim da própria vida.
Mas, como várias vezes acontece com existências excecionais, a de Fernanda de Castro estava ainda destinada a muitas surpresas e vitórias, como a de obter, em 1969, o Prémio Nacional de Poesia, pelo meio século de uma carreira literária. A esses haveria ainda de somar mais vinte e cinco anos de produção contínua e renovada, de que fizeram parte a publicação de três volumes de memórias, ditados já depois da acidente vascular-cerebral, que a deixou praticamente cega e hemiplégica. Ao fim da memória I (1986) e II (1987) e Cartas para além do tempo (1990) são um palco por onde desfilam os maiores vultos da cultura portuguesa e mundial do século XX, com quem privou e constituem, assim, um testemunho histórico privilegiado. Poetisa e narradora, jornalista e tradutora, fundadora da Associação Nacional de Parques Infantis, dinamizadora cultural e entusiasta promotora do diálogo inter-artes que atuou com pintores, atores, dançarinos das intensas relações sociais que nunca deixou de estimular – era ainda, afinal, aos 62 anos, um garboso “cavalo de fogo” que haveria de galopar por tantas “estradas sem nome”.

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