Francisco Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria

Chamou-se Amélia, como a rainha, porque o pai, compositor e pianista, era também professor de música dos príncipes reais Luís Filipe e Manuel. Todavia, esta Amélia, haveria de tornar-se uma verdadeira imperadora e o seu imperium era aquele latino, o da autoridade e da supremacia, aquele que cria vassalos.
Desde a sua estreia profissional, na noite de 17 de novembro de 1917, em Lisboa, no Teatro da República (mais tarde dito “de São Luís”, em memória do seu empresário histórico, Visconde de São Luís de Braga) Amélia dominou os palcos e os públicos. Da sua longa carreira de mulher de teatro, especialmente como atriz, encenadora e grande dinamizadora da Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, nos fica esse importante documento, que é também um testemunho da amizade que a ligava a Vítor Pavão dos Santos: O veneno do teatro ou conversas com Amélia Rey Colaço (Lisboa, Bertrand, 2015). O seu império foi o de alguém que soube ser, simultaneamente, humilde nos ensaios, deixando-se guiar pela mão dos diretores; versátil nas performances, dos amados tipos populares portugueses às grandes damas encaixilhadas por tules e peles; arrebatadora, sempre, nos papéis que personificou: puro carisma encarnado.
Amélia Rey Colaço nasceu em Lisboa a 2 de março de 1898, na mesma cidade onde viria a morrer aos 92 anos. E, embora haja esta coincidência de espaço entre o nascer e o morrer, a grande atriz foi uma viajante; neta materna de francesa e alemão e paterna de portuguesa e francês, partiu no fim do ano de 1911 para Berlim onde a avó, Madame Kirsinger, promovia em sua casa uma tertúlia literária e foi aí que os espetáculos de Max Reinhardt lhe contagiam o sangue com o “veneno do teatro”. Entre as digressões que fez, havia de caber-lhe a ela e ao ator beirão Robles Monteiro (1888-1958), com quem casara em 1920 (para, logo no ano seguinte, fundar a Companhia teatral Rey Colaço-Robles Monteiro), uma viagem especial – no verão de 1925, terminada a temporada teatral em Lisboa, rumo a São Pedro do Sul, para inaugurar um novo teatro que acabara de se construir.
Devo a José Daniel Ferreira, a quem muito agradeço, o interessante documento gráfico que aqui publico em primeira mão, e que nunca tinha visto mencionado ou referido nos textos e artigos que evocam a criação do nosso Cine-Teatro. Trata-se, como se vê, da publicidade aos dois espetáculos de estreia do palco sampedrense, nos dias 7 e 8 de junho de 1925, a data perpetuada no medalhão entalhado entre cornucópias douradas, no teto da sala de espetáculos.
A respeito desta inauguração, grande silêncio nas já mencionadas memórias da atriz compiladas por Pavão dos Santos, assim como no catálogo da exposição “A Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro (1921-1974)”, organizada em 1987 no Museu Nacional do Teatro. Se espanto não causasse já o facto de, no fim da saison de 1925, a Companhia ter estreado no Teatro Politeama, em Lisboa, em dias sucessivos e imediatamente anteriores à provável inauguração da nossa sala de espetáculos (5 e 6 de junho), duas novas peças – O chapéu de coco de Henrique Roldão e Quando o amor acaba de Wolff/Duvernois, respetivamente, sendo esta última protagonizada pelos próprios diretores da Companhia – outras pequenas referências jornalísticas à inauguração lançam ainda maior confusão.
Trata-se de duas nótulas, que poderão conter imprecisões ou erros, mas que corroboram a estranheza relativamente ao dia 7 de junho, sendo seguinte àquele em que a Companhia teria de deixar a capital e montar o espetáculo inaugural em São Pedro do Sul. A primeira, no Diário de Lisboa de 9 de junho de 1925, noticia: «Termina amanhã a época de inverno da Companhia Rey-Colaço-Robles Monteiro no Teatro Politeama, indo esta companhia inaugurar, brevemente, o novo teatro de São Pedro do Sul.» A segunda, n’A Capital de 11 de junho do mesmo ano, refere: «O cenógrafo Eduardo Reis foi encarregado das decorações do teatro Portugal, de São Pedro do Sul, em construção.» Podendo admitir, na falta de outras informações, que tenha havido atrasos e que a data perpetuada no medalhão possa ter acabado por não ser exatamente a do dia da inauguração, do que não há dúvidas é que foi Amélia Rey Colaço a primeira a pisar o palco sampedrense, e que o fez com duas peças já conhecidas do seu repertório.
A Migalha fora levada à cena a 16 de maio de 1924, no Politeama. Obra italiana na tradução de Afonso Gayo (1872-1941) – «um poeta de fina e dolorosa sensibilidade, um dramaturgo de incontestáveis méritos, um escritor, enfim, que compreendeu e refletiu, delicado e sensível, o drama dos que vinham ao mundo desamparados, sem a asa da sorte a roçar-lhe a face», como é descrito em Notícias de Ourém a 31 de julho 1960. Scampolo era o título original da comédia em três atos, estreada pela Compagnia Galli-Guasti-Bracci no Teatro Olimpia de Milão, a 3 de dezembro de 1915, da autoria de Dario Niccodemi (1874-1934).
Tal foi o sucesso deste enredo, que dele se fez um romance (Il romanzo di Scampolo, ed. Treves, Milão, 1918) e um libretto de ópera, com música de Ezio Camussi (Sonzogno, Milano, 1926), para além de inúmeras versões cinematográficas (1928, 1932, 1941 e, na versão de 1958 com Romy Schneider como protagonista). “Migalha” era o nome porque era conhecida uma rapariga pobre, engomadeira, que se apaixona por um engenheiro, a quem um dia vai entregar uma peça de roupa. Este, que vive uma história de amor tumultuosa, também fica impressionado pela rapariga. Um dia o engenheiro vence um importante concurso, deixa a amante e a pensão onde reside, perdendo o contacto com Migalha, que, por uma coincidência, o volta a encontrar. Os dois partirão, em final feliz, para uma outra terra.
Amélia Rey Colaço era a protagonista, contracenando com Alfredo Ruas (1892-1966), galã do início do século, filho do empresário Luís Ruas e da grande atriz Adelina Abranches. A atriz recorda um episódio engraçado a propósito: «Quando me propuseram fazer A Migalha do Dario Niccodemi, como o protagonista (…) os meus ilustres colegas não iam aos ensaios. Então o Cândido, o grande ponto (…) disse-me: “A menina não se importe, que os seus colegas faltam aos ensaios, mas eu vou-lhe indicar como a coisa era feita.” E assim, quase cheguei à primeira representação da peça, sem nunca ensaiar com os meus colegas. Eu fui muito amiga do Dario Niccodemi.» (O veneno do teatro, p.261).
A segunda peça a ser representada na abertura no teatro sampedrense foi O Amanhecer, em cartaz na primeira temporada da recém-formada Companhia, a 30 de julho de 1921 no Teatro Nacional de São Carlos, com Amélia e Robles como protagonistas. Este papel já tinha sido, porém, interpretado pela atriz a 25 de fevereiro de 1919, encenada por Lucinda Simões no Teatro Ginásio, ainda solteira (mas já contracenando com o futuro marido) e acabada de regressar de Espanha – como recorda com graça e humildade: «Eu tinha visto em Madrid a peça Amanhecer, do Martinez Sierra. Tinha estado também em Paris, e logo entendi que, nessa peça, ia deslumbrar com as minhas toilettes, os meus fiéis admiradores lisboetas. A minha mãe tinha uma amiga que era consulesa de Inglaterra em Portugal, que lhe deu uns pedaços de tecidos lindos, e eu, para fazer umas toilettes como vira à Jane Marnac, aproveitei a habilidade das filhas do Henrique Lopes de Mendonça, consegui que elas me reproduzissem o que eu tinha visto. E olhe, fez mais sensação o vestido do que a atriz.» (O veneno do teatro, pp.263-4).
Ao fim desse êxito assinado pelo dramaturgo e empresário teatral espanhol Gregorio Martínez Sierra (1881-1947), Amélia Rey Colaço foi ovacionada e recebeu o ramo de flores de uma pequenita de cinco anos, Maria da Conceição Sá Mello Amaral, que muito mais tarde ser a mulher do Dr. António Pinho Bandeira, médico e Subdelegado de Saúde em São Pedro do Sul. Aqui fica mais uma achega para a história do Cine-Teatro; afinal, depois da de uma rainha do mesmo nome, é bom que se não esqueça que São Pedro do Sul recebeu também a visita de uma Imperadora, Dona Amélia.
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