Francisco Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria
Laura Alves
Com uma tensão mal disfarçada pelos sorrisos, denunciada pelo frenesi das palavras em torrente, antecipando quase as perguntas que lhe fazia o jornalista José Mensurado, e com dois imensos olhos tristíssimos, iluminados por fugazes relâmpagos de entusiasmo ou de ternura, que o grande plano e a iluminação frontal contra fundo negro sublinhavam, Laura Alves confessava-se no dia 2 de janeiro de 1968 no programa “Frente a Frente”, do então único canal televisivo português. Nessa meia hora, disponibilizada agora on line pela RTP (https://arquivos.rtp.pt/conteudos/laura-alves/), tomamos o pulso a uma mulher forte que as dificuldades da vida tentavam – e, em parte, conseguiram – fragilizar. E é com certa amargura que lhe ouvimos falar da pequenez do País em que a pura e simples detração tomava o lugar da crítica teatral, feita com base nas tricas de colegas ressabiados, ou da falta de uma verdadeira formação artística para atores, ou da endémica escassez de meios económicos que condicionava as produções. Como único contraponto, este: eu tenho a grande sorte do público gostar de mim e de me entender».
Exemplo raro em Portugal de atriz que se manteve durante mais de 30 anos primeira figura de Companhia, adorada e aplaudida, Laura Alves teve sempre do seu lado o público, que a reconhecia na versatilidade das suas criações e com ela entrelaçava um estreito e cúmplice acordo, uma empatia vibrante, de coração a coração. Houve, é claro, quem dissesse que o seu sucesso se devia ao facto de ser casada Vasco Morgado, esquecendo convenientemente que a sua carreira fulgurante começara aos 13 anos no palco do Politeama, 13 anos antes de se casar com o empresário do Monumental – teatro cujo desmantelamento em 1983, tanto a perturbou, antecipando-lhe a morte, três anos depois. «Eu sou implacável para mim. Eu nunca gosto de mim» (até porque «acabamos como atrizes e como atores quando acreditamos completamente em nós», dirá ainda na entrevista): é por isso, talvez, que os atores sejam criaturas tão carentes de amor.
Laura Alves não tinha então completado 47 anos de idade e era a protagonista da versão portuguesa da comédia Cactus Flower – a mesma que ainda corria no Royale Theatre da Broadway, estreada em 1965, com Lauren Bacall na protagonista e que, em 1969, haveria de conhecer a versão cinematográfica dirigida por Gene Saks, com uma maravilhosa Ingrid Bergman enfrentando Walter Matthau. Aqui a peça, estreada no Monumental a 14 de julho de 1967, com encenação de Manuel Santos Carvalho, pôs Laura Alves a contracenar com Paulo Renato, esteve um ano em cena, passando depois para o Teatro Sá da Bandeira do Porto, e seguidamente proposta em tournée pelo país.
Apesar de repetir várias vezes na entrevista a Mensurado, com extrema e algo dolorosa lucidez, que lhe faltavam formação e meios para se poder medir com atores estrangeiros, Laura Alves estava absolutamente atualizada acerca do panorama teatral internacional. Conta das suas frequentes viagens a Londres, a Paris e à América, onde alarga horizontes e escolhe, de uma infinitude as peças, aquelas que poderá propor num Portugal orgulhosamente só, não descurando também o aspeto económico, dado que sentia na pele as dificuldades económicas com que a “Empresa Vasco Morgado” se debatia constantemente.
Obviamente não era por falta de capacidades dramáticas que Laura Alves não se poderia pôr ao nível dessas grandes atrizes estrangeiras como talento dramático. Há, de resto, na parte final da entrevista, um momento em que declara a sua afinidade com duas grandes estrelas italianas, Anna Magnani e Giulietta Masina. Tal identificação, sobretudo com esta última, surge evidente desde a própria fisionomia – o rosto redondo de criança, os olhos melancólicos contrastando com o claro sorriso, o corpo pequeno e curvilíneo. Também de Masina se assinalou este ano o centenário do nascimento, a 22 de fevereiro, tendo morrido alguns anos depois de Laura Alves. Sobre a eterna Gelsomina de La strada (o primeiro filme italiano a vencer um Óscar em 1957) declarou Charlie Chaplin – que era um dos atores que Laura Alves mais admirava em absoluto – ser a sua favorita. Se o imenso talento de Giulietta emergiu em parte graças às grandes interpretações nos filmes do marido, Federico Fellini – recorde-se, de relance, o filme-homenagem Giulietta degli spiriti de 1965 ou o final e comoventíssimo Ginger e Fred (1985) em que é coprotagonista com Marcello Mastroianni – também é evidente que a ligação sentimental e artística a Vasco Morgado sustentaram materialmente a intuição artística e as capacidades dramáticas de Laura Alves, desde a inauguração do Teatro Monumental em 1951, com a opereta As três valsas.
No fim desse mesmo 1968, a 29 de dezembro, haveria de inaugurar-se, no trecho final da Avenida Almirante Reis ao Martim Moniz, o “Teatro Laura Alves” – no edifício onde funcionara, desde meados dos anos ’30, o Cine-Rex. Uma sala de espetáculos com o seu nome nunca a teve Giulietta Masina. Como lhe faltaram as alegrias da maternidade (tendo sido essa, segundo os biógrafos, a grande tragédia da sua vida com Fellini: o único filho que tiveram morreu-lhes com apenas 11 dias de vida, em 1945). Pelo contrário, Laura Alves teve a satisfação de ver nessa noite de estreia, pisando o palco do seu teatro, o filho, Vasco Morgado Junior, na comédia inglesa O Jovem Mentiroso, encenada por Jacinto Ramos.
O encontro com o Ribeirinho, com quem trabalhou dois anos na Companhia itinerante “Teatro do Povo” (ativa entre 1936 e 1940), abrir-lhe-ão as portas para as primeiras produções cinematográficas dos irmãos Lopes Ribeiro: em 1941 O Pai Tirano, em que lhe toca um pequeno mas divertidíssimo papel de criada, e, no ano seguinte, a irritante e inesquecível Menina Celeste, filha do Evaristo, em O Pátio das Cantigas. São estas as ténues imagens que ficam de Laura Alves para o futuro – juntamente com outras cinco participações, mais ou menos felizes, no cinema, de que se destaca outra irreverente criada, n’O Leão da Estrela (1947) e a glamorosa Beatriz d’O Costa d’África (1954), em que contracena pela última vez com o seu querido Vasco Santana (de quem diz na entrevista, pensando talvez também em si mesma, que pena fora ter nascido em Portugal). Assinalo o importante estudo Laura Alves – A rainha do palco, de Luciano Reis (Sete Caminhos, 2005), para aprofundamentos biográficos.
Nasceu há cem anos atrás, no Bairro de São Mamede, filha do operário Celestino Magno (beirão de Gumirães – Rio de Loba) Laura Alves Magno, no dia 8 de setembro de 1921. Recordava, de pequenina, sair do número 638 da Rua de São Bento e descer até à Madragoa, para levar o trabalho do pai a uma loja na Rua da Esperança, e de se extasiar aí frente ao espetáculo – à teatralidade intuída e espontânea – das zaragatas das varinas: gestos e palavras vivíssimos, que muito mais tarde a haviam de inspirar para a Maria Rosa de Meu Amor é Traiçoeiro (Monumental, 1962). O riso e o pranto das máscaras do Teatro e do género que mais amava, a tragicomédia, foram as linhas que se entreteceram na história da sua vida.

Comentários recentes