Francisco Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria
Deolinda Adão
Lógica. Mas não só. Lírica também, ainda que não declaradamente, senão por gestos. De resto, conhece-se bem da matemática a poesia – e eram os números a outra estrada que aquela menina poderia ter seguido. Deolinda Adão frequentava a segunda classe na Escola Espanhola – falava, desde que nascera, o português e a língua desse seu tio-avó andaluz que ali vivia em casa, vindo ao tempo da Guerra Civil – e era levada por Don Antonio às aulas “dos grandes”, para lhes mostrar como se faziam cálculos e resolviam equações.
Pior que a maldade da Señorita Socorro em lhe corrigir a mão esquerda, fizeram-lha ao mudar de escola (a mãe pensava que o ensino oficial a iria “integrar” melhor): no primeiro dia de aulas recebeu 39 reguadas em frente de toda a turma, quando a mestra tomou por desaforo o não ter a menina compreendido que “vírgula” (tão diversa do familiar “coma” espanhol) era para pontuar, não para escrever. Não recorda a dor física que terá sentido, mas essa humilhação injusta nunca a esquecerá. Lógica, não Lírica.
A preocupação de “integração” da mãe tinha o seu porquê: Deolinda era filha de um tipógrafo, profissão olhada com a maior suspeição pela vigilância do Estado Novo, receosa da propaganda panfletária antifascista. Acrescia que o seu padrinho fora Administrador exonerado das Cadeias em São Tomé e Príncipe, por ter tomado o partido dos trabalhadores das roças, quando estes se revoltaram contra o governo, origem do massacre de Batepá (1953). A vinda da família para o Bairro Alto, tendo Deolinda 11 anos, põe-na em contacto quotidiana com vidas à margem da “boa sociedade” salazarenta – cenas de espancamentos de prostituas e travestis e a polícia, que em vez de proteger os fracos, lhes incutia maiores sofrimentos. Vem certamente daí o seu forte sentimento de inclusão (palavra que, ao tempo, não estava tão na moda como hoje). Diferença? Afinal, o que é que a fazia diferente dos outros, habituada como estava a conviver com todos? «Cresci a ser o outro», diz Deolinda. Lírica. E lógica.
Apesar de nunca se ter filiado num partido, a sua consciência social fê-la associar-se ao Círculo Juvenil de Santa Marta, associado à ala mais liberal da Igreja. E foi nesse contexto que, no fim de 1969, conheceu uma jovem mãe de gémeos a viver numa gruta, no centro de Lisboa, e com as amigas decidiu ajudá-la, visitando-a quotidianamente e dando-lhe alguns bens de primeira necessidade, que compravam com as poupanças pessoais de transportes e refeições. Talvez porque o marido fosse um operário misteriosamente desparecido, a PIDE andava a vigiá-las e assim, com 15 anos feitos havia pouco, Deolinda achou-se a ser interrogada e ameaçada… Mas quando um dos agentes lhe disse que, se não falasse verdade, o irmão seria mandado para a Guiné, calou um riso e percebeu que, afinal, eles não sabiam nada – nem sequer que era filha única. Lógica. Foi nesse instante que perdeu o medo a todas as “autoridades” deste mundo.
A reunião com um irmão do pai, que havia muito dera o salto para a América, adiada por quatro anos, precipitou-se então em dez dias e a 16 de janeiro de 1970 Deolinda Adão chega aos Estados Unidos e instala-se com a família em Albany, uma pequena cidade californiana que tem, porém, o melhor sistema escolar do Estado e é próxima da Universidade de Berkeley. Para além dos estudos, em que se aplica (concluindo aos 17 anos o liceu) respira esse ambiente livre e idealista do movimento Flower children: às flores – simbolizando a paz, o amor, a pertença universal – os hippies reunidos no “Summer of Love” de 1967 juntavam os ideais políticos, saídos anos antes da pena de Allen Ginsberg. Lírica e, certamente, Lógica. Liberdade de exprimir a própria individualidade, a igualdade de todos na corrida à felicidade, o The civil rights movement dos afroamericanos, eram sementes que encontram em Deolinda um terreno fértil, «como um fogo que se espalhasse», nas suas palavras, ainda hoje eivadas de entusiasmo e aderência. Foi exatamente sobre isso que escreveu no autobiográfico “Dos Porfírios à Avenida Telegraph”, texto recentemente publicado no volume Menina e Moça me Levaram, organizada por Aida Baptista e prefaciada pela ex-secretária de Estado das Comunidades Manuela Aguiar, uma edição comemorativa dos 25 anos da Associação Mulher Migrante.
Curiosamente, a próxima batalha seria travada em casa, com o pai insensível ao seu brilhantismo, que não permitiu que aceitasse uma bolsa de estudo universitária de 4 anos, porque a Universidade não era lugar para uma menina como ela. Foi nesse momento que agarrou no telefone e perguntou à queima-roupa ao seu namorado se queria casar consigo, recuperando, nesse gesto arrojado e através do matrimónio, a tutela sobre a sua vida – a Lógica e a Lírica de uma relação que se fez feliz e para a vida inteira, e de que nasceram quase imediatamente dois filhos, determinando um novo adiar dos estudos. Serão só 20 anos depois, quando o mais velho lhe disse que terminara os estudos, que Deolinda decidiu retomar a vida académica, concluindo em 12 anos, aos 39 de idade, licenciatura, mestrado e doutoramento em Literaturas e Culturas Luso-Afro-Brasileiras pela Universidade de Berkeley, onde hoje ensina.
A sua dissertação – publicada em Portugal como As Herdeiras do Segredo (Texto Editores, 2013) – parte de um universo teórico, que enuncia as perspetivas pós-colonialistas dos estudos de género (através das leituras de Gayatri Chakravorty Spivak, Trinh T. Minh-ha ou Judith Butler, que foi sua professora), para se debruçar sobre a tradição literária portuguesa – de Bernandim Ribeiro a Mariana Alcoforado, de Florbela a Natália e às Novas Cartas Portuguesas, obra que considera «de mestria deslumbrante e deslumbrante abordagem cívico-social» e que antecipou de 2 anos o 25 de abril das mulheres portuguesas. Dedica-se enfim à obra daquela que se tornou também uma grande amiga, Inês Pedrosa, e às personagens femininas de três contos seus, mulheres que têm em comum o não estarem tão “inseridas” na sociedade como parece à primeira vista e que progridem na narrativa, ganhando vigor e verosimilhança, ao serem dotadas do bom e do mau, como todas as pessoas.
Há 50 anos nos Estados Unidos, nunca bebeu coca-cola nem comeu num fast food e diz com espírito que as duas coisas mais preciosas que não quer perder são os seus dentes e a sua dignidade. Lógica e Lírica, continua a lutar contra cada coisa que sinta desrespeitar a dignidade humana. Continua a saber que cada um de nós é o centro da própria humanidade, e é por isso que não se conforma a nenhum espaço e a nenhuma personagem a que a queiram constranger. Com um sorriso maroto e menineiro, esta ilustre Professora no Instituto de Estudos Europeus da Universidade de Berkeley, Presidente da Luso-American Education Foundation para a promoção da Língua e Cultura portuguesas no Estado da Califórnia e membro do Conselho da Diáspora Portuguesa desde 2013, continua a desconstruir e a redescobrir a Lírica e a Lógica das coisas.
29/07/2021

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