Francisco de Almeida Dias*
Rubrica Portugal é mátria
Edição 801 (11/03/2021)
Branca de Gonta Colaço retratada por Carlos Reis
Há poucos meses encheram-se os salões da sua casa de poetas e de artistas a quem ela prometera ler algumas passagens do seu Auto (dos Faroleiros) tão harmonicamente belo. Foi uma tarde de encantamento.
Logo aos primeiros versos se fez na sala um silêncio profundo e admirativo. Pouco a pouco, a voz admirável da Poetisa foi-se tornando mais quente, mais vibrante; e quando momentos depois se extinguiu rezando o último verso, todos os espíritos vibravam numa comunhão perfeita de sentimento.
Adentrar no universo de um Poeta é sempre coisa por demais delicada – é como penetrar na casa de uma pessoa que admiramos, onde sempre desejámos estar, mas ao mesmo tempo não querendo ser indiscretos, nem violar a intimidade do nosso ídolo, enquanto esperamos, com a mesma verdade e ardor, sentirmo-nos abraçados por esse ambiente, dele começarmos a fazer parte milagrosamente, sem transições.
Entre os fins do século XIX e o início da centúria seguinte essas entradas não eram apenas feitas pelo atravessamento dos portões do espírito: eram-no também pela porta das casas, no calor doméstico que se infundia às leituras e às conversas, em certos salões de uma elite urbana e culturalmente elevada. Ficaram célebres algumas dessas tertúlias, como a que se reunia em casa de Branca de Gonta Colaço, de que dá conta nestas linhas, publicadas a 18 de dezembro de 1920 na Ilustração Portuguesa, a poetisa Fernanda de Castro – promotora ela também, num futuro não muito distante, de assembleias artísticas e sociais na sua mítica casa da Calçada dos Caetanos.
Apesar de ter nascido e morrido em Lisboa (1880-1945), vem de Parada de Gonta, freguesia do vizinho concelho de Tondela, o nome por que ficou conhecida, a terra de origem de seu pai, o político regenerador e poeta ultrarromântico Tomás Ribeiro. De de sua mãe, Ann Charlotte, poetisa inglesa, herdava o apelido Syder, a que iria juntar mais tarde o do marido: Branca Eva Syder Ribeiro Colaço, quando casa, aos 18 anos, com o pintor e famoso ceramista Jorge Rey Colaço, autor de muitíssimos painéis azulejares por esse Portugal fora (desde as estações ferroviárias de São Bento/Porto, Vila Franca de Xira, Évora e Beja, aos do Palace Hotel do Buçaco, do Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, da Igreja de Santo Ildefonso, no Porto e os do Palácio dos Condes de Óbidos, onde vivia e cujos salões eram acima evocados).
Recordada sobretudo como poetisa, para além de um volume póstumo, publicou todavia, em vida, apenas quatro títulos e alguns poemas esparsos na imprensa periódica da época: Matinas (1907), Canções do Meio Dia (1912), Hora da Sesta (1918, com reedição no ano seguinte) e, quase dez anos volvidos, em 1926, uma bela compilação que dá pelo título ambíguo de Últimas Canções, jogando, portanto, com a dupla possibilidade de serem últimas as mais recentes ou as finais – e finais se iriam revelar, conquanto a autora lhes sobrevivesse ainda vinte anos. Nesse período final haveria de dar seguimento a outra das atividades literárias que lhe rendem mérito – o de memorialista; recordamos que, depois de em 1922 ter dado a lime as Cartas de Camilo Castelo Branco a Tomás Ribeiro, publicou as Memórias da Marquesa de Rio Maior em 1930 e as deliciosas Memórias da linha de Cascais, em coautoria com Maria Archer, dois anos antes de falecer.
Mas outra das paixões de Branca de Gonta Colaço foi o teatro. De facto, o seu Auto dos Faroleiros, de cuja leitura nos dava conta Fernanda de Castro, haveria de ser levada à cena na temporada seguinte de 1921-22, no Teatro Nacional de Lisboa (então designado “de Almeida Garrett”), numa encenação de Augusto de Melo, e com a então famosíssima Ilda Stichini interpretando “A Esperança”. O também já esquecido ator José Ricardo fazia de “Velho Faroleiro” e aquele jovem Artur Duarte, que mais tarde se iria revelar grande realizador e ator cinematográfico, o seu neto. A Autora escreverá, de seguida, mais duas peças, permanecendo ambas inéditas: Comédia da Vida, em colaboração com a atriz Aura Abranches e Porque Sim… Tal paixão pelos palcos está bem patente também nessas Últimas Canções de 1926 – volume que dedicará aos filhos, Maria Cristina Colaço de Aguiar, o escritor Tomás Ribeiro Colaço e a escultora Ana de Gonta Colaço – no qual três das 45 composições poéticas são dedicadas a grandes atrizes do seu tempo: Virgínia (Dias da Silva), falecida em 1922; Palmira Bastos e Lucinda Simões, à época já muito idosa e retirada da vida artística, a quem rende esta comovida homenagem:
Vi-a, sendo eu pequena, a vez primeira,
em Carnaxide, a visitar meu Pai:
Tinha um grande brilhante na pulseira,
que fixei, na lembrança menineira,
à luz doce do tempo que lá vai…
Vi-a depois, de fama e glória cheia,
maravilhas na cena realizar:
Tenho-a visto no palco e na plateia,
e ligo-a sempre à primitiva ideia
dum enorme brilhante a cintilar…
Para além da fortíssima emotividade que permeia as duas estrofes, bem reveladora dessa confessa amizade que vinha do confim da infância, a poesia é dotada desse um poder sugestivo que fez de Branca de Gonta Colaço a grande memorialista que foi, e de que dão conta, ainda mais imediatamente descritivas, outras composições publicadas neste mesmo volume, como “A Quinta das Lapas”, pertencente aos Condes de Tarouca, ou a sinestésica galeria de “Quadros de Carlos Reis” – o grande pintor que retratou também a poetisa, nessa bela tela que ilustra e abre Últimas Canções.
A associação do brilho de uma joia que a espanta, de menina, ao brilho que reconhece à personalidade de uma grande mulher e à performance artística de uma grande atriz é, literária e poeticamente, um triunfo absoluto na sua simplíssima imediatez. Todo o livro, repassado em parte de uma grande nostalgia passadista («Não é quando se acaba que se morre; / é quando acaba o gosto de viver.», no-lo dirá em “De Profundis”, a poesia que o encerra), afigura-se, de resto, um precioso retrato dessa sociedade que se sentiu vencida pela queda da Monarquia e que agonizou durante os anos da chamada “I República”, prestes a terminar, com o golpe militar de 28 de maio desse mesmo ano de 1926 e a longa Ditadura que se lhe seguiu.
(…)
Há sempre um fio rubro de afetividade que nos liga às coisas que verdadeiramente sentimos como importantes na vida e, no que toca a poesia de Branca de Gonta Colaço, o in memoriam que aqui fica é o da minha muito amada e saudosa avó materna, Maria Cecília, de quem herdei o prazer da leitura, o gosto pela escrita, a paixão pela poesia. As Últimas Canções, com dedicatória da poetisa de 23 de junho de 1930, conserva entre as páginas esse cheiro delicado e antigo que me transporta, imediatamente, para casa da minha avó.
*Francisco de Almeida Dias, Ph.D. (1980) é doutorado
em Literaturas Comparadas pela Università
degli Studi Roma Tre
(Edição 201 – 11/03/2021)

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