Francisco Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria
O amor… embora o tempo vá passando, uma paixão é eterna. Não se compadece com essa insignificância que é a morte.
São palavras de Rosa Lobato de Faria (1932-2010) em entrevista sobre o romance As Esquinas do Tempo. Palavras que adquirem maior significado neste mês de fevereiro, em que os dez anos sobre a sua morte são assinalados de forma particularmente afetiva. O El Corte Inglés de Lisboa promove duas sessões de um colóquio que a recorda como escritora (dia 6, com Eugénio Lisboa, Dulce Maria Cardoso, Manuel Alberto Valente e Vasco Rosa) e como atriz (dia 13, com Herman José, Maria Rueff, Fernando Luís, Rita Blanco e Ana Brito e Cunha).

A iniciativa surge em colaboração com o genro da autora, Pedro Rebelo de Sousa, que sobre ela escreve: «No brilho do teu olhar oceânico e nas rugas desejadas do teu rosto, fui-me aninhando ao longo dos anos. (…) Rosinha – sei que integraste, depois da tua morte ainda mais, esse mistério diário da vida, que tento desmistificar nas orações e no que julgo ser o “perpetuar” da alma. O sentido que tanto se busca e que não tem sentido.»
Sobre essa eternidade das paixões foi, de resto, um eloquente testemunho a sua vida – a de uma mulher bela e insinuante que despertou êxtases e exaltações e simultaneamente a de um ser culto e inteligente que soube desdobrar as suas capacidades para abraçar muitos e diversos aspetos de um âmbito que, de modo lato e justamente abrangente, podemos chamar Cultura.
Será durante o seu primeiro, precoce casamento, pouco depois do nascimento dos seus três filhos mais velhos e ainda como “Rosa Maria Sacchetti”, no início da década de Sessenta, que se irão dar as suas primeiras aparições públicas como locutora televisiva, mas, sobretudo, como diseuse de poesia. Recorda-se, entre outras, a sua participação no programa da RTP, apresentado por David Mourão-Ferreira, “Poetas de Hoje e de Sempre” (1964) – uma beleza escultural, uma pose plástica e a voz colocada bem colocada, valorizando as palavras uma a uma.
Se o rigor “profissional” lhe chegara por via da exigência materna, também a poesia viera ter consigo desde há muito, como revelará, mais tarde, em entrevista: «Ao longo da minha vida sempre escrevi poesia. Nos bons e maus momentos. (…) a poesia é uma coisa que vem ter connosco, não se procura. Não dá trabalho nenhum, surge inteira, passa-se para o papel e já está. É um exercício de síntese, por excelência. E essa, achava eu, era a minha vocação.»
Será com cerca de 40 anos que uma outra vocação se lhe irá revelar. Terá então a sua primeira experiência como atriz, graças ao convite do cineasta António-Pedro Vasconcelos para participar no filme Perdido por Cem… (1973), obra que se integra no chamado “Novo Cinema”, movimento que, em Portugal, interpretava e difundia a lição do neo-realismo italiano e da Nouvelle Vague francesa. Outros dez anos terão de passar ainda para que, através das telenovelas, essa faceta da sua vida se venha a tornar conhecida do grande público. É no início da década de Oitenta que iniciará a sua carreira televisiva, com mais de vinte produções em cerca de 25 anos. Quem não a recorda, na verdade, como Beatriz Marques Vila na primeira telenovela portuguesa, Vila Faia (RTP, 1982)?
Aqui, como noutras ocasiões da sua vida, a nova aventura profissional deve-se ao seu entusiasmo, à sua confiança na vida, ao seu espírito de iniciativa, que não conhece o medo: «Quando começaram aqui as novelas brasileiras, dizia para mim própria que devia ter jeito para aquilo. (…) E quando se pensou fazer aqui a Vila Faia, escrevi ao Nicolau (Breyner) dizendo-lhe: “Se precisares de uma quarentona de bom aspeto, acho que sou capaz de fazer um papel. Põe-me à prova”. E o Nicolau chamou-me. Fui lá fazer um teste e fiquei logo mulher do Ruy de Carvalho. Nem queria acreditar: fazer de mulher do melhor ator e de nora da Mariana Rey Monteiro, por quem tenho a maior veneração. Claro, aprendi com eles, o que eu sabia não era nada. Depois foram-me chamando para fazer muitas coisas.»
A vocação literária virá, de novo, ao encontro desse novo momento da sua vida. De facto, muito em breve vê-la-emos a participar, com Herman José e Miguel Esteves Cardoso na escrita do guião da notável (e, à época, tão polémica) série Humor de Perdição (1987), de cujo elenco de atores também fazia também parte. «Eu estou ligada às telenovelas, sinto-me impelida a escrever também telenovelas. Deu-se, inclusivamente, o caso de escrever novelas em que entrei. Como eu digo, é tudo um bocado a mesma coisa.» Seguem-se então Passerelle (1988), Pisca-Pisca (1989), Nem o Pai Morre Nem a Gente Almoça (1990), Telhados de Vidro (1994) e Tudo ao Molho e Fé em Deus (1995).

Outra faceta pela qual Rosa Lobato de Faria será recordada no panorama das artes portuguesas do século XX é a sua participação – por quatro vezes vencedora – nos Festivais RTP da Canção como letrista das músicas que viriam a representar o país na Eurovision. Inesquecível o teledisco em que a cantora Dina (1956-2019), aparecia surpreendentemente metamorfoseada em Carmen Miranda, elencando os frutos que trazia na cesta – ameixa, amora silvestre, uva, morango, caju, abacate, abrunho, pera francesa, romã, framboesa, kiwi – e revestindo-os de uma arrebatada sensualidade (Amor de Água Fresca, 1992). Seguir-se-lhe-iam Chamar a Música (Sara Tavares, 1994), Baunilha e Chocolate (Tó Cruz, 1995) e Antes do Adeus (Célia Laawson, 1997).
Mas aquela que é talvez a mais surpreendente e mais fascinante viragem da sua vida estava ainda por acontecer; e deu-se quando, aos 63 anos de idade, Rosa Lobato de Faria publica o seu primeiro romance, O Pranto de Lúcifer (1995). Este género literário, pelas suas características próprias, permite à autora desenvolver, como nunca até aqui, uma construção de largo fôlego, em que a narratividade assenta sobre a sua cultura sólida e a sua capacidade inventiva, tanto como na sua profunda (e profundamente sensual) sensibilidade, já revelada na poesia.
«A prosa, ou seja, o romance, é um exercício de análise e essa análise implica pesquisa, eventualmente. Eu não me achava minimamente vocacionada para essas coisas. Nem sequer era uma ambição longínqua. (…) E, um dia, quando eu tinha 63 anos, Deus quis que eu nascesse de novo. Contaram-me uma história e eu fiquei a pensar nela. Aquela história não me largava a cabeça. E eu dizia para mim “Isto é um conto, tenho que escrever este conto, senão não me vejo livre desta maçada”. E escrevi. Quando reparei tinha 240 páginas A4 e pensei “Isto se calhar é um bocadinho mais que um conto”. Efetivamente, era um romance.»
A um ritmo notável, seguir-se-ão Os Pássaros de Seda (1996), Os Três Casamentos de Camilla S. (1997), Romance de Cordélia (1998), O Prenúncio das Águas (1999) — vencedor do “Prémio Máxima de Literatura”— A Trança de Inês (2001), O Sétimo Véu (2003), Os Linhos da Avó (2004), A Flor do Sal (2005), A estrela de Gonçalo Enes (2007), A alma trocada (2007), As esquinas do tempo (2008) e, publicado um ano após a sua morte, Vento Suão (2011). Uma grande autora de língua portuguesa – que, para além dos romances, publicou contos e literatura infantil – vem juntar-se e coincidir no nome e na biografia da atriz, da poetisa, da letrista, da dramaturga, da guionista. Foi apenas quatro meses depois do seu desaparecimento que o Estado português reconheceu tão amplo e variado mérito cultural, conferindo a Rosa Lobato de Faria o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.
Tenho para mim, contudo, que mais expressiva homenagem a esta mulher extraordinária é, ainda, o amor: o amor que inspirou e deu, o amor que pôs nas coisas da sua vida e com o qual construiu uma vida tão singular, o tal amor que “não se compadece com essa insignificância que é a morte”.
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